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Por que o número de casos de sarampo aumentou na Europa

Doença causada por vírus, altamente contagiosa e potencialmente mortal, se espalhou e atingiu níveis alarmantes em países como Itália, Ucrânia e Romênia

A Europa está em alerta diante do ressurgimento de casos de sarampo. De acordo com dados da OMS (Organização Mundial da Saúde), em 2017 a região contou com mais de 21 mil casos, uma alta de 304% na comparação com o ano anterior; 35 deles resultaram em morte.

O número de casos alarmou órgãos de saúde que contavam com uma taxa de incidência mais próxima do baixo índice de 2016, de pouco mais de 5,2 mil.

Para a diretora regional europeia da OMS, os dados evidenciam uma “tragédia que nós simplesmente não podemos aceitar”. “Cada nova pessoa afetada por sarampo na Europa nos lembra que crianças e adultos não vacinados, de onde quer que sejam, continuam sob risco de contrair a doença e espalhá-la para outros que podem não estar vacinados”, disse em nota a Dra. Zsuzsanna Jakab.

Países afetados

Dos 53 países da divisão regional da OMS, 15 apresentaram números de sarampo que indicaram surto. Dentre esses, segundo o órgão, os mais afetados foram Romênia (5.562 casos), Itália (5.006) e Ucrânia (4.767), nos quais houve queda de vacinação, sobretudo da população mais pobre e marginalizada.

Diferentemente dos três primeiros, embora donos de números também expressivos , os demais países observados pela OMS conseguiram reduzir seus índices até o fechamento de 2017. São eles: Grécia (967), Alemanha (927), Sérvia (702), Tajiquistão (649), França (520), Rússia (408), Bélgica (369), Reino Unido (282), Bulgária (167), Espanha (152), República Tcheca (146) e Suíça (105).

No caso do Brasil, o país não conta com casos de sarampo originados internamente desde 2001. Em 2016, após o registro de casos de sarampo importados de outros países como Venezuela, entre 2013 e 2015 (totalizando 1.114 ocorrências), o Brasil – que mantém campanha regular de vacinação em crian��as – foi considerado livre da doença.

Baixa e alta

Ficha da doença

O sarampo é uma doença altamente contagiosa causada por um vírus e que, sem o devido tratamento, pode ser fatal sobretudo em crianças. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, até a década de 1960, epidemias da doença aconteciam a cada dois ou três anos e causavam cerca de 2,6 milhões de mortes todos os anos.

Após 1963, ano em que a vacina contra sarampo foi desenvolvida e amplamente distribuída, campanhas mundiais ajudaram a reduzir o número de casos e mortes. Em 2016, das 20,4 milhões pessoas afetadas pela doença no mundo, 89,7 mil morreram, fazendo daquele ano o primeiro a apresentar taxa de mortalidade abaixo do patamar dos 100 mil. Apenas seis anos antes, em 2000, o número de mortos era de 550 mil.

Parte das fatalidades se dão em decorrência de complicações relacionadas à doença, como encefalite, diarreia ou pneumonia. Por isso países mais pobres – com alta taxa de crianças subnutridas ou com o sistema imunológico comprometido (caso de pacientes com Aids) – tendem a ser mais duramente afetados por surtos de sarampo.

Casos de sarampo (por milhão de hab.)

Segundo dados da OMS, dentre os países mais afetados pelo vírus fora da Europa, a maioria está na África e na Ásia. São exemplos a Índia (55,2 mil casos em 2017), Nigéria (10,7 mil), Indonésia (6,5 mil), Paquistão (6,4 mil), China (5,7 mil), Bangladesh (4,1 mil) e a República Democrática do Congo (3,7 mil).

Contágio e sintomas

O sarampo é transmitido por gotículas infectadas expelidas pelo nariz ou pela boca. Pessoas infectadas podem facilmente contaminar outras por meio de espirro ou tosse.

Os sintomas iniciais costumam aparecer em 10 dias e incluem febre alta, coriza, espirro, tosse, dor e vermelhidão nos olhos, além de pequenas manchas brancas no interior da boca. Dias depois, erupções vermelhas (rash) aparecem na pele, normalmente começando por rosto e pescoço, e seguindo para o resto do corpo.

Tratamento e prevenção

Uma vez que a pessoa tenha sido contaminada, não há uma cura específica, apenas tratamento que tem como objeto manter o paciente hidratado e bem alimentado, devidamente munido de vitamina A e medicado com antitérmicos (contra febre) e antibióticos (contra infecções secundárias como pneumonia).

Por essa razão, a imunização por meio da vacina em crianças com até 1 ano de idade é fortemente recomendada. Ela pode ser aplicada em duas doses, sendo a segunda dada em conjunto de vacinas contra outras doenças como caxumba e rubéola (a chamada tríplice viral), ou ainda varicela (tetra viral).

No Brasil, pessoas com idade entre 5 e 29 anos que não tenham se imunizado podem receber duas doses de vacina tríplice viral. Acima de 30, o governo recomenda apenas uma dose da vacina conjunta.

Razões dos novos surtos

A expectativa da OMS é eliminar as ocorrências de sarampo na região até 2020. Em resposta aos surtos recentes, a organização afirma que ações para frear o aumento de casos e prevenir novos estão sendo tomadas em diversas frentes. Elas incluem campanhas de conscientização voltadas para profissionais da saúde e população de risco e ainda melhora no planejamento e logística de distribuição de vacinas.

Um grande desafio é convencer parte da população europeia que não vê a vacina contra sarampo com bons olhos. Entre os fatos que levaram a isso, o principal é o medo gerado por um estudo que estabeleceu um falsa relação entre a vacina tríplice ao surgimento de autismo. De autoria do britânico Andrew Wakefield, o trabalho, publicado em 1998, envolveu a análise de 12 crianças.

Nenhum estudo posterior conseguiu replicar os resultados. Desacreditado, o trabalho do britânico foi excluído de publicações científicas em 2010 e Wakefield ficou proibido de exercer medicina no Reino Unido.

Apesar do repúdio à relação feita pelo britânico, uma espécie de movimento contrário à vacina se espalhou pela Europa, sobretudo na Itália. Em maio de 2017, o governo italiano chegou a exigir, sob a ameaça de multas de até 2.500 euros, a vacinação contra sarampo em crianças com até seis anos. De acordo com a BBC, na época, o primeiro-ministro responsabilizou a menor cobertura de vacinação no país entre 2011 e 2015 a uma “propagação de teorias anticientíficas”.

Ainda à BBC, o diretor do Programa de Doenças Preveníveis com Vacinas e de Imunização da OMS na Europa, Robb Butler, amenizou a culpa das pessoas contrárias a vacinas e colocou o peso sobre os países menos comprometidos com a campanha na região.

Isso porque, dado o caráter endêmico e o poder de contágio da doença, basta que um dos países próximos não vacine a sua população devidamente para que o vírus volte a se alastrar por toda a região.

“Os maiores surtos de sarampo ocorrem em países onde há bolsões de suscetibilidade. Muitos países não estão entregando as vacinas para suas populações na quantidade necessária”, disse Butler. “Não dá para dizer que o cenário atual é só culpa dos pais. Ao fazer isso, os países estariam dizendo que seus serviços de saúde são perfeitos, e simplesmente não são. Para recusar uma vacina, é preciso que ela seja, primeiro, oferecida a você.”

  

 

 

 

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