Ir direto ao conteúdo

O que a eleição parlamentar revela sobre o clima antissistema na Itália

Discurso contra a ‘política tradicional’ tem crescimento inédito e dificulta formação de novo governo. Extrema-direta também ganha espaço

 

O grande vencedor da eleição parlamentar realizada na Itália no domingo (4) foi o 5 Estrelas (32,2%) – um partido que nasceu há apenas nove anos para canalizar o desprezo de um certo tipo de “cidadão comum”, jovem, cético e raivoso contra os políticos tradicionais.

A vitória, em números absolutos, não significa, por enquanto, que o 5 Estrelas tenha conquistado o governo.

A força de cada partido

Resultado Itália
 

No sistema parlamentar italiano – assim como no alemão e no espanhol, por exemplo –, é preciso que um partido obtenha sozinho 50% mais um dos assentos (incluindo Senado e Câmara) para governar. Do contrário, tem de investir em coalizões para formar um governo de maioria. É esse processo de negociação que terá início a partir de agora.

O próximo passo, após a posse dos parlamentares, é a escolha dos presidentes de ambas as Casas. Em seguida, o presidente, Sergio Mattarella, chama os presidentes da Câmara e do Senado ao palácio de governo e dá a ambos um mandato para que eles consultem os partidos e verifiquem a possibilidade de ser formado um governo de maioria.

As negociações parlamentares podem ser rápidas ou se arrastar por meses, dependendo da disposição das próprias legendas e de seus líderes. Na Alemanha, por exemplo, o partido da chanceler Angela Merkel, a CDU (União Democrata-Cristã), venceu as eleições de setembro de 2017, mas precisou de mais de quatro meses para formar um governo de coalizão. Quando isso não acontece, são convocadas novas eleições.

5 Estrelas ganha mesmo se não levar

Ainda que, no final, o 5 Estrelas não venha a encabeçar um novo governo, sua ascensão já é um marco, e envia um forte sinal de descrédito em relação ao sistema, capaz de reverberar em movimentos semelhantes na Europa e para além dela.

O 5 Estrelas não é o primeiro movimento do tipo. Basta lembrar do 15M espanhol que, em 2011, levou milhares de pessoas às ruas contra os dois maiores partidos políticos do país, o Psoe e o PP, que se revezavam há anos no governo. Guardadas as diferenças, ambos os movimentos reivindicavam uma “democracia participativa real” contra o modelo vigente de democracia representativa.

Em sua fundação, em outubro de 2009, o 5 Estrelas – também chamado de CincoS, M5S ou m5E – era apenas um “movimento”. Às vezes era mesmo apresentado como um “não-partido”. Seu bordão era de contraposição ao sistema, de crítica aos políticos tradicionais e de generalização em relação às legendas já existentes.

Fundado pelo comediante italiano Beppe Grillo, o 5 Estrelas nunca precisou formular com clareza sua posição em relação a temas polêmicos quanto a União Europeia ou a imigração estrangeira. Com base sobretudo em posts genéricos nas redes sociais, o movimento atraiu em sua origem jovens que não estavam interessados em se definir como “de direita” ou “de esquerda”.

A ascensão do 5 Estrelas está sendo rápida, forte e sustentada, até agora. A crise econômica (2008) levou à criação do movimento (2009), cujos primeiros frutos começaram a ser colhidos quando o partido conquistou seus primeiros assentos na Câmara e no Senado (2013) e suas primeiras prefeituras (2016), incluindo cidades importantes, como Roma e Turim.

O discurso contra a corrupção

 

O grande nome do partido hoje é Luigi Di Maio, de 31 anos. O jovem largou duas faculdades – de engenharia e de direito – antes de se dedicar à política. Seu cargo atual, de vice-presidente da Câmara dos Deputados, é o mais alto da carreira até agora.

Di Maio é parte de uma geração que cresceu na esteira da Lava Jato italiana. A megaoperação contra a máfia, chamada Mãos Limpas, provocou, de 1992 a 2005, um descrédito generalizado em relação aos políticos do país.

O primeiro beneficiado desse clima de terra arrasada foi o magnata Silvio Berlusconi, então um novato na política, que – assim como os líderes do 5 Estrelas, hoje – ascendeu apoiado no discurso antissistema.

Berlusconi, do partido de direita Força Itália, foi premiê por três mandatos – em 1994 e 1995, de 2001 a 2006 e de 2008 a 2011. Hoje, está inelegível, por uma condenação por fraude fiscal.

Os escândalos protagonizados por Berlusconi serviram de munição para o 5 Estrelas disparar contra os políticos tradicionais, nos anos 2000, assim como os escândalos revelados pela operação Mãos Limpas haviam servido antes ao próprio magnata, a partir dos anos 1990.

Direita e extrema-direita também crescem

 

O termo “sistema” vem sendo empregado na Europa para se referir tanto aos políticos, aos partidos e à democracia representativa em si quanto ao modelo de moeda única, de união alfandegária e de livre circulação de cidadãos, personificado na União Europeia.

No caso da Itália, o 5 Estrelas encarna a crítica ao sistema político em si. Já o desgaste do plano europeu de união fica evidente sobretudo no discurso da Liga, partido da direita xenófoba que ficou em segundo lugar na disputa.

A Liga teve 17,7%. Trata-se de um partido de extrema-direita que já anunciou que brigará pela primazia de encabeçar uma coalizão governista.

Seu grande líder é hoje Matteo Salvini, um político de 45 anos que já se referiu à zona do Euro – bloco de 19 países que têm a mesma moeda – como um “crime contra a humanidade”.

Pela votação expressiva obtida pela Liga, Salvini reivindica a primazia do direito de tentar compor um novo governo, chocando-se com a pretensão do 5 Estrelas.

Existe a possibilidade de que a Liga e o 5 Estrelas se aliem para governar, ou que haja uma aliança da Liga com o Força Itália, de Berlusconi, e com partidos menores, de extrema-direita, como os Irmãos da Itália, sem o 5 Estrelas.

Qualquer governo que venha a ser formado com Salvini à frente seria visto como mais um sinal de ataque à União Europeia, sobretudo depois de o Reino Unido ter decidido, em referendo de 2016, deixar o bloco, no movimento conhecido como Brexit.

Além disso, o líder da Liga, caso assuma, tentará levar a cabo uma política de rechaço aos imigrantes, sobretudo os do norte da África, que cruzam o mar Mediterrâneo, sem documentos, em direção à Itália.

71%

Foi a taxa de comparecimento dos eleitores. O voto não é obrigatório

630

É o número de deputados na Itália

315

É o número de senadores

Estrela do sistema é derrotada

 

O 5 Estrelas, a Liga e o Força Itália saíram vencedores. Do outro lado, o maior derrotado foi o Partido Democrático, de centro-esquerda. Embora o partido tenha ficado em segundo, com 18,9%, não há, para ele, coligação majoritária possível, dado que os demais partidos, de direita, têm juntos a maioria.

Quando o cabeça da sigla, Matteo Renzi, foi primeiro-ministro, de 2014 a 2016, muito se falou no caminho renovador que ele poderia representar para um sistema em crise – algo semelhante, embora em menor escala, ao que já havia ocorrido com o premiê britânico Tony Blair, em 1997, e, mais tarde, com o presidente francês, Emmanuel Macron, em maio de 2017.

Renzi, entretanto, colheu o que o próprio porta-voz de seu partido já classificou como uma “derrota clara e muito negativa”. Ele já anunciou que não fará parte de qualquer coalizão governista, com a direita ou com os antissistema, preferindo passar à oposição.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.

Mais recentes

Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!