3 diferenças entre as migrações haitiana e venezuelana no Brasil

Ondas migratórias recentes desafiam governo e sociedade, embora percentual total de estrangeiros no país seja baixo

 

Em 2010, foi o Haiti. Em 2018, a Venezuela. Em menos de uma década, a sociedade civil e o governo brasileiro foram confrontados duas vezes com ondas migratórias provocadas por crises econômicas, políticas e sociais nesses dois países.

O número total de imigrantes presentes no Brasil é pequeno, não passa de 1% da população total. No mundo, a média é de pouco mais de 3%. Ainda assim, o aumento súbito de entrada de haitianos e venezuelanos em território nacional deu destaque incomum ao tema, causando a sensação de que ambos os fluxos migratórios superam a capacidade de absorção.

Parte dessa sensação é provocada pelo fato de pequenos municípios, com pouca estrutura de serviços públicos, terem arcado praticamente sozinhos com a chegada desses imigrantes – Brasileia, no Acre, no caso dos haitianos; e Pacaraima, em Roraima, no caso dos venezuelanos. Só depois, governos estaduais e federal vieram em socorro.

49.581

Foi o número de imigrantes haitianos no Brasil entre 2010 e 2016

40 mil

Era o número estimado de imigrantes venezuelanos no Brasil até o fim de 2017

Por que os venezuelanos migram

A Venezuela enfrenta uma grave crise política e econômica que faz com que milhares de cidadãos fujam do país, cruzando fronteiras internacionais.

A oposição acusa o presidente, Nicolás Maduro, de comandar uma ditadura. O governo acusa a oposição de tramar um golpe de Estado.

A ONU (Organização das Nações Unidas) relata prisões por razões políticas, tortura e morte, enquanto o Procuradoria do Tribunal Penal Internacional investiga informações de indivíduos e organizações que atribuem a Maduro crimes contra a humanidade. Faltam comida, itens de higiene e remédios no país.

Por que os haitianos migram

A onda migratória haitiana para o Brasil teve início em 2010, após um terremoto que devastou o país. A tragédia humanitária, no entanto, é muito anterior.

Desde 2004, o Brasil já comandava as tropas da ONU no país, que enfrentava violência e instabilidade política, ligadas a períodos ditatoriais anteriores.

A imigração é mais presente na história haitiana do que venezuelana, pois as sucessivas ondas de crises políticas e de desastres naturais obrigaram muitos moradores do país a buscarem alternativas definitivas de saída.

A chegada de haitianos e de venezuelanos

Haitianos e venezuelanos não vieram apenas para o Brasil, mas encontraram no país um importante destino.

No caso dos haitianos, pelos laços criados ao longo de 13 anos de operações de paz e da promoção exaustiva de uma imagem positiva brasileira lá. No caso dos venezuelanos, sobretudo pela fronteira física entre os dois países, pela proximidade.

Embora as duas ondas migratórias tenham algumas semelhanças entre si, há pelo menos três diferenças que chamam a atenção de pesquisadores e de organizações que trabalham com o tema.

Três diferenças

Interiorização

Os haitianos chegaram principalmente pelo Acre. De lá, queriam rapidamente sair pelo Brasil, em busca de emprego e de renda. Os venezuelanos chegam por Roraima e muitos preferem ficar por lá. Isso ocorre porque eles têm esperança de poder regressar rapidamente ao próprio país. Além disso, muitos fazem do Brasil apenas um ponto de abastecimento para os produtos que faltam na Venezuela.

Mulheres

De acordo com a Pastoral do Migrante, o número de mulheres imigrantes haitianas sempre foi muito menor que o número de homens, no Brasil. Em 2014, por exemplo, um dos momentos de mais alto fluxo, a presença de mulheres haitianas era de apenas 7%. No caso das venezuelanas, é diferente. De acordo com um estudo demográfico publicado em 2017, as mulheres venezuelanas representavam 37% do total de imigrantes. Isso ocorre porque a rota, no caso da Venezuela, é tida como mais direta e segura para a viagem em família.

Resposta do governo

A resposta do governo brasileiro à imigração haitiana foi considerada desorganizada por entidades de direitos humanas que monitoram a questão. Além dos abrigos insalubres na fronteira, havia desorganização entre os governos municipal, estadual e federal – a tal ponto de o governo do Acre fechar abrigos e embarcar imigrantes para São Paulo, em ônibus, sem aviso prévio. Foi criado um improviso legal chamado “visto humanitário”, para possibilitar a permanência dos haitianos. No caso dos venezuelanos, há uma nova lei (a nova Lei de Migração), que pretende facilitar a concessão de visto. Além disso, após a experiência haitiana, os governos envolvidos se anteciparam em criar uma força tarefa que pretende ser mais articulada.

ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto chamava erroneamente a nova Lei de Migração de novo Estatuto do Estrangeiro. A informação foi corrigida às 11h21 do dia 14 de março de 2018.

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