Qual a importância da música para as cidades, segundo este livro

Sonoridades e eventos têm impactos urbanos positivos que vão além do fator econômico, defendem autores de “Cidades musicais”

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    Do seu modesto surgimento em 2008 até a consagração anos depois no carnaval de Salvador, com uma sonoridade muito distinta de outros trios do evento, a trajetória do BaianaSystem é uma inspiradora história musical. Esse percurso, entretanto, também pode ser examinado pela lente das políticas públicas e de incentivo cultural da capital baiana, entre eles o projeto Pelourinho Dia & Noite, um dos primeiros palcos da banda e parte de iniciativa de “revitalização” da área histórica da cidade.

    Esse é um dos muitos exemplos do diálogo entre sons e áreas urbanas que aparecem no livro “Cidades musicais”, coletânea de artigos que será lançada em abril pela Editora Sulina. A organização é de Micael Herschmann e Cintia Sanmartin Fernandes, ambos pesquisadores da área de comunicação da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

    O livro propõe reflexões a respeito dessa relação como tentativa de enriquecer um debate que no Brasil, segundo os organizadores, ainda é muito superficial e pautado pelo marketing de governos e instituições públicas, e pela ideia da economia criativa como panaceia para entraves socioeconômicos.

    Um ponto central levantado no texto de abertura, assinado pelos organizadores, é de que maneira a exploração da cultura e da criatividade de uma cidade podem se traduzir em políticas públicas mais inclusivas, contribuindo para o desenvolvimento sustentável de uma cidade.

    “A sensação é que no Brasil está muito mal encaminhado o debate sobre cidades criativas.”

    Micael Herschmann

    Pesquisador da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro)

    Para os autores, mais interessantes que os discursos institucionais são as manifestações “quase invisíveis e mais espontâneas”. Há artigos sobre o brega-funk do Recife, as festas independentes de músicas brasileira, latina e eletrônica em São Paulo e as relações entre política e cultura na cidade de Mossoró, no Rio Grande do Norte.

    Do exterior, a coletânea traz, por exemplo, escritos sobre as “cidades techno” de Detroit e Berlim, e o meio punk e experimental de Montreal, no Canadá. Há também um artigo do canadense Will Straw, renomado pesquisador da área, chamado “Urbanização da Política Musical: cidades e a cultura da noite”.

    O livro expressa uma preocupação de não generalizar, armadilha comum quando se trata de cidades ou países e suas expressões musicais. “É bastante redutor circundar a produção musical do Rio de Janeiro ao samba, de Seattle ao grunge e de Recife ao manguebeat”, escrevem os organizadores.

    Pelo telefone, o professor Micael Herschmann conversou com o Nexo sobre alguns dos temas do livro.

    Por que decidiu pesquisar a relação entre cidades e música?

    Micael Herschmann A sensação é que está muito mal encaminhado o debate sobre cidades criativas no país, um debate em que a música tem papel importante, especialmente no Brasil, que é uma potência musical. Por aqui, dinamizar as economias nacionais, as cidades, através da cultura e da criatividade, virou quase que uma alternativa a um Brasil mais tradicional, extrativista, do agronegócio. [O conceito de cidade criativa] já tem um longo caminho no mundo anglo-saxão: começou na Inglaterra nos anos 1990. No Brasil chegou articulado com essa discussão sobre mega-eventos, Copa do mundo, Olimpíadas, grandes obras. Tem todo um viés marqueteiro, neoliberal, excludente: a tomada da cidade privilegiando certos grupos.

    Mas o debate coloca outras questões. Pegamos a discussão das cidades criativas, que está nos projetos urbanos ou que aparece pelas mãos da Unesco, que tem esse selos de “cidade gastronômica”, “cidade audiovisual”, e trouxemos mais para uma perspectiva da inclusão social, de se pensar em potencialidades e riquezas que você tem nas cidades e territórios, que no Brasil aparece muito pela mão da música. É uma oportunidade de aproveitar essa discussão e valorizar práticas mais espontâneas e menos institucionalizadas, cenas alternativas locais e regionais, ocupações dos espaços urbanos marcadas pela informalidade, mas que representam grande riqueza para esses territórios.

    Nossa impressão é que há um engajamento de muitos atores em tomar a cultura como forma de transformar as cidades, os espaços e os territórios. Pessoas, especialmente jovens, se engajam muito. Muitos jovens da cena independente foram os que fizeram muito do ativismo do Carnaval do Rio, na avenida mas também no carnaval de rua.

    A impressão é que muitas vezes, quando se fala da importância da música e da cultura, é preciso justificá-la com argumentos sócio-econômicos, como “gera empregos”, “traz dinheiro” etc. Você concorda?

    Micael Herschmann Concordo. A lógica econômica parece aprisionar as outras lógicas. Claro que existem benefícios econômicos. Bairros são transformados - lugares onde ninguém queria morar - e depois são gentrificados. Para além das questões dos benefícios econômicos, você tem resultados culturais e sociais muito importantes: a aproximação entre diferentes segmentos, a percepção das cidades não apenas como o território do medo. Não se trata de negar a violência urbana, mas se você propicia a possibilidade de encontro entre diferentes segmentos sociais, tribos urbanas, você começa a construir também, em paralelo à cidade do medo, da exclusão, também a cidade da inclusão, da sociabilidade, de uma vida cultural que não é só para os ricos, mas com muita coisa de graça.

    Muitos ativistas estão engajados em levar cultura para as pessoas. Claro que, muitas vezes, quem faz quer construir uma rede, gerar capital cultural para lá na frente ganhar algum dinheiro, e tudo bem, não é um crime ganhar dinheiro. Mas tem também um engajamento, um sujeito de alguma forma contribuindo para construir uma cidade melhor. Acho que a cultura pode desempenhar importantes papéis, para além do econômico. O que a pesquisa conta é que não é preciso fazer grandes investimentos urbanos, geralmente associados a roubalheiras. Não precisa ter grandes reformas, basta apoiar com pequenas coisas, como um praticável, um banheiro químico, um eletricista, ou facilitar os alvarás.

    Você poderia citar um exemplo positivo de política pública com relação à música?

    Micael Herschmann Tem vários exemplos bons, ainda que sejam minoritários. No Rio de Janeiro, com todos os defeitos, o prefeito [anterior] Eduardo Paes, por exemplo, aprovou a lei do artista de rua, que desburocratizou barbaramente uma série de iniciativas que produziram um dinamismo muito interessante, muito rico,nos arredores da Praça XV, na área central do Rio. Ali passou a ter rodas [de samba] muito potentes, algumas mobilizando duas mil pessoas, como o Samba do Ouvidor, o Baile Black Bom, o bloco Escravos do Mauá. Só um pouco menos de burocracia e você passou a ter essa vitalidade muito interessante. Quando veio o [atual prefeito Marcelo] Crivella, burocratizou tudo de novo. Agora precisa de alvará, pregão eletrônico, foi criada uma série de empecilhos que acabam dificultando e desestimulando essas iniciativas na cidade do Rio de Janeiro.

    Em uma cidade musical, como fica a questão do sossego público, tão invocado por políticos, autoridades e opositores aos eventos de rua?

    Micael Herschmann Na relação entre música e cidades, nem tudo é maravilhoso, afinal uma cidade mais musical é também uma cidade mais barulhenta. Nem sempre essa sonoridade é desejável. Foi o caso da praça São Salvador, em Laranjeiras, no Rio. Ali se desenvolveu uma vida cultural fantástica. Começou com chorinho, depois veio maracatu e chorinho. Os moradores do entorno protestaram. Nesse caso, o debate, que vemos muitas vezes no contexto do funk, apareceu em um bairro de classe média, em um evento com participantes da classe média. É uma discussão legítima, que tratamos com seriedade, e o estado tem um papel importante na regulação. O que não pode é em nome da suposta ordem social e segurança você quase que criminalizar algumas práticas musicais, como no caso do funk, que até hoje não tem seus bailes de volta. O tema é muito bem organizado no livro pelo Felipe Trotta no artigo “Música e conflito na cidade: práticas de escuta, espaço público e violência no Rio”.

      

     

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