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Por que a personalidade muda com a idade, segundo esta pesquisa

Ao contrário do que se esperava, estudo verificou que a personalidade mudou dramaticamente entre a juventude e a velhice

 

Diferenças individuais de personalidade podem estar associadas a decisões e atitudes importantes sobre, por exemplo, trabalho e cuidado com a própria saúde. Uma série de estudos aponta que a personalidade se mantém em grande medida estável no decorrer do tempo.

Há trabalhos indicando que traços de personalidade extrovertida na juventude se correlacionam a índices mais altos de bem-estar na velhice, enquanto traços neuróticos - ligados a sentimentos como de ansiedade, solidão, frustração, inveja e depressão - tendem a se correlacionar a menos bem-estar.

Um estudo publicado em 2016 na revista científica da American Psychological Association buscou, no entanto, medir se há mudanças significativas na personalidade em um intervalo especialmente longo, de 63 anos no total. O trabalho foi mencionado em um artigo de fevereiro de 2017 no site do Fórum Econômico Mundial.

A pesquisa adota a seguinte definição de personalidade: “padrões característicos de pensamento, emoção e comportamento de indivíduos, junto a mecanismos psicológicos - ocultos ou não - por trás desses padrões”.

Ela mede variações de personalidade de pessoas quando elas tinham 14 e 77 anos. A conclusão foi de que, ao contrário do que se esperava, a personalidade mudou dramaticamente nesse período.

“Nossos resultados sugerem que quando o intervalo [de análise] é elevado para 63 anos, mal há traços de relação [entre personalidades]. Mudanças de personalidade ocorrem gradualmente no decorrer da vida, mas na vida adulta a personalidade pode ser muito diferente da infância.”

Pesquisa “A estabilidade na personalidade entre 14 e 77 anos”, publicada em dezembro de 2016 na revista da Sociedade Americana de Psicologia

Como a pesquisa foi realizada

Dados sobre o grupo pesquisado foram coletados inicialmente em 1947, entre jovens nascidos em 1936 na Escócia, em um grupo de mais de 70 mil crianças. Foram realizados testes de inteligência e personalidade.

Posteriormente, 1.208 desses jovens foram selecionados para a realização de mais estudos. Em 1950, pesquisadores pediram que os professores desses jovens dessem notas gradativas que iam de “fortemente em falta” até “fortemente apresentada”, avaliando seis traços de características estudados com frequência pela psicologia:

  • Autoconfiança, a segurança sobre o próprio julgamento, poder e habilidade
  • Perseverança, a capacidade de insistir para atingir o sucesso, apesar dos desafios
  • Estabilidade de humor, ausência de grandes oscilações de humor, do tranquilo para o irritado, ou do alegre para o depressivo, por exemplo. Esse é o pólo oposto a neuroticismo, que se relaciona a emoções negativas, como depressão e ansiedade
  • Conscienciosidade, a busca por eficiência, cuidado, organização e seriedade no cumprimento de obrigações
  • Originalidade
  • Desejo de atingir a excelência

A análise estatística sobre a presença ou ausência desses traços de personalidade mostrou que eles tendiam a acompanhar um ao outro. Havia uma correlação forte entre eles, por isso os pesquisadores os associaram em um único termo: dependabilidade, que se correlaciona em grande medida com a conscienciosidade.

“Dependabilidade é um traço que descreve motivação e diligência; é possível confiar em um indivíduo com altas notas desse traço para realizar objetivos, resistir a desistir, e talvez, para ser mais racional do que emocional”, afirma o trabalho.

O mesmo questionário foi aplicado para avaliar 171 dessas pessoas em 2012, quando elas tinham 77 anos, em média. O documento foi preenchido por pessoas que conheciam os pesquisados, como amigos, familiares e parceiros amorosos. Os próprios participantes também preencheram o mesmo questionário.

Também se pediu que completassem uma pesquisa sobre personalidade, uma sobre bem-estar mental, uma sobre satisfação com a vida, um teste de capacidade de leitura, um teste de cognição, um questionário sobre sua saúde mental e os mesmos dois testes de inteligência que haviam realizado na infância.

Foram excluídos idosos diagnosticados com demência, que leva a mudanças de personalidade.

O que a pesquisa concluiu

Os pesquisadores escrevem que, com base em pesquisas anteriores, esperavam encontrar estabilidade de personalidade no decorrer da vida das pessoas pesquisadas, mas que essa expectativa foi frustrada.

Não foi encontrada uma forte correlação entre as notas de dependabilidade durante a juventude, aos 14 anos, e durante a velhice, aos 77. Isso é um indício de que a personalidade muda drasticamente durante a vida.

“Nossa hipótese era de que encontraríamos estabilidade de personalidade ao longo de um período ainda mais longo [do que o analisado por trabalhos anteriores], de 63 anos, mas nossas correlações não trouxeram suporte a ela”, afirmam os pesquisadores.

O trabalho afirma que é possível que isso tenha ocorrido devido a mudanças nas circunstâncias de vida, e ao declínio da capacidade física e cognitiva na velhice.

Além disso, a adolescência é uma época da vida particularmente dinâmica. Por isso, é possível que os pesquisados tenham passado por alterações de personalidade em idades próximas à primeira fase da pesquisa.

A pesquisa também admite que é possível que os resultados tenham sido influenciados pelos diferentes graus de capacidade dos alunos de se relacionarem com os professores e obterem avaliações positivas deles, assim como por preconceitos desses professores.

“Observadores também podem ser influenciados por uma série de fatores irrelevantes, como aparência, sua opinião sobre a família de um sujeito, ou preconceitos em relação à área em que ele vive”, diz a pesquisa.

Traços de permanência de conscienciosidade e estabilidade

Um modelo matemático mais complexo utilizado pelos pesquisadores indicou, no entanto, relativa estabilidade em duas características: conscienciosidade e estabilidade de humor. Esse é um indício de que “as personalidades na velhice e na infância podem não estar completamente desvinculadas”.

Além disso, a pesquisa também indicou uma associação entre níveis de inteligência maior e estabilidade de humor. “Uma inteligência maior pode levar a uma maior estabilidade de humor devido a uma capacidade melhor de administrar circunstâncias ambientais para obter maior vantagem”, afirma a pesquisa. Via de regra, no entanto, há pouca estabilidade de personalidade, diz o trabalho.

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