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Por que a morte de recém-nascidos continua um problema, segundo o Unicef

Órgão da ONU aponta que 2,6 milhões de bebês morrem anualmente antes do primeiro mês de vida; medidas simples ajudariam a reduzir estatísticas

Serena Williams, tenista profissional famosa por ser a número 1 na sua categoria por oito vezes, relatou em um artigo publicado nesta terça-feira (20) na CNN a sua turbulenta experiência ao dar à luz sua filha em setembro de 2017. Após realizar o parto por meio de uma cesariana emergencial, a esportista passou por duas cirurgias para remoção de coágulos no pulmão e no abdômen. “Se não fosse pelo cuidado profissional [que recebi], eu não estaria aqui hoje”, disse.

Fora das quadras, Williams é também embaixadora do Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância). Ao falar da sua situação, a atleta citou dados presentes em relatório da entidade lançado também nesta terça, intitulado “Every Child Alive - The urgent need to end newborn deaths” (Toda criança viva - A urgente necessidade de se acabar com a morte de recém-nascidos, em tradução livre).

“Ao redor do mundo, milhares de mulheres lutam para dar à luz nos países mais pobres. Quando elas têm complicações como as minhas, muitas vezes não há medicamentos, clínicas ou médicos para salvá-las. Se elas não querem dar à luz em casa, elas têm de viajar longas distâncias no auge da gravidez. Antes mesmo de trazer uma nova vida a este mundo, as cartas já estão colocadas contra elas.”

Serena Williams

Tenista profissional, embaixadora do Unicef e mãe, em artigo publicado na CNN

O que diz o relatório

O órgão das Nações Unidas comemora a redução do número de mortes de crianças com menos de 5 anos nas últimas três décadas, mas ressalta que as mortes entre recém-nascidos – bebês com até 28 dias de vida – não vêm caindo no mesmo ritmo.

Entre 1990 e 2016, a taxa de mortalidade (medida a cada mil) de crianças com menos de 5 anos caiu de 93 para 41, ou 62%, no mundo todo. Já entre recém-nascidos, a queda foi de 37 para 19, ou 49%. Pelos novos dados, a participação de mortes de recém-nascidos no quadro geral cresceu, passando a responder por quase metade das fatalidades.

Milhões de perdas anuais

Em números brutos, isso significa que, por ano, 2,6 milhões de bebês estão morrendo antes de completarem um mês de vida. Desses, cerca de 1 milhão morre no mesmo dia de nascimento.

“Estamos falhando com as pessoas mais novas e mais vulneráveis do planeta – e com tantos milhões de vidas em jogo, tempo é essencial”, diz o relatório.

Fatores de morte

O Unicef aponta dois eixos de motivos que fazem com que a redução de mortes de recém-nascidos seja um desafio maior no mundo.

O primeiro, de acordo com o documento, envolve as principais causas de morte (mais de 80% dos casos) que inclui prematuridade (quando o bebê nasce com menos de 37 semanas de gestação), complicações no parto e infecções – como sepse, meningite e pneumonia.

Por que morrem

“Essas causas são quase sempre evitáveis, mas muitas vezes não podem ser tratadas por apenas um medicamento ou uma intervenção médica. Elas exigem uma abordagem sistemática”, diz o texto.

O segundo refere-se a uma série de medidas que constituiriam “um foco global sobre o desafio de acabar com a mortalidade de recém-nascidos”.

“Milhões de vidas poderiam ser salvas anualmente se mães e bebês tivessem acesso a assistência médica de qualidade e acessível, boa nutrição e água limpa. Mas muitas vezes até esses elementos básicos estão fora do alcance de quem mais precisa.”

Unicef

Relatório “Every Child Alive”

Natimortos e prematuros

O relatório chama atenção para os dados referentes também a natimortos – bebês que deixam o útero sem sinais de vida –, estimados em outros 2,6 milhões, a maioria de países pobres ou de renda média.

O número não é certo. Como aponta o Unicef, é comum natimortos não serem contabilizados por sistemas públicos de saúde, além de não obterem registros de nascimento ou morte. “Muitas das intervenções e atendimentos que previnem a morte de recém-nascidos podem prevenir o mesmo fim a natimortos”, aponta o relatório.

A mesma atenção especial vale para prematuros. De acordo com o órgão da ONU, estima-se que todo ano 15 milhões de bebês nasçam de parto prematuro, antes da 37ª semana de gestação, o que “expõe mães e bebês a serem afetados por complicações”, como baixo peso pós-parto, atrofias e dificuldades de aprendizado.

País, renda e boas políticas

O relatório apresenta comparações entre a situação de diferentes países, avaliados por seu nível de renda. Os dados colhidos pelo órgão da ONU mostram que bebês de famílias pobres têm 40% mais chances de morrer no primeiro mês que de famílias mais ricas.

“Esses bebês não estão morrendo por razões médicas como prematuridade ou pneumonia. Eles estão morrendo porque suas famílias são pobres demais ou excluídas do acesso à assistência necessária”, diz o texto.

Na média, países de renda alta costumam apresentar taxa de mortalidade de 3 bebês (a cada mil nascimentos), enquanto países mais pobres contam com uma taxa de 27 (por mil). Ainda assim, países como Ucrânia e Sri Lanka (enquadrados como de renda média baixa) têm taxa de mortalidade de 5, apenas um ponto acima do índice dos Estados Unidos (renda alta).

A explicação do Unicef está nas escolhas políticas feitas pelo país, seja ele pobre ou mais abastado. “E essa vontade política nem sempre está presente. Da mesma forma, quando os recursos são escassos, forte comprometimento político pode garantir que o dinheiro que existe seja investido criteriosamente na construção de sistemas robustos de saúde que priorizem recém-nascidos e atendam os mais pobres e marginalizados”, diz o órgão.

Como exemplo, cita Ruanda. O país africano reduziu, entre 1990 e 2016, a taxa de mortalidade de recém-nascidos de 41 (por mil nascimentos) para 17. Entre as medidas que adotou, estão um esquema nacional de seguro de saúde voltado para os mais pobres e um sistema de certificação de clínicas médicas instaladas em comunidades específicas.

Além da renda, fatores como educação e local de residência (rural ou urbano) pesam muito sobre a sorte do recém-nascido. De acordo com o relatório, bebês de mãe sem ensino correm duas vezes mais riscos que de mães com ensino secundário.

Melhores e piores

Na lista dos 10 países com as piores taxas de mortalidade de recém-nascidos, estão dois do sul-asiático – Paquistão, na ponta, com 45,6 mortes (a cada mil); e o Afeganistão, com 40 – e os demais todos da África subsariana. São eles: República Centro-Africana (42,3), Somália (38,8), Lesoto (38,5), Guiné-Bissau (38,2), Sudão do Sul (37,9), Costa do Marfim (36,6), Mali (35,7) e Chade (35,1).

Na Somália, os dados do Unicef apontam a presença de apenas um médico, enfermeira ou parteira para cada 10 mil pessoas no país. Na República Centro-Africana, há três. Como comparação, na Noruega (país mais bem posicionado neste indicador), há 218 profissionais de saúde para cada 10 mil habitantes.

Já a sequência de países com os melhores números é liderada pelo Japão. Por lá, há registros de 1 caso de morte de recém-nascido para cada 1.000 novos bebês. A lista segue com Islândia (1 a cada mil), Cingapura (1,1), Finlândia (1,2), Estônia (1,3), Eslovênia (1,3), Chipre  (1,4), Belarus (1,5), Coreia do Sul (1,5), Noruega (1,5) e Luxemburgo (1,5).

O Brasil, por sua vez, conta com uma taxa de mortalidade de 8 bebês a cada mil nascimentos e conta com 93 profissionais de saúde a cada 10 mil pessoas. Dentre os países que compartilham da sua faixa de renda (considerada no relatório como sendo média-alta), o Brasil fica atrás de Líbia (7,1), Argentina (6,2), China (5,1), Rússia (3,4) e Cuba (2,4).

O Unicef publica o relatório como plataforma de uma campanha internacional que, segundo ela, deverá focar em 10 países que, juntos, respondem por mais da metade das mortes de recém-nascidos no mundo. São eles: Bangladesh, Etiópia, Guiné-Bissau, Índia, Indonésia, Malawi, Mali, Nigéria, Paquistão e Tanzânia.

Como avançar

Aos países que buscam se engajar na redução de mortes de recém-nascidos, o Unicef propõe quatro eixos de trabalho.

O primeiro deles se refere ao ambiente. O país deve garantir a existência de instalações médicas limpas, funcionais, equipadas com água, sabão e eletricidade. O segundo se resume a recursos humanos: o país deve ser capaz de “recrutar, treinar, reter e gerir um número suficiente de médicos, enfermeiras e parteiras com as competências e habilidades necessárias para salvar a vida de recém-nascidos”.

O terceiro remete à distribuição de equipamentos médicos e medicamentos básicos para o atendimento de mães e recém-nascidos, incluindo oxigenadores, termômetros, antibióticos e vacina antitetânica.

Por fim, a educação e fortalecimento de mulheres adolescentes e adultas. De acordo com o Unicef, em países com altas taxas de mortalidade de recém-nascidos, mulheres costumam ter níveis de educação, participações política e econômica mais baixas que homens. “Empoderar mulheres e garotas para que elas sejam capazes de tomar as melhores decisões para si e suas famílias, e tratá-las com dignidade e respeito durante a gravidez, parto e pós-parto, são componentes críticos de um atendimento de qualidade”, conclui o documento.

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