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A superfície dos oceanos utilizada para pesca, segundo esta pesquisa

Pesquisadores utilizaram inteligência artificial para identificar as características de cada uma das 70 mil embarcações dedicadas à atividade

Foto: Reprodução
Mapa da atividade pesqueira global. Os pontos tendendo ao amarelo concentram mais horas de pesca; ao violeta, menos
Mapa da atividade pesqueira global. Os pontos tendendo ao amarelo concentram mais horas de pesca; ao violeta, menos
 

Imagens do globo obtidas por satélite permitem estimar com relativa precisão a proporção de terras destinadas à agricultura e a pastagens para alimentar a população humana. Estima-se que cerca de 34% da superfície coberta por terra é atualmente utilizada para essas atividades.

O mesmo tipo de técnica não pode, no entanto, ser utilizado para medir a atividade pesqueira - com pesca ou não, as imagens das águas oceânicas continuam azuis - , que corresponde a cerca de 6,7% do consumo humano de proteína.

Isso é um problema porque, segundo informações da ONU correspondentes a 2013, cerca de 30% das principais espécies vendidas comercialmente foram excessivamente pescadas naquele ano. Ou seja, foram pescadas a ponto de prejudicar a reposição da população e a diversidade e sobrevivência da espécie.

Entender as áreas em que a pesca se concentra e o que faz a atividade diminuir ou se intensificar pode servir como base para determinar regiões a serem protegidas com reservas marítimas, ou outras medidas para regular a pesca no mundo.

Intitulada “Rastreando a pegada global de navios pesqueiros”, uma pesquisa publicada em fevereiro de 2018 na revista acadêmica Science usou dados de navegação de mais de 70 mil navios pesqueiros, e identificou que cerca de 55% da área do globo coberta por água é alvo de pesca.

Essa amostra é pequena frente a frota total de navios, e há locais com pouca cobertura de satélite. Por isso, a pesquisa estima que a área com atividade pesqueira pode ser maior do que 70% da superfície coberta com água.

Além disso, o trabalho também observou que a atividade não varia com ciclos naturais ou com preços de combustível, mas sim com feriados, finais de semana e de acordo com restrições de governos. Isso, segundo o trabalho, é um indício de que o controle da pesca deve ficar a cargo de decisões políticas.

A pesquisa foi conduzida por David Kroodsma, diretor de desenvolvimento de pesquisas da entidade sem fins lucrativos Global Fishing Watch, que tem financiamento do Google e o objetivo de diminuir o impacto da pesca sobre o meio ambiente.

“Parece que a pesca moderna, assim como outras formas de produção em massa, está parcialmente isolada dos ciclos naturais, e é moldada por políticas públicas e cultura.”

Pesquisa ‘Rastreando a pegada global de navios pesqueiros’, publicada em fevereiro de 2018 na revista Science

Como a pesquisa foi feita

As informações sobre a localização dos barcos foram obtidas a partir do chamado “sistema de identificação automática”. Com uso desse sistema, equipamentos presentes em grande parte da frota de navios pesqueiros industriais emitem sinais a outros navios indicando sua identidade, posição, velocidade e ângulo de virada.

Esses dados também são registrados por receptores terrestres ou por satélites. Dessa maneira, os pesquisadores obtiveram mais de 22 bilhões de informações sobre os barcos registradas a partir desses sistemas entre 2012 e 2016.

Foi possível obter a localização de mais de 70 mil navios de pesca industrial em todo o globo e dados correspondentes a 40 milhões de horas de atividade de pesca dentro desse período.

Eles utilizaram inteligência artificial para identificar as características de cada barco e sua posição. Cada um tinha entre 6 metros e 146 metros.

Segundo o trabalho, embora tenha sido identificada apenas uma pequena parcela da frota mundial de barcos motorizados de pesca estimada, que totaliza 29 milhões, foi possível identificar entre 50% e 75% da frota de barcos maiores do que 24 metros, e mais de 75% da frota de embarcações com mais de 36 metros.

A superfície usada para pesca

Foi com base nesse mapeamento que a pesquisa identificou que a pesca industrial ocorre em ao menos 55% da superfície oceânica do globo em 2016.

Há certas áreas, no entanto, em que há pouca presença de navios com o sistema de identificação automática, ou em que há pouca cobertura de satélite. Segundo o trabalho, presumindo que a pesca também ocorre nesses locais, a área explorada pode ter correspondido a 73% da superfície oceânica em 2016.

A pesquisa ressalta que se trata de uma estimativa “generosa”, ou seja, alta. Se ela for adotada como base, isso significa que cerca de 200 milhões de km² dos oceanos são utilizados para pesca.

Em comparação, cerca de 50 milhões de km² são utilizados para a agricultura ou como pastagem, o equivalente a apenas 34% da superfície coberta por terra.

De acordo com o trabalho, a maior parte dos países pesca dentro de seus próprios territórios marítimos, mas a pesca ocorre também em águas internacionais, em que a atividade é dominada por cinco nações: China, Coreia do Sul, Espanha, Japão e Taiwan. Eles concentram 85% da pesca em alto mar.

Foto: Reprodução
Mapa indicando a atividade pesqueira em águas internacionais por país
Mapa indicando a atividade pesqueira em águas internacionais por país
 

O que influi na pesca

A pesquisa também buscou identificar quais fatores influenciavam no aumento ou na queda da atividade pesqueira.

Foi buscada uma correlação entre intensidade de atividade marítima e a chamada “produtividade primária líquida”, que mede a quantidade de carbono que todas as plantas e algas de um ecossistema capturam da atmosfera e guardam em suas estruturas em dado período.

Essa medida desconta o carbono que essas plantas possuem em suas estruturas e gastam durante a respiração como forma de produzir energia.

A produtividade primária líquida representa, portanto, o crescimento das plantas e algas em dado período. Como plantas e algas são a base dos ecossistemas marinhos, o cálculo dessa produtividade pode ser encarado como uma medida da atividade biológica como um todo.

Não foi encontrada, no entanto, uma correlação forte entre a produtividade primária líquida e o tempo gasto com atividade pesqueira.

Os pesquisadores identificaram, por outro lado, que os locais que eram foco da atividade marinha variavam de acordo com o aquecimento das águas.

Isso ocorre, por exemplo, com a passagem do El Niño, um fenômeno que envolve a atmosfera e o oceano e que aquece as águas do Oceano Pacífico Equatorial em intervalos que variam de três a sete anos.

O trabalho não indica, no entanto, que há uma diminuição da atividade pesqueira como um todo correlacionada ao aquecimento das águas.

A pesquisa buscou também medir se variações do preço do combustível correspondiam a diminuição ou aumento da atividade pesqueira. Essa correlação existe, mas não é forte. “É possível que os subsídios abundantes a combustível desvencilhem pesqueiros dos custos de energia”, diz o trabalho.

O impacto da política e da cultura

Determinações políticas, festas tradicionais e finais de semana foram os principais fatores encontrados que influenciaram a diminuição da atividade pesqueira.

Segundo a pesquisa, eles são “muito mais influentes do que ciclos naturais em determinar a pegada temporal da pesca em escala global”. Os ciclos naturais têm mais influência na agricultura.

A pesquisa observou que os períodos de moratória de pesca determinados anualmente pelo governo chinês nos meses de verão fazem com que a pesca diminua em latitudes médias. Feriados de Natal na Europa e na América do Norte levam a quedas na pesca nas latitudes mais altas.

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