Ir direto ao conteúdo

Como a Guerra do Aço de Trump mexe na economia americana e mundial

Presidente dos EUA quer proteger a siderurgia nacional, mas pode aumentar os custos de outros setores. Parceiros comerciais reclamam da medida

 

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou no dia 1º de março que pretende cobrar tributos sobre todo o aço e o alumínio importados pelos americanos. A medida gerou reações imediatas de outros países, principalmente os que vendem esses produtos para os americanos

A taxação dos metais está em linha com o discurso que elegeu Donald Trump em 2016. Na campanha, o republicano prometeu medidas para proteger o mercado dos EUA e incentivar a indústria local. Com o anúncio, Trump fez um aceno a seu eleitorado e preocupou os que criticam seu protecionismo.

O presidente americano quer cobrar 10% sobre o alumínio e 25% sobre o aço que as empresas americanas comprarem de outros países. Por enquanto, a taxação dos metais é apenas uma intenção manifestada por Trump, já que a ordem ainda não foi assinada. Mas o simples anúncio já causou reações.

As ações das siderúrgicas americanas começaram a subir rapidamente. A AK Steel teve uma valorização de quase 9% nas horas seguintes. Por outro lado, o mercado como um todo reagiu mal.

O principal índice da bolsa de Nova York, o Dow Jones, chegou a cair mais de 3% em 24 horas, entre os dias 1º e 2 de março, mas depois recuperou parte das perdas.

O mercado, segundo o jornal americano The New York Times, estaria assustado com a ação não por sua magnitude, mas porque ela indica que Trump está disposto a ignorar seus “conselheiros mais sóbrios” para atingir seus objetivos de melhorar os termos de troca para o comércio exterior americano.

Os EUA importaram em 2017 US$ 30 bilhões em aço e US$ 17 bilhões em alumínio. Supondo que o volume de comércio se mantenha e que as tarifas sejam mantidas no nível prometido por Trump para o alumínio, haveria ainda uma arrecadação em torno de US$ 9 bilhões anuais.

“Quando um país (EUA) está perdendo vários bilhões de dólares em comércio com praticamente todos os países com que faz negócios, guerras comerciais são boas e fáceis de ganhar”

Donald Trump

em seu Twitter na sexta (2)

O movimento de Trump

Argumento dos EUA

A medida é uma tentativa de proteger a indústria siderúrgica dos EUA. Segundo o presidente, haveria concorrência "injusta" que teria destruído o setor de aço e alumínio. Um relatório encaminhado à Casa Branca pelo Departamento de Comércio americano defende que a questão também é de segurança nacional. Isso porque o país estaria se tornando dependente da matéria prima importada. O atual padrão de comércio teria feito as importações crescerem 30% acima do consumo doméstico nos últimos anos.

O impacto nos EUA

Por um lado a medida beneficia a indústria siderúrgica, mas ela pode prejudicar outros setores dentro dos próprios EUA. Empresas que atualmente importam aço e alumínio terão seus custos aumentados e podem perder competitividade. Nesse cenário, elas terão de optar entre o aço americano, atualmente mais caro, e o internacional, que virá com a taxa, o que o tornará mais caro também.

Dúvidas

O governo americano ainda não detalhou como as tarifas serão aplicadas e se haverá descontos de acordo com a origem ou mesmo isenção para parceiros comerciais. O secretário do Comércio, Wilbur Ross, disse que o governo não discutiria isenções. Mas na segunda-feira (5), Trump insinuou que poderia abrir exceções para países como o Canadá e o México. Para isso, eles teriam de concordar com a assinatura de um novo acordo do Nafta - tratado comercial dos três países da América do Norte que existe desde a década de 1990. O Canadá é o maior fornecedor de aço para os EUA e é o maior interessado em barrar a polêmica taxação.

O impacto no Brasil

O Brasil é o segundo país que mais vende aço para os EUA: 13% do que os americanos compram vêm de siderúrgicas nacionais. Por isso o país está entre os principais afetados pela medida.

US$ 2,6 bilhões

é o valor das exportações brasileiras de aço para os EUA em 2017

Segundo o jornal Folha de S.Paulo, uma comitiva do governo brasileiro esteve em Washington para discutir a taxação com representantes do Departamento de Comércio americano. O presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, disse que a medida é ruim não só para o Brasil.

No Brasil, ações de siderúrgicas tiveram queda. As da Usiminas perderam cerca de 8% do valor entre quinta-feira (1º) e segunda-feira (5). A CSN caiu 15% no fim do mesmo período. Ainda na segunda, a ação da Gerdau ficou 3% mais barata do que cinco dias antes. A Gerdau sofre menos porque também tem unidades industriais nos EUA.

Para a agência de risco Moody's, a medida afeta, mas não dramaticamente, as três empresas. A principal consequência pode ser forçar as siderúrgicas a venderem para mercados alternativos, com lucros menores.

As reações internacionais

O anúncio de Trump foi imediatamente rebatido por países que têm grandes relações comerciais com os americanos. França e Austrália criticaram publicamente a medida, assim como o Canadá, maior fornecedor. A China, segunda maior economia do mundo, prometeu retaliações.

“A China não quer uma guerra comercial com os EUA, mas se os EUA aprovarem ações que afetem os interesses chineses a China não ficará de braços cruzados e tomará as medidas necessárias”

Zhang Yesui

porta-voz do parlamento Chinês

A OMC (Organização Mundial do Comércio) informou que está "claramente preocupada" com o plano de Trump e que vê um "potencial de escalada real", com reações de outros países.

“A política do olho por olho nos deixará todos cegos e o mundo em profunda recessão. Devemos fazer todos os esforços para evitar a queda do primeiro dominó. Ainda há tempo”

Roberto Azevêdo

diretor-geral da Organização Mundial do Comércio

 

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.

Mais recentes

Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!