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Como o otimismo pode ser uma estratégia do movimento ambientalista

Proposta do movimento Earth Optimism é afastar o conservacionismo do “baixo astral” e construir práticas em torno de casos bem-sucedidos

     

    O panda gigante deixou a lista de espécies ameaçadas em 2016. Os órix-da-arábia também não correm mais risco. No México, uma comunidade de pescadores abandonou a prática para transformar sua área em um parque aquático nacional. Em inúmeros países, as fontes de energia renovável vêm sendo cada vez mais adotadas.

    O que esses fatos têm em comum? São boas notícias relacionadas ao meio ambiente. Num mundo em que a todo momento um pedaço de gelo se desprende do Pólo Norte ou uma carga de material tóxico é despejada em um rio, é o tipo de informação que parece escassa.

    Um olhar positivo a respeito do meio ambiente é o que propõe o movimento Earth Optimism (otimismo da Terra, em tradução livre), que realiza um evento digital em abril de 2018 com debates e campanha em redes sociais.

    Segundo o site do movimento, a ideia é afastar o conservacionismo do “baixo astral” e construir práticas em torno do que “está funcionando no conservacionismo, porque é como replicar e ampliar as melhores práticas e boas ideias”.

    No dia do evento, que coincide com o Dia da Terra, a intenção é que instituições, cientistas, ambientalistas, estudantes e o público em geral compartilhem notícias sobre iniciativas bem-sucedidas na área ambiental na internet, com foco no Twitter.

    “Deixamos de nos dar conta dos efeitos colaterais da narrativa apocalíptica.”

    Elin Kelsey

    Cofundadora do Earth Optimism

    Os participantes da campanha enfatizam que não se trata de esconder os fatos ruins ou adotar uma atitude “Poliana”. O objetivo seria fortalecer as atividades de ambientalistas que tenham histórias de sucesso para contar, “aprendendo com suas lições e seguindo seus passos”.

    “Martin Luther King Jr. não disse ‘eu tenho um problema’”, afirmou o biólogo inglês Andrew Balmford, do departamento de zoologia da universidade de Cambridge, em entrevista ao site New Scientist. Entre os cientistas que apoiam a plataforma está a britânica Jane Goodall, antropóloga e primatologista conhecida por seu trabalho com chimpanzés na África.

    Otimismo nos mares

    O movimento otimista surgiu há dez anos durante uma série de aulas da bióloga americana Nancy Knowlton. Na época, Knowlton era responsável por um programa de mestrado em oceanografia no Scripps Institution, na Califórnia. A especialista começou a se incomodar com o fato de que “uma geração inteira de cientistas estava sendo treinada para descrever, em detalhes cada vez maiores e mais sombrios, a morte do oceano”.

    Acreditando que era uma maneira pouco inspiradora de criar futuros ambientalistas, Knowlton decidiu lançar um simpósio chamado Beyond the Obituaries (Para além dos obituários, em tradução livre), focado em histórias de sucesso na área. A partir do simpósio, teve início uma campanha on-line com a hashtag #OceanOptimism.

    De acordo com Elin Kelsey, cofundadora do movimento, em dois anos cerca de 59 milhões de pessoas foram atingidas pela campanha. Instituições como o Banco Mundial utilizaram a hashtag. Knowlton falou sobre o movimento em um evento de sustentabilidade promovido pelo Vaticano em 2014.

    “Nos preocupamos que, ao destacar a recuperação de uma espécie, fazemos o jogo dos céticos do clima ou reduzimos a pressão política por reformas ambientais essenciais”, escreveu Kelsey em artigo para o site do Instituto Smithsonian, apoiador da causa. “Mas deixamos de nos dar conta dos efeitos colaterais da narrativa apocalíptica.”

    Como exemplo, Kelsey citou um encontro na Noruega com crianças entre 10 e 14 anos, de vários países, em que boa parte delas expressava um senso de pavor com relação ao futuro do meio ambiente. “Nunca imaginei que sentimentos assim eram compartilhados entre crianças que viviam em situações tão diversas”, escreveu.

     

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