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Por que a Europa enfrenta um frio polar enquanto o Ártico esquenta

Regiões pouco acostumadas a frio rigoroso enfrentaram neve pesada na última semana. Fenômeno pode se agravar com aquecimento global

    Foto: Max Rossi/Reuters
    Padre brinca na neve na Praça de São Pedro, no Vaticano
    Padre brinca na neve na Praça de São Pedro, no Vaticano

    Nesta semana, países europeus, incluindo os menos habituados a enfrentar invernos rigorosos, se viram sob uma onda de frio fora do normal para a época. A rigor, a temporada de inverno se encerra no próximo dia 20 na porção norte do globo.

    No Reino Unido, cidades tiveram serviços interrompidos e 11 pessoas morreram em razão do clima, fazendo o governo declarar estado de alerta em algumas regiões. Na Espanha, centenas de escolas fecharam as portas, ruas ficaram bloqueadas e um senhor de 65 anos morreu na cidade de Bilbao.

    A capital italiana Roma, por exemplo, viu camadas e camadas de neve caírem sobre seus monumentos históricos pela primeira vez em seis anos. As temperaturas no continente foram de -20°C, marca registrada na Itália, a -42°C, na Noruega, um recorde para o país nórdico.

    Mais estranho do que a altura da neve em países do mediterrâneo europeu é o fato de o Ártico estar gozando de ares mais quentes do que seus vizinhos ao sul. Dados de satélite apontam que as temperaturas por lá subiram, chegando a 2°C, cerca de 30 graus acima do esperado.

    Vórtice polar

    Embora o inverno anormal seja objeto de investigação ainda entre meteorologistas, a mais próxima de um consenso reside em um fenômeno que envolve o vórtice polar.

    O termo se refere à existência de um centro de baixa pressão no extremo do planeta. Ao seu redor, forma-se um fluxo de ar giratório que acaba funcionando como uma muralha, impedindo que o frio do polo “vaze” para outras partes do globo.

    Acontece que esse poder de retenção varia de acordo com a força desse vórtice. No inverno, ele tende a ser mais forte, o fluxo de ar é maior e o frio permanece trancado no polo.

    É possível, no entanto, que esse vórtice se enfraqueça. Nesses casos, como uma geladeira aberta, ar quente (vindo do Atlântico) invade o polo e o vórtice se espalha, levando frio tipicamente polar a regiões próximas, como norte da Ásia, o noroeste americano e o continente europeu.

    Foi o que aconteceu na última semana. O fluxo giratório do vórtice atingiu a Europa vindo do leste – daí ter ganhado o título de “Besta do Leste”.

    Polo quente

    Dessa forma, enquanto países europeus esfriavam, o Ártico esquentou. O fenômeno tem o nome técnico de evento de aquecimento estratosférico repentino. De acordo com a Nasa, a agência espacial americana, trata-se de “uma das mais radicais alterações climáticas observadas no nosso planeta”.

    Foto: Reprodução/Nasa
    Exemplo feito pela Nasa de evento de aquecimento estratosférico repentino de 1989
    Exemplo feito pela Nasa de evento de aquecimento estratosférico repentino de 1989

    Embora não seja mais algo estranho para cientistas, a sua ocorrência mais recente levantou o questionamento sobre se o aquecimento global tem agravado seus resultados.

    Imagens de satélite da Nasa sobre o Oceano Ártico captaram quebras de placas de gelo entre os dias 9 e 22 de fevereiro, algo excepcional e precoce para a época. De acordo com a agência, os níveis de gelo já atingiram uma baixa recorde.

    “Já tínhamos visto eventos de aquecimento de invernos antes, mas eles estão se tornando mais frequentes e mais intensos”, disse Alek Petty, pesquisador da Nasa dedicado à observação da região.

    Em setembro do ano passado, o jornal The New York Times já havia demonstrado em gráfico como a camada de gelo do Ártico vem continuamente reduzindo seu tamanho desde 1979.

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