Qual o impacto eleitoral para quem deixa o cargo no meio do mandato

João Doria deve descumprir promessa de completar mandato na Prefeitura de São Paulo para concorrer na eleição estadual. O ‘Nexo’ ouviu dois especialistas sobre os possíveis efeitos para sua imagem

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    João Doria (PSDB) foi eleito prefeito de São Paulo no primeiro turno da eleição de 2016. Ultrapassou seus candidatos ao longo da campanha com discurso de que era gestor, não político, e que justamente por isso iria cumprir quatro anos de mandato sem sequer buscar a reeleição.

    Em setembro de 2016, quando ainda era candidato ao comando da maior cidade do Brasil, assinou um documento garantindo que, se fosse eleito, não deixaria a Prefeitura antes da hora para concorrer a qualquer outro cargo político.

    O primeiro passo para o descumprimento da promessa foi dado nesta segunda-feira (12), quando o atual prefeito da capital paulista teve o nome registrado entre os pré-candidatos do PSDB ao governo de São Paulo. Se passar pelas prévias, Doria terá que renunciar em abril.

    Após anunciar sua decisão de concorrer ao governo de São Paulo, Doria foi muito criticado. Mas as ações anteriores do prefeito já mostravam uma disposição de deixar o comando da capital.

    Ao longo de 2017, em seu primeiro ano à frente da Prefeitura, Doria viajou o Brasil a fim de tentar consolidar seu nome como uma alternativa viável na disputa presidencial.

    Segundo o portal G1, foram 43 viagens em seus primeiros 11 meses de mandato – mais de uma viagem por semana, em média. Desse total, 11 foram para participar de eventos do Lide, grupo de empresários do qual Doria é fundador.

    A popularidade do prefeito foi caindo ao longo do ano de estreia no comando de São Paulo. Pesquisa do instituto Datafolha de novembro de 2017 mostrou que, após 11 meses de mandato, a reprovação à gestão superou a aprovação.

    Diante do quadro, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), se firmou como principal nome tucano para a Presidência da República. Doria abriu mão de concorrer ao Planalto e passou a mirar o governo estadual.

    Integrantes do PSDB avaliam que Doria é um candidato forte, com potencial para ajudar também os tucanos nas eleições parlamentares, seja para a Assembleia, seja para a Câmara dos Deputados.

    A memória tucana

    Publicamente, Doria sempre afirmou que ia cumprir seu mandato de prefeito até o fim. De acordo com levantamento feito pelo jornal Folha de S.Paulo, entre setembro de 2016 (quando ainda era candidato) e janeiro de 2018, o tucano afirmou 13 vezes que não deixaria a Prefeitura para concorrer a nenhum outro cargo. Com o registro de sua pré-candidatura ao governo na segunda-feira (12), Doria deve quebrar a promessa após as prévias do PSDB.

    Ciente dos riscos que o abandono do cargo pode trazer para a sua imagem, Doria se apoia na versão de que está atendendo a um chamado do partido: 1.710 delegados do PSDB assinaram um manifesto em apoio à sua candidatura ao governo do estado.

    Em 2004, José Serra (PSDB) concorreu à Prefeitura de São Paulo e também assinou um documento prometendo que iria cumprir seu mandato integralmente se fosse eleito. Mas não cumpriu. Renunciou em abril de 2006 para concorrer ao governo de São Paulo, num movimento igual ao que Doria pretende agora fazer.

    Serra venceu a eleição estadual. Em 2010, foi ao segundo turno da eleição presidencial contra Dilma Rousseff, mas perdeu. Dois anos depois, em 2012, resolveu se candidatar à prefeitura. Foi bastante cobrado por ter abandonado o cargo em 2006. Reagiu dizendo que havia apenas assinado “um papelzinho” que “não era nada”, pois o documento não foi registrado em cartório. O tucano perdeu para Fernando Haddad (PT) no segundo turno. Nas eleições seguintes, viria a ser eleito para o Senado por São Paulo.

    O impacto da renúncia

    O primeiro turno da eleição de 2018 está marcado para 7 de outubro. Para saber qual o impacto eleitoral de renunciar a um cargo no meio do mandato para concorrer a outro, o Nexo conversou com dois cientistas políticos. São eles:

    Deixar um cargo no meio do mandato tem impacto eleitoral relevante? Esse impacto depende de quê?

    Felipe Borba Essa prática é comum no Brasil e, na verdade, não necessariamente prejudica a carreira dos políticos que renunciaram a prefeituras para se candidatar a governos estaduais.

    O que existe é um caso emblemático, de José Serra, mas há uma característica particular porque, durante a campanha de 2004 para a Prefeitura de São Paulo, ele assinou um documento dizendo que não iria deixar o cargo e depois renunciou.

    Então, o problema não é um político renunciar a um cargo para concorrer a outro, mas quebrar uma promessa que foi feita durante a campanha. Ou seja, se o candidato vem à público antes de ser eleito, promete que cumprirá o seu mandato e quebra essa promessa, isso entra no rol de promessas não cumpridas. É tão grave quando prometer uma política pública durante a campanha e simplesmente não cumprir.

    Olhando para a experiência brasileira como um todo, os candidatos não necessariamente são punidos por renunciarem a um cargo para concorrer a outro mais alto.

    Adriano Oliveira O caso de João Doria é muito parecido com o de José Serra, que também saiu da prefeitura para concorrer ao governo do estado de São Paulo. E essa decisão tem impacto eleitoral, sim. Do ponto de vista das pretensões de Doria, é importante que sua equipe faça pesquisas qualitativas e quantitativas para verificar a reação do eleitor, porque a população pode entender que ele foi eleito para ficar no município e portanto ele deve cumprir o seu mandato.

    Se o eleitorado como um todo estiver satisfeito com a gestão de Doria, vai haver uma percepção de que a saída dele é uma perda para o município, mas que pode haver um ganho para o estado.

    Agora, pensando no outro cenário, se Doria não estiver sendo aprovado em sua gestão à frente da Prefeitura, ele não terá o que mostrar como candidato ao governo do estado.

    Então, é importante que outros candidatos que estejam renunciando a prefeituras para concorrer a governos estaduais tenham uma boa aprovação em seus municípios – e que os eleitores tenham razão para aprová-los –, porque senão ele não terá como usar um discurso de campanha semelhante a “o que eu estou fazendo pela cidade de São Paulo, vou fazer pelo estado”.

    Agora, mesmo que essa estratégia venha a ser efetuada, é importante lembrar se o eleitor de uma cidade cujo prefeito renunciou para concorrer ao governo estadual – como o caso dos eleitores da capital paulista – vai ter um sentimento de que está perdendo um grande quadro [que seria um sentimento negativo] ou se vai sentir que a perda do prefeito vale a pena porque o político tem a chance de assumir o estado.

    Como fica o caso de Doria especificamente, que foi eleito dizendo que não é político agora parte para uma segunda empreitada eleitoral em menos de dois anos?

    Felipe Borba É possível estimar que haverá um impacto negativo de imagem. Claro, é uma análise mais de previsão porque nós ainda precisamos para esperar o que vai acontecer, mas o eleitor paulista tem a experiência do José Serra, que é um caso muito parecido. Essa similaridade pode eventualmente ser explorada pelos adversários de Doria na campanha pelo governo de São Paulo, como um candidato que não cumpre o que promete e não tem firmeza na palavra.

    No caso do Doria, é possível que haja impacto porque ele está contradizendo um discurso que ele construiu há pouco tempo, ele foi eleito em 2016.

    Com relação à manutenção do discurso de “não político”, é muito complicado porque se uma pessoa se candidata a um cargo eletivo e está lá pedindo voto, vai ficar dizendo que não é político? Sinceramente, eu não acredito que isso vá atingir o eleitorado.

    Esse discurso pegou durante um momento específico, o Alexandre Kalil [prefeito de Belo Horizonte] também fez esse discurso em 2014. Mas especificamente no caso do Doria, esse discurso não pega muito porque ele é político há muito tempo.

    Por mais que ele não tenha se candidatado em eleições antes, ele já ocupou cargos públicos, como a Embratur [em 1987-1988], sempre manifestou politicamente. Não acredito que esse fator seja crucial para a história. O mais importante, na minha leitura, é que ele está rompendo uma expectativa gerada no eleitorado por uma promessa que ele está quebrando.

    Adriano Oliveira A decisão de Doria concorrer ao governo pode fazer parte do eleitorado passar a vê-lo como um político carreirista. Ele foi eleito explorando dois aspectos: o lema de “joão trabalhador” e se dizendo “apolítico”. Doria ainda pode apresentar discurso de “trabalhador”, mas se a população não estiver aprovando sua gestão na Prefeitura esse lema não vai colar mais.

    O segundo aspecto se refere a possíveis questionamentos dos adversários, no sentido de diz que não é político profissional, mas está fazendo carreira assim. Essa é uma estratégia que pode ser usada para desacreditar e desconstruir o seu discurso.

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