Como partidos e políticos alinhados à esquerda lidam com o pós-Lula

Líderes e outros pré-candidatos buscam alternativas ao ex-presidente, que poderá ser barrado pela Lei da Ficha Limpa

     

    Condenado em segunda instância por corrupção e lavagem de dinheiro no caso do tríplex do Guarujá, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva pode ser impedido de se candidatar ao Palácio do Planalto em 2018 por se enquadrar na Lei da Ficha Limpa.

    Sem Lula na disputa, o cenário de intenção de votos fica ainda mais incerto – o número de indecisos sobe de 17% para 31%. Os pré-candidatos Marina Silva (Rede) e Ciro Gomes (PDT) são apontados como potenciais herdeiros desses votos. Marina e Ciro foram ministros do governo do petista (2003-2010).

    Diante da provável ausência de Lula nas urnas, partidos mais alinhados à esquerda no espectro ideológico se articulam em busca de alternativas. O discurso oficial é de que é preciso uma estratégia unificada – ainda que cada partido lance sua própria candidatura.

    O Nexo elencou abaixo três movimentos recentes que envolvem partidos, líderes e parlamentares alinhados à esquerda ou à centro-esqueda, a fim de mapear como esses grupos se articulam para a campanha que começa oficialmente em agosto.

    O discurso público dos partidos

    Na terça-feira (20), quatro partidos alinhados à esquerda (PT, PCdoB, PDT e PSOL) lançaram o manifesto “Unidade para Reconstruir o Brasil”. A proposta do documento era apresentar uma agenda unificada dos partidos. O que não significa apresentar uma candidatura única de esquerda para a Presidência em 2018.

    O PSB chegou a participar da elaboração do documento, mas desistiu de assiná-lo pouco antes de sua publicação, pois ainda não definiu se lançará candidato próprio à Presidência ou apoiará o nome do governador Geraldo Alckmin, pré-candidato pelo PSDB.

    No documento, os quatro partidos – que, mesmo juntos, são minoria na Câmara, com apenas 18% das cadeiras – fazem afirmações genéricas. Entre elas, as seguintes:

    • É preciso “restauração da democracia”: para esses partidos, o país viveu um golpe em 2016, quando Dilma Rousseff foi tirada da Presidência por decisão do Congresso sob acusação de cometer manobras fiscais.
    • A “garantia de realização da eleição de 2018”: os partidos sugerem que há risco de que os brasileiros sejam impedidos de ir às urnas em outubro de 2018, mas não entram detalhes sobre como isso poderia ocorrer.
    • A atuação mais forte do Estado na economia: segundo os partidos, é necessário usar os bancos públicos para conceder financiamentos e induzir o crescimento, numa política contrária à adotada por Michel Temer, vice que assumiu o poder com uma política de contenção do gasto público.

    O documento apresentado pelos quatro partidos não apresenta propostas específicas para retomada do crescimento econômico. Alternativas à reforma da Previdência, que está no centro dos debates políticos de 2018, também não são abordadas. O manifesto cita apenas a necessidade de “resgatar” a Previdência e a proteção social.

    A condenação do ex-presidente Lula em segunda instância não foi citada no manifesto dos partidos de esquerda. PT, PSOL e PCdoB adotaram o discurso de que “eleição sem Lula é fraude” desde que o ex-presidente passou a se enquadrar na Lei da Ficha Limpa. Segundo o jornal Folha de S.Paulo, a ausência do tema no manifesto foi um pedido do pré-candidato à Presidência Ciro Gomes (PDT) a fim de que seu partido também assinasse o documento.

    A articulação entre Ciro e Haddad

    O PT afirma que não há “plano B” a Lula, e que seu único candidato é mesmo o ex-presidente. Nos bastidores, porém, há diálogo entre líderes petistas e outros partidos.

    Segundo o jornal O Estado de S. Paulo, Ciro e o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad se reuniram na terça-feira (20) na casa de Gabriel Chalita (PDT) para debater estratégias de atuação unificada antes mesmo de agosto, quando a campanha eleitoral começa oficialmente.

    Ciro e Haddad entendem, segundo o relato feito pelo jornal O Estado de S. Paulo, que os eleitores que não sabem em quem irão votar para presidente caso Lula seja impedido de concorrer podem ser atraídos por partidos de centro-direita e direita.

    O encontro de terça-feira (20) não debateu um plano B caso Lula não possa se candidatar, ainda segundo o jornal paulista. Mesmo assim, alguns integrantes do PT entenderam que a conversa representava uma sinalização de que Haddad está disposto a integrar a chapa eleitoral de Ciro como vice – o pré-candidato do PDT afirmou em agosto de 2017 que uma chapa com Haddad seria o “dream team”.

    O grupo de petistas insatisfeitos com o encontro afirmou que Haddad não tem autorização para agir em nome do partido. A presidente do PT, senadora Gleisi Hoffman, minimizou o caso.

    Os riscos para a Rede de Marina

    A legislação eleitoral obriga emissoras de TV a convidarem para debates os candidatos de partidos que tenham ao menos cinco parlamentares no exercício do mandato. E esse é exatamente o número de parlamentares da Rede, partido da pré-candidata à Presidência Marina Silva.

    É possível, porém, que o partido de Marina perca dois parlamentares e a pré-candidata, se vier mesmo a se lançar, não seja convidada para os debates. Os deputados Alessandro Molon e Aliel Machado estudam trocar a Rede pelo PSB.

    A provável perda de dois deputados fez Marina iniciar uma ofensiva no Congresso em busca de mais dois parlamentares. De acordo com reportagem do jornal O Estado de S. Paulo na quarta-feira (21), ao menos um deputado e um senador de outros partidos já conversaram com Marina e devem se filiar à Rede.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

    Já é assinante?

    Entre aqui

    Continue sua leitura

    Para acessar este conteúdo, inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: