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Quanto a prática de ‘sexting’ cresce entre jovens, segundo este estudo

Análise de dados de dezenas de pesquisas sobre o tema aponta que, em média, 1 a cada 7 jovens envia mensagens com conteúdo sexual

A prática de trocar mensagens com conteúdo sexual – sejam em texto, fotos ou vídeos – está se tornando mais comum entre jovens, bem como o repasse dessas mensagens a terceiros sem a devida permissão.

A afirmação vem de um estudo publicado em 26 de fevereiro que faz uma meta-análise – combinação de resultados de diversas pesquisas sobre o mesmo tema – de 39 trabalhos que envolvem, juntos, mais de 110 mil jovens com idades entre 12 e 17 anos de diversos países do mundo.

A principal autora do estudo, Sheri Madigan, psicóloga e professora na Universidade de Calgary, no Canadá, aponta que os dados mais recentes apontam que  14,8% e 27,4% dos jovens costumam, respectivamente, enviar e receber sexts (termo em inglês para mensagens de cunho sexual).

Em comparação com as primeiras pesquisas já feitas sobre o assunto, os números deram um salto que merece atenção. Madigan cita em seu trabalho o estudo realizado pelo instituto americano Pew Research Center, de 2009, que apontava que envio e recebimento de mensagens do tipo eram comuns para 4% e 15% dos jovens, respectivamente. Em 2012, pesquisa nacional feita por especialistas da Universidade de New Hampshire, nos EUA, obteve números diferentes: 2,5% e 7,1%.

Além disso, o estudo desbanca um senso comum em relação a sexting, o de que é mais comum garotas enviarem sexts do que garotos, sobretudo por serem constantemente pressionadas por seus pares. Em sua análise, Madigan diz que os dados colhidos captaram “nenhuma diferença significativa entre os sexos quanto ao envio ou recebimento de sexts”.

Compartilhamento indevido

A meta-análise conduzida por Sheri Madigan constatou ainda que 12,5% dos jovens entrevistados afirmaram já terem compartilhado sexts enviados especificamente para eles com terceiros. Já a porcentagem de jovens que tiveram ciência de um conteúdo sexual seu repassado sem autorização é de 8,4%. Fatores como idade e sexo não mostraram diferenças significativas nesse quesito também.

As consequências de compartilhamentos não consensuais de sexts com terceiros são conhecidas. Pessoas vítimas dessa prática, não raramente, acabaram sendo alvos de assédio, bullying ou chantagem. Madigan chama atenção para o fato de que, por mais que casos assim tenham ganhado atenção pública, o número de pesquisas com esse recorte ainda é pequeno.

“A taxa de sexting não consensual entre jovens é preocupante e, no que diz respeito a legislação, deve continuar a ser uma questão de suma importância entre políticos”, escreveu Sheri Madigan. 

Por que os dados importam e crescem

A pesquisadora afirma que a literatura acadêmica existente sobre o tema relaciona sexting, a prática de se trocar sexts, a um indicador importante sobre o comportamento sexual do jovem e que pode ser associado ainda a outras questões de saúde. “No entanto, falta consenso sobre a ocorrência de sexting, o que é necessário para futuras pesquisas, intervenções ou desenvolvimento de políticas.” 

A análise observou ainda que a prática de sexting acontece majoritariamente por meio de celulares e é mais frequente entre os jovens de mais idade (dentro da variação de 12 a 17 anos).

As constatações levaram Madigan a duas conclusões. A primeira é de que sexting pode estar se tornando um componente emergente e cada vez mais normal do comportamento e desenvolvimento sexual entre jovens.

Estudo publicado em 2015 por pesquisadores da Universidade Drexel (EUA) – citado em reportagem do Nexo sobre o assunto – apontou que sexting pode contribuir com a saúde sexual, inclusive de casais; e observou que 87,8% dos entrevistados já recorreram à prática em algum momento da vida.

A segunda é a de que o aumento nos números entre jovens de mais idade está ligado também ao maior acesso a smartphones por esses jovens nos últimos anos. A idade em que obtêm acesso a um celular, portanto, importa. Em 2016, diz a pesquisa, a idade média em que um jovem afirmava ter tido contato com um smartphone era de 10 anos.

Outro fator recente que contribui para o aumento de sexting é o surgimento e popularidade de aplicativos que fornecem uma aparente privacidade maior sobre o conteúdo trocado, o que acaba funcionando como um incentivo ao jovem.

Como lidar

Como conclusão, a psicóloga canadense sugere que “esforços e recursos para a criminalização de sexts [consensuais] sejam redirecionados para programas educativos sobre cidadania digital e relacionamentos saudáveis”. E, dada a baixa idade com que jovens estão tendo contato com smartphones, é importante que escolas e pais tenham conversas contínuas com alunos e filhos sobre sexting.

Ao jornal americano Chicago Tribune, Madigan listou uma série de dicas a pais sobre como fazer isso.

  • Converse: “Pais devem ser pró-ativos. Tenha conversas sobre cidadania digital, comportamento on-line, sexualidade e a pressão exercida sobre parceiros antes que eles tenham seus próprios celulares”.
  • Informe-se: “É um desafio duplo para pais porque eles têm que conversar sobre sexo e mundo digital, os quais podem ser tópicos muito intimidadores”, disse Madigan, indicando a organização Common Sense Media como possível fonte. No Brasil, a Safernet conta com dicas na mesma linha.
  • Não pire: “Se você suspeitar que o seu filho está enviando sexts, saiba que se trata de um comportamento normal. Isso não significa que ele seja um depravado ou criminoso (...) Isso significa que eles estão interessados na sexualidade deles e em sexo”.
  • Entenda o contexto: “Descubra mais sobre o relacionamento do seu filho com a pessoa com quem ele está trocando sexts (...) O sexting está sendo usado como flerte ou como forma de manter a relação? Eles podem ainda não entender completamente causa e efeito. Converse sobre os riscos e consequências do sexting”.
  • Aprenda com a situação: “Sabemos por outros estudos que sexting está relacionado a comportamento sexual real. Então [saber sobre o sexting] dá uma oportunidade [aos pais] de conversar sobre atividade sexual na vida real e sobre como relacionamentos saudáveis são na realidade”.

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