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Como a ópera está revendo seu repertório para contemplar questões feministas

Diretores pela Europa e no Brasil propõem novas abordagens para textos clássicos de teor racista ou enfoque machista, e até mudam finais trágicos de protagonistas mulheres

     

    Em dezembro de 2017, sob direção do italiano Leo Muscato, a ópera Carmen, de Georges Bizet, baseada em novela de Prosper Mérimée (1803-1870), foi apresentada no teatro Maggio Musicale, em Florença, com um desfecho diferente do original.

    Na obra, que é do século 19, a protagonista é assassinada por seu par romântico, Don José. Na versão de Muscato, é Carmen quem o mata, o que deu ao espetáculo uma conotação de alerta para os feminicídios cometidos na Itália.

    A mudança fez com que o diretor fosse vaiado no teatro, criticado nas redes sociais e por amigos, segundo disse Muscato ao El País. Mas também angariou apoiadores, como Dario Nardella, prefeito de Florença, presidente do Maggio Musicale e grande fã de ópera. E, a despeito da indignação – ou talvez por conta dela –, lotou o teatro em todas as apresentações.

    “O ponto de vista que nos interessa é o de Carmen, a mulher assassinada, dentro de uma sociedade que pouco mudou de comportamento ao longo dos séculos, que aceitou brandamente crimes famosos cometidos contra mulheres”, escreve Nelson Baskerville, que também dirigiu uma montagem de Carmen, apresentada no auditório do MASP (Museu de Arte de São Paulo), entre janeiro e fevereiro de 2018.

    O fim trágico de Carmen foi mantido na encenação de Baskerville, cuja montagem usa o texto de Mérimée. Segundo ele, o desfecho segue o original “não porque seu comportamento justifique qualquer tipo de punição, mas porque José é um homem, como tanto outros, doente como a sociedade que o criou”.

    Também no Brasil, no final de 2017, o diretor André Heller-Lopes apresentou uma versão feminista da ópera de Wolfgang Amadeus Mozart, “A Flauta Mágica”, no Theatro Municipal de São Paulo. A obra data do século 18. 

    Heller-Lopes não alterou os diálogos originais, mas criou um novo sentido ao trabalhar a interpretação dos personagens com falas machistas e racistas. “Essas frases eram ditas por pessoas que deveriam representar a sabedoria, não por vilões. Essa é uma ‘Flauta’ feminista. Na minha montagem você se questiona se quem fala é bom ou mau. Isso se reflete na direção de atores, na maneira como a cenografia é montada”, disse à revista Serafina em dezembro de 2017.

    Misoginia

    “A ópera é a forma de arte mais misógina?” A jornalista Charlotte Higgins lança a pergunta em um artigo de 2016 para o jornal The Guardian, no qual lista diversas obras em que personagens femininas são mortas, se suicidam, enlouquecem ou vivenciam algum outro final trágico, e elenca algumas razões para isso.

    Uma das explicações de Higgins é que a ópera é a forma de arte da catástrofe humana, e, nela, a tragédia não é um privilégio das mulheres. Mas é, ainda assim, um castigo para as transgressões e apetites sexuais das personagens. “O patriarcado se encarrega de que as mulheres sejam marcadas com crueldade excepcional [na ópera]”, escreve. 

    A lentidão na atualização do repertório dessa forma de arte cara, elitizada e que conta, ainda, com poucas compositoras mulheres, é apontada pela jornalista como outro fator para que se continuem apresentando quase sempre os mesmos espetáculos com enredos em que as mulheres estão sempre condenadas à morte ou à loucura.

    A pedido do Nexo, João Luiz Sampaio, jornalista, crítico musical e editor executivo da Revista Concerto, analisou o tratamento dado às personagens femininas na ópera e o movimento recente que busca revisar as obras.

    De forma geral, como a ópera trata as personagens femininas?

    João Luiz Sampaio A ópera não viveu isolada do que acontecia na sociedade e nas artes em geral, levando ao palco não apenas os grandes temas que eram discutidos, mas também adaptações de livros e peças teatrais. Talvez por conta disso, seja difícil pensar em uma maneira própria da ópera de tratar as personagens femininas.

    Mas com certeza é possível estabelecer alguns recortes. Dentro do universo do romantismo do século 19, quando a ópera atinge seu auge como forma de manifestação artística, as grandes tragédias amorosas, um dos temas preferidos dos compositores, terminavam muitas vezes com a morte das protagonistas.

    A morte é símbolo máximo de um dos temas preferidos do romantismo, a impossibilidade do amor, mas é preciso lembrar que os dramas vividos por boa parte dessas personagens vêm do fato de que, em vida, elas são reféns dos dilemas e determinações de figuras masculinas (pais, amantes etc.) e, em última análise, elas são vítimas de situações pelas quais não são responsáveis – o que faz com que autores como Catherine Clément defendam a ideia da ópera como símbolo do “silenciamento” da mulher.

    O Theatro Municipal de São Paulo programou para este ano quatro óperas que vão permitir, segundo eles, um olhar sobre a questão feminina. Mas, entre os maestros e diretores cênicos responsáveis pela concepção dessas óperas, não há uma só mulher

    Da mesma forma, quando, no final do século 19 personagens como Carmen ou Manon reivindicam protagonismo em suas próprias histórias de vida, representando a ideia de liberdade da figura feminina, o efeito sobre os personagens masculinos é devastador: o fascínio pela mulher independente, forte, é tão grande quanto a certeza de que estar ao lado delas vai significar, no final das contas, a destruição de si próprio.

    Ao mesmo tempo, porém, em outras óperas – em especial no repertório cômico – é muitas vezes a mulher a responsável por desatar os nós das tramas, encontrando soluções e alternativas na busca de finais que, nesses casos, costumam ser felizes.

    Um outro aspecto que acho interessante tem a ver com o mercado da ópera como um todo, em que a presença da mulher ainda é muito pequena. Um caso representativo: o Theatro Municipal de São Paulo programou para este ano quatro óperas que vão permitir, segundo eles, um olhar sobre a questão feminina.

    Segundo o material de divulgação deles, a ideia é ter  "o pensamento feminino como fio condutor para a construção de um diálogo acerca dos modos de amar”. Mas, entre os maestros e diretores cênicos que serão responsáveis pela concepção dessas óperas, não há uma só mulher...

    Como você vê as releituras contemporâneas que se propõem a “atualizar”, sob uma perspectiva feminista, antirracista etc., o espetáculo original?

    João Luiz Sampaio O repertório dos principais teatros do mundo – e esse é um processo que vem desde a metade do século 20 – é composto em sua vasta maioria por um grupo reduzido de títulos consagrados.

    Me parece totalmente natural que, em um momento no qual a sociedade discute a perspectiva feminista, o racismo, o preconceito ou a noção do lugar de fala, esses aspectos sejam levados em consideração ao recriar grandes obras do passado

    Por conta disso, se não há novas obras, ou elas são poucas, boa parte do universo da ópera se baseia na busca pela releitura da tradição. Em outras palavras, se eu vou preparar uma nova produção da ópera “La Traviata”, de Verdi, uma preocupação sempre será o que de novo eu posso dizer sobre essa história, que tipo de novas interpretações ela pode me sugerir. Essa releitura sempre se dá por meio do diálogo entre a proposta original do compositor e as questões do tempo em que a releitura se dá.

    Nesse sentido, me parece totalmente natural que, em um momento no qual a sociedade passa a discutir de fato a perspectiva feminista, o racismo, o preconceito ou a noção do lugar de fala, esses aspectos sejam levados em consideração na hora de recriar no palco grandes obras do passado.

    Não se trata, acredito, de demonizar um compositor ou libretista, ou de diminuir ou desrespeitar sua obra (até porque, no universo da ópera, a releitura não significa cortes ou mudanças no texto e na música original). No fundo, uma produção de “Carmen” como a encenada na Itália fala, talvez, menos de Bizet e de seu tempo e mais de nós mesmos – e essa é uma das maneiras possíveis de nos relacionarmos com a arte e atribuirmos sentido a ela.

     

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