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Como as cidades podem se preparar melhor para enfrentar crises hídricas

Diversificação de sistemas é uma saída que vem ganhando espaço. Debate e legislação ainda precisam avançar no Brasil, segundo especialistas

 

No dia 22 de março, comemora-se o Dia Mundial da Água. Em Brasília, entre os dias 18 e 23 de março, deve acontecer o Fórum Mundial da Água, evento internacional com representantes dos setores público e privado. O Nexo aproveita a data para tratar de alguns dos temas relevantes para a área em uma série de quatro expressos e um gráfico. Este é o primeiro.

Cingapura é uma cidade-Estado insular com alta densidade populacional e que depende de fontes de água localizadas além de suas fronteiras, na Malásia. Após décadas sujeitando-se a preços e condições impostos pelo vizinho, que em alguns momentos chegou a ameaçar cortar o fornecimento, o país decidiu em 2003 que buscará a autossuficiência de água até o ano 2061. Atualmente, Cingapura vem investindo em projetos de dessalinização e reuso da água.

Em 2008, a cidade de Barcelona sofreu com um forte período de estiagem. Umas das medidas tomadas pela capital catalã foi construir uma usina de dessalinização de água do mar com produção equivalente a 200 mil metros cúbicos diários, suficientes para fornecer água potável a cerca de 1,3 milhão de pessoas (20% da população da Catalunha).

A procura pela diversificação de fontes de água vai se tornando uma questão urgente para cidades e regiões ao redor do mundo. Geralmente, é em momentos de crise que fica exposta a vulnerabilidade de se depender de um só modelo, em geral, o sistema de captação de água de mananciais e seu represamento.

O caso da Cidade do Cabo, na África do Sul, é emblemático. A metrópole sul-africana atravessou três anos de seca, a pior já registrada pela cidade de aproximadamente 4 milhões de habitantes. O fenômeno El Niño provocou chuvas no verão e uma seca no inverno no sul da África. Em 2016 inteiro, por exemplo, a Cidade do Cabo registrou 200 milímetros de precipitação. É menos do que a cidade de São Paulo costuma registrar, apenas no mês de janeiro (média de 237 mm).

“Nossa cultura se habituou a imaginar ou idealizar que temos água abundante.”

Guilherme Castagna

Engenheiro civil e designer ecológico

A Cidade do Cabo era abastecida por seis grandes represas. Com a seca, estas ficaram com níveis baixíssimos, motivando as autoridades a estabelecer o “dia zero”, quando o nível forçaria a introdução de um racionamento severo, de 25 litros de água por habitante.

Com a crise, iniciou-se uma discussão sobre fontes alternativas de suprimento. Duas usinas de dessalinização, que extraem água do mar e filtram o sal, estão planejadas para a região. A primeira iniciativa é temporária e tem inauguração prevista para março de 2018. Sua produção de 2 mil metros cúbicos de água por dia está muito aquém das necessidades da cidade. “Ter diversificado nossas fontes há mais tempo teria ajudado muito”, explicou o cientista ambiental Kevin Winter, da Universidade da Cidade do Cabo, à revista Wired.

“A diversificação traz segurança. Quando se depende de um único sistema e ele é afetado, você não tem nenhuma alternativa, então tem de buscar outras fontes”, disse ao Nexo o chefe do departamento de recursos hídricos da Unicamp, Antonio Carlos Zuffo.

Ausência de discussão no Brasil

Segundo relatório da ANA (Agência Nacional de Águas) divulgado em dezembro de 2017, 48 milhões de pessoas foram afetadas por secas ou estiagens no Brasil, entre 2013 e 2016.

Em uma comissão do Senado realizada em 8 de março, o especialista em recursos hídricos da Diretoria de Regulação da Agência Nacional de Águas, Patrick Thomas, comentou que crises hídricas vêm sendo registradas em locais em que estiagens não eram previstas. “A tendência é que essas crises aconteçam cada vez mais e em regiões onde não se esperava”, afirmou.

 

As cidades brasileiras de São Paulo, Fortaleza e Brasília passaram por crises hídricas nos últimos anos, depois de longos períodos de estiagem. Nos três casos, houve racionamento (em Brasília, chegou a 85% da população) e temores sobre o futuro, caso o abastecimento não se normalizasse. Em São Paulo, foram projetados cenários de crise aguda, que poderiam resultar em graves problemas sociais.

As três capitais foram “salvas” ao final pela chegada de chuvas. No Distrito Federal, por exemplo, o mês de fevereiro de 2018 trouxe alívio quando, em apenas cinco dias, choveu quase metade do esperado para todo o mês, recuperando os níveis dos reservatórios.

Para os dois especialistas ouvidos pelo Nexo, falta discussão sobre a diversificação de sistemas. “Nossa cultura se habituou a imaginar ou idealizar que temos água abundante”, explicou Guilherme Castagna, engenheiro civil e designer ecológico, ligado ao grupo ativista Aliança pela Água. “Mas a verdade é que vivemos em estresse hídrico constante.”

 

Zuffo concorda que o momento é de atenção. Segundo ele, baseado em estudos sobre ciclos de chuvas desde o começo do século 20, as regiões Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste devem registrar chuvas anuais um pouco mais baixas, apresentando redução de 10% a 15%. “Com isso, as vazões dos rios devem ter queda de 20% a 30%, e isso vai impactar negativamente o abastecimento”, afirmou.

A busca por saídas

Em Fortaleza, a Companhia de Água e Esgoto do Ceará (Cagece) declarou, em fevereiro de 2018, que busca diversificar a matriz hídrica da área metropolitana. Duas usinas de dessalinização devem ser instaladas na região. Empresas interessadas em realizar o projeto da primeira têm até 5 de maio para entregar suas propostas. A ideia é que a usina forneça água a quase um terço da população da cidade.

Nos casos de Brasília e São Paulo, a dessalinização é inviável financeiramente. Mesmo próxima do litoral, a capital paulista teria de investir muito dinheiro no bombeamento da água marinha em direção ao planalto, de acordo com Zuffo.

 

Para os dois especialistas, além de um consumo mais racional e sem desperdício, a água deveria ter seu reúso mais incentivado, por meio de legislação para empresas e campanhas para consumidores.

É o que recomenda também o Relatório Mundial das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento dos Recursos Hídricos 2017, que pede mudança no modelo de gestão das águas no mundo, substituindo o sistema de “tratamento e eliminação” por “redução, reutilização, reciclagem e recuperação dos recursos'”.

De acordo com Castagna, a água é usada de maneira “burra” no Brasil, pois a versão potável do líquido acaba servindo para todo tipo de propósito, inclusive os menos nobres, como a irrigação urbana ou descarga de vasos sanitários. Para ele, deveria-se aumentar a utilização de “água inferior”, ou seja, de reúso, para esses fins.

“No Brasil, falta legislação que regule o uso ‘direto’ da água de reúso em empresas”, declarou Zuffo. Ele explica que empresas têm de realizar processos mais complexos e custosos, que envolvem lançar o líquido usado no curso d’água para, em seguida, recapturá-lo. Foi o que fez, por exemplo, a companhia de abastecimento Sanasa, que serve a região de Campinas, no Aeroporto de Viracopos.

“Qualquer planta de reúso requer um licenciamento ambiental e esses licenciamentos são muito difíceis de serem conseguidos porque não temos clareza sobre limites e sobre parâmetros da qualidade que essa água, que vai ser feita de reúso, deve ter para aplicação”, explicou o coordenador de Implementação de Projetos Indutores da Agência Nacional de Águas (ANA), Devanir Garcia dos Santos, em entrevista à Agência Brasil.

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