Como foi a primeira eleição na Colômbia após o acordo de paz

Eleitores escolheram novo Congresso. Agora, votarão para presidente. Ex-guerrilha é um dos principais assuntos da campanha

O ano de 2018 é decisivo para um dos assuntos que têm dominado a Colômbia nos últimos anos. No domingo (11), foram eleitos os novos parlamentares do país. A eleição presidencial será em 27 de maio, e, se houver segundo turno, ele será em 17 de junho.

Nas duas eleições está em jogo o maior legado do presidente atual, Juan Manuel Santos, no poder desde 2010: o acordo de paz firmado em 2016 com as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia).

As Farc eram um grupo de orientação comunista que atuava com táticas de guerrilha desde os anos 1960, mantinha conexões com o tráfico de drogas para se financiar e almejava chegar ao poder do país.

Por conta do acordo, que marcou o fim de um conflito interno de cinco décadas, Santos recebeu o prêmio Nobel da Paz em 2016.

Seu governo também negocia a paz com o ELN (Exército de Libertação Nacional), historicamente o segundo grupo guerrilheiro mais expressivo da Colômbia.

A anistia e a participação política

As Farc entregaram os armamentos e seus integrantes que não estavam presos foram anistiados. O processo de paz incluiu a transformação das Farc em um partido político regular, que mantém a mesma sigla, mas agora com o nome de Força Alternativa Revolucionária do Comum.

O acordo estabeleceu uma cota de 10 dos 278 assentos no Congresso entre 2018 e 2026 (somando Câmara e Senado). Ou seja, mesmo que nomes da Farc não obtivessem os votos necessários, teriam cinco cadeiras garantidas na Câmara e cinco no Senado.

O próximo governo colombiano (e o próximo Congresso) deverá consolidar de vez o processo de paz, expandindo também para um acordo com o ELN, ou dar meia-volta.

A Farc e as Farc na eleição

O acordo com as Farc foi um dos principais temas para a eleição legislativa. O tema é um dos mais sensíveis para a população, divide a opinião pública e deverá continuar relevante para a campanha presidencial.

Um lado vê o acordo e a transformação da guerrilha em partido como a única forma de resolver o conflito de cinco décadas, outro vê como um ato de impunidade e conivência com a violência e crimes cometidos pelos agora ex-guerrilheiros.

No referendo em 2016 sobre o acordo de paz, o “não” venceu com 50,2% dos votos, o que foi contra as previsões da época. O governo modificou alguns pontos, conseguiu aprovação expressiva no Congresso e deu continuidade ao processo de paz.

O voto na Colômbia não é obrigatório. Como no Brasil, o Congresso colombiano é dividido em Câmara e Senado. Os parlamentares cumprirão mandato até 2022.

  • 59% foi o índice de renovação do Congresso nas eleições de domingo (11)
  • a Farc (partido político) não obteve votos necessários para conseguir assentos além da cota
  • a maior bancada no Congresso, embora não com a maioria dos assentos, será da aliança de direita, do ex-presidente e senador Álvaro Uribe, um grupo contrário ao acordo de paz

A Farc e a disputa presidencial

No dia 8 de março, a Farc anunciou que seu maior líder, Rodrigo Londoño, também conhecido como Timochenko, não seria mais candidato presidencial e não haveria um nome para substituí-lo. Ele está internado com problemas no coração.

Londoño não tinha um apoio expressivo dos eleitores, com cerca de 1% nas pesquisas de intenção de voto. Até o momento, a Farc não manifestou apoio para nenhum outro candidato.

A eleição legislativa como termômetro

A eleição legislativa também acaba funcionando como um impulso ou uma má notícia para quem disputa a Presidência. Ter uma bancada expressiva já eleita no Congresso pode ajudar na reta final da campanha presidencial.

A aliança de direita do candidato presidencial Iván Duque e do ex-presidente Uribe foi a principal vitoriosa, com quase um terço dos assentos totais no Congresso, embora aquém das projeções que esse grupo político tinha. Essa aliança é conhecida informalmente como “Coalizão do Não”, em referência à rejeição ao acordo de paz.

Entre os candidatos presidenciais competitivos, a maioria é a favor dos processos de paz no país. Políticos identificados com a esquerda, o centro e até a centro-direita se mostram favoráveis ao processo. Iván Duque é, na eleição, a principal voz contrária aos acordos.

A prévia para a escolha dos presidenciáveis

No mesmo dia em que os colombianos votaram nos parlamentares, houve também prévias dos pré-candidatos à Presidência, para definir quem terá o nome nas urnas em maio. Essa prévia definiu quem serão os candidatos dentro de cada coligação. Essa consulta foi aberta a todos os eleitores, e não restrita ao interior dos partidos coligados.

Na seção de votação, o eleitor poderia escolher apenas uma das duas cédulas para assinalar: ou de uma aliança de direita ou de uma aliança de esquerda. Os mais votados foram Iván Duque (na direita) e Gustavo Petro (na esquerda). Os dois estão empatados tecnicamente nas pesquisas de intenção de voto mais recentes.

As demais alianças políticas já haviam decidido anteriormente quais seriam seus candidatos presidenciais. A reeleição presidencial não é mais permitida na Colômbia. Quem for eleito governará até 2022.

Os principais candidatos à Presidência

IVÁN DUQUE

É senador e foi assessor do ex-presidente Álvaro Uribe, ainda hoje um dos políticos mais influentes na Colômbia. Venceu neste domingo a consulta popular no campo da direita. Tem 41 anos e já se referiu ao acordo com as Farc como “impunidade para criminosos”, prometendo rever o acordo caso seja eleito. Sua aliança obteve a maior bancada no Congresso: 31% dos assentos.

GUSTAVO PETRO

Ex-prefeito da capital Bogotá e ex-senador, Petro integrou nos anos 1970 o grupo guerrilheiro MR-19, que se desmilitarizou na década de 1990 e deu origem a partidos políticos. Venceu neste domingo (11) a consulta popular no campo da esquerda, com mais votos do que esperado, o que impulsiona sua campanha. Tem 58 anos e defende o acordo de paz com as Farc. Disputou a Presidência em 2010, quando ficou em quarto lugar, com 9% dos votos. Sua aliança obteve uma bancada pouco numerosa no Congresso: 2% dos assentos.

GERMÁN VARGAS LLERAS

Foi presidente do Senado, além de ministro e depois vice-presidente de Santos, cargo ao qual renunciou em 2017. Ao deixar o governo, se distanciou de Santos, com críticas ao acordo com as Farc, embora ainda defenda o processo de paz. Tem 56 anos e está identificado no campo da centro-direita. Também concorreu à Presidência em 2010, obtendo 10% dos votos e a terceira colocação. Sua aliança obteve uma das maiores bancadas no Congresso: 16,5% dos assentos.

SERGIO FAJARDO

Ex-governador da Antioquia e ex-prefeito de Medellín, a segunda maior cidade do país. Fajardo se apresenta como nome de centro e independente. Tem 61 anos e é favorável aos acordos de paz e à participação da Farc na política da Colômbia. Foi candidato a vice-presidente em 2010, na chapa que ficou em segundo lugar, com 21,5% dos votos no primeiro turno. Sua aliança cresceu no Congresso: 9% dos assentos.

Farc tentaram disputar eleições no passado

As Farc surgiram a partir de movimentos que lutavam pela reforma agrária na Colômbia, a partir de 1948. A guerrilha passou a atuar a partir da década de 1960, no contexto da Guerra Fria — em que o mundo se dividiu entre um bloco capitalista sob influência dos Estados Unidos e um bloco comunista sob influência da União Soviética.

O grupo aderiu à luta armada, com ações principalmente em regiões rurais e ermas da Colômbia. Em 1985, em uma das tentativas de paz, tentou ingressar na vida política regular do país, firmando um acordo com o governo que deu origem ao partido UP (União Patriótica), formado por simpatizantes da guerrilha.

Mais de 3.000 militantes do partido, incluindo dois candidatos à Presidência e cerca de 100 parlamentares, porém, foram assassinados ao longo dos anos por narcotraficantes, militares ou paramilitares ligados ao governo.

A UP fechou em 2002, já que nenhum integrante se aventurou mais a disputar eleições, mas voltou à ativa em 2015, embora permaneça um partido pequeno na Colômbia. Em 2018, a UP faz parte da aliança do candidato presidencial Gustavo Petro.

Nos anos 1990, com a dissolução da União Soviética e a maior importância do narcotráfico e da indústria de sequestros no financiamento das guerrilhas, as Farc e outros grupos passaram por um declínio ideológico, numa história que vive agora seu novo capítulo eleitoral.

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