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O lugar dos neonicotinoides na morte das abelhas, no Brasil e na Europa

Em ampla análise de mais de 1.500 artigos, cientistas concluíram que família de inseticidas representa risco considerável para os insetos. Comissão Europeia decidirá sobre regulação em março

Nos últimos anos, diversas pesquisas científicas e dados de apicultores têm apontado para uma queda acentuada nas populações de abelhas no mundo, um fenômeno conhecido como “distúrbio do colapso das colônias”.

Segundo dados adotados pela ONU, houve uma redução de 3,5 milhões de colmeias nos Estados Unidos entre 1950 e 2007. O número caiu pela metade no período.

O fenômeno também se repete na Europa. Na Alemanha, por exemplo, 75% dos insetos, não só polinizadores, desapareceram entre 1989 e 2012. E no Brasil, um estudo publicado em 2016 por pesquisadores de Embrapa, Universidade Federal de São Paulo e Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, entre outras entidades, apontou grandes perdas de colônias de abelhas, em especial em São Paulo e Santa Catarina.

Ao captarem néctar, uma fonte de carboidratos que utilizam para a produção do mel, abelhas são impregnadas por pólen, que levam de uma flor a outra. Isso garante a fecundação e reprodução de diversas plantas. Os insetos também consomem o pólen como fonte de proteínas e lipídios.

O colapso das colônias não significa, portanto, apenas uma produção menor de mel no mundo, mas também um obstáculo para a reprodução de gêneros alimentícios importantes, como tomate, café, maçã e laranja.

71%

Das culturas agrícolas que respondem por 90% da alimentação mundial dependem da polinização das abelhas, segundo dados adotados pelas Nações Unidas

A ciência tem acumulado indícios de que ao menos uma parte do problema se deve ao uso de agrotóxicos. Um estudo publicado em outubro de 2017 na revista americana Science mostrou que 75% de todo o mel produzido no mundo está contaminado com essas substâncias.

A conclusão é que as abelhas estão se infectando com os coquetéis químicos usados para matar pestes em plantações, que também são prejudiciais para sua saúde.

Ainda segundo o estudo, 57% de todas as amostras de mel da América do Sul apresentaram algum nível de concentração de neonicotinoides — que são similares à nicotina e estão entre os inseticidas mais usados no mundo em plantações.

Ao contrário do que acontece com inseticidas que ficam nas superfícies dos vegetais, as plantas e sementes tratadas com neonicotinoides os incorporam em seus tecidos, que podem ser ingeridos por insetos.

 

Eles interferem em seu sistema nervoso central, causam paralisias e mortes. A substância também está presente no pólen que se prende aos corpos das abelhas quando estas obtêm néctar.

No momento, os neonicotinoides estão no centro do debate das políticas de proteção às abelhas na Europa. Em 2013, a União Europeia aprovou o banimento temporário a esse tipo de pesticida.

Na época, duas das companhias que produzem e vendem a substância no continente, e que fazem lobby a favor dela, a alemã Bayer CropScience e a suíça Syngenta, questionaram as bases científicas da decisão.

A ciência continuou, no entanto, a acumular evidências de que os neonicotinoides são prejudiciais às abelhas. Com base na análise da literatura disponível, cientistas da Unidade de Pesticidas da EFSA (sigla em inglês para Autoridade Europeia para Segurança dos Alimentos) concluíram que as substâncias representam, sim, um risco para abelhas selvagens e não selvagens.

Foram analisados mais de 1.500 estudos, dados acadêmicos, de produtoras de produtos químicos, autoridades nacionais, ONGs, fazendeiros e apicultores. O foco foi em três neonicotinoides fabricados por Syngenta e Bayer: clotianidina, imidaloprid e tiametoxam, e seus efeitos sobre três espécies de abelhas.

A conclusão foi de que as abelhas são expostas a pólen e néctar contaminados quando entram em contato com plantações que passaram pela aplicação do inseticida, ou quando vão a áreas contaminadas em seu entorno. Ela também concluiu que a substância pode persistir no solo, agindo sobre gerações de plantas e abelhas.

Em uma nota oficial, Jose Tarazona, chefe da unidade de pesticidas da EFSA, afirmou:

“Há variabilidade nas conclusões, devido a fatores como a espécie de abelhas, o motivo do uso do pesticida e as rotas de exposição. Alguns riscos baixos foram identificados, mas em geral o risco aos três tipos de abelhas que analisamos está confirmado.”

Jose Tarazona

Chefe da unidade de pesticidas da EFSA

 

Agora, essas conclusões serão compartilhadas com a Comissão Europeia, o órgão executivo da União Europeia responsável por lidar com questões cotidianas da entidade, implementar decisões e tratados e propor novas legislações.

Desde 2017, a entidade analisa uma proposta para que a substância seja restrita a uso em estufas e proibida em ambientes abertos. Em entrevista à revista científica Nature, Anca Păduraru, a porta-voz da Comissão Europeia para saúde pública e segurança alimentar, afirmou que uma votação sobre o tema pode acontecer até o dia 22 de março, e que as conclusões da EFSA dão fôlego à proposta.

Ele afirmou que a proteção de abelhas é um assunto importante para a entidade porque diz respeito à biodiversidade, à produção de alimentos e ao meio ambiente.

Novamente, a avaliação sobre os neonicotinoides foi criticada pela Syngenta. Um porta-voz afirmou à Nature que “quando reguladores tomam decisões sobre produtos de proteção à lavoura [como inseticidas], o que deveria importar são ciência, dados, que os processos em curso sejam respeitados, e que sirvam ao interesse público . Quaisquer novas restrições baseadas nesse relatório serão mal-concebidas”.

Em um outro caso de vulto, a Comissão Europeia renovou em novembro de 2017 a licença do glifosato, o agrotóxico mais comercializado no mundo. Ele é vendido pela Monsanto com o nome comercial Roundup, mas a empresa não tem mais exclusividade sobre sua patente.

Questionava-se a licença por haver indícios de que o produto está relacionado ao câncer em humanos.

 

O uso de neonicotinoides no Brasil

O principal relatório do governo brasileiro para acompanhar a presença de agrotóxicos nos alimentos no país é o Para (Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos), produzido pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

Publicado em 2016, o relatório mais recente analisou amostras de 9.680 alimentos, como fubá, farinha de trigo, abacaxi, banana, laranja, entre outros, coletadas entre 2013 e 2015.

Traços de agrotóxicos do grupo dos neonicotinoides estiveram entre os mais encontrados, ao lado dos grupos de benzimidazóis, triazóis e organofosforados. Foram encontrados traços de neonicotinoides em 2.401 das amostras, sendo que em 339 delas havia níveis irregulares da substância.

Isso significa que foram identificadas quantidades de agrotóxicos acima do limite máximo permitido, além de sua presença em gêneros para os quais o uso da substância não é autorizado.

Resíduos em 9.680 amostras

 

A regulação no Brasil e na União Europeia

No Brasil, a aprovação de um agrotóxico passa pela avaliação dos Ministérios da Agricultura e do Meio Ambiente e da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). Eles seguem a lei 7.802 de 1989, regulamentada pelo decreto 4.074/2002.

O país é em muitos sentidos mais permissivo do que a União Europeia no que diz respeito às regras para uso de agrotóxicos. Em entrevista concedida em setembro de 2017 ao Jornal da USP [Universidade de São Paulo], a professora Larissa Mies Bombardi, que pesquisa agrotóxicos e leciona na instituição, afirmou que 30% das substâncias permitidas no Brasil são proibidos na União Europeia.

Agricultores argumentam, por outro lado, que o processo de avaliação de substâncias é moroso, o que contribui para que o cardápio de agrotóxicos no país seja relativamente desatualizado.

Uma reportagem de 2015 da agência de notícias Reuters levantou alguns dos produtos banidos em outros locais, mas que seguem sendo vendidos no Brasil.

Intitulado “Por que o Brasil tem um apetite por pesticidas perigosos”, o artigo afirma que o país se transformou em um “mercado tentador para pesticidas banidos de outras nações por causa de riscos ambientais ou à saúde”. Há produtos permitidos no país, mas proibidos em União Europeia, Estados Unidos e China.

 

Bombardi publicou em novembro de 2017 um livro chamado “Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia”, em que compara as regras de uso dessas substâncias no bloco econômico e no país. Ela ressalta que o Brasil tolera uma quantidade maior de substâncias nos produtos agrícolas e na água. A pesquisadora não trata especificamente dos neonicotinoides, mas informa, por exemplo, que:

  • Tolera-se 0,05 mg de resíduos de glifosato na cana-de-açúcar na União Europeia, enquanto tolera-se 1 mg no Brasil, 20 vezes mais.
  • Tolera-se 0,05 mg de resíduos de glifosato na soja na União Europeia, enquanto 10 mg por kg são tolerados no Brasil, 200 vezes mais.
  • Tolera-se até 0,02 mg de resíduos do inseticida e acaricida malationa no feijão na União Europeia, enquanto 8 mg por kg são tolerados no Brasil, 400 vezes mais
  • Toleram-se 500 microgramas (um grama dividido por um milhão) de glifosato por litro de água potável no Brasil, uma proporção 5.000 vezes maior do que a adotada na União Europeia

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