Ir direto ao conteúdo

Por que a bolsa subiu após a suspensão da reforma da Previdência

Desde que o governo Michel Temer abandonou sua antiga prioridade, Índice Bovespa teve três dias de recorde

     

    Na noite de segunda-feira (19), três dias depois de decretar intervenção federal no Rio de Janeiro, o governo suspendeu a tramitação da reforma da Previdência, seu projeto mais importante na agenda de reformas. Diferentemente do que aconteceu em outros momentos em que a reforma esteve ameaçada, não houve reação do mercado financeiro, queda de bolsa ou disparada do dólar.

    Pelo contrário. No dia seguinte, puxado por altas nas ações da Petrobras e da Eletrobras, o Ibovespa subiu 1,19% e atingiu seu recorde histórico. Na quarta (21) e na quinta (22), mais alta e novos recordes estabelecidos.

    O resultado contrariou um discurso construído pelo governo ao tentar implantar sua agenda de reformas. Em um primeiro momento, investidores e empresários não se assustaram com a suspensão da tramitação do projeto.

    A agenda de reformas, a confiança e o crescimento

    Michel Temer assumiu a Presidência da República, ainda interinamente, em maio de 2016 e implantou uma agenda econômica baseada em reformas. Na visão do governo, a recuperação da economia dependia, primordialmente, da contenção dos gastos e do equilíbrio das contas públicas. Essa agenda contava com o apoio de empresários e investidores.

    A primeira reforma foi congelar o crescimento real dos gastos públicos. A Emenda Constitucional do teto de gastos foi aprovada e o governo foi para o passo seguinte: a reforma da Previdência. A contenção dos gastos com aposentadorias é importante para o cumprimeto do teto, aprovado anteriormente.

    Durante esse tempo em que o governo discutia e implantava seus projetos de ajuste fiscal, indicadores que medem expectativas econômicas melhoraram. Melhoraram também as cotações dos ativos mais voláteis, que refletem mais rapidamente as expectativas: o risco Brasil e o dólar caíram e o índice Bovespa subiu.

    Em um segundo momento, a economia real saiu da recessão e teve em 2017 o primeiro crescimento em três anos. No discurso do governo, o crescimento da economia está ligado à confiança gerada pela agenda de reformas e depende dela para se manter.

    A disputa pela aprovação da Previdência

    A reforma da Previdência foi lançada em dezembro de 2016. O ano de 2017 foi marcado pelas negociações e tentativas de conseguir os 308 votos necessários.

    Primeiro, o Planalto apresentou um projeto duro: idade mínima de 65 anos para todos os trabalhadores. Ao longo do ano, com as dificuldades para a aprovação - agravadas pela delação da JBS - Temer foi amenizando o texto, adiando prazos e usando o discurso de que a recuperação da economia dependia da Previdência.

    Michel Temer e seus principais ministros repetiam que, sem a reforma, a melhora nas expectativas se reverteria, o que afetaria juros, câmbio e bolsa. Analistas de mercado tinham diagnóstico parecido.

    “Se não reformamos a Previdência estarão comprometidos os aposentados de amanhã e de hoje, se perpetuarão privilégios, será abalada confiança de investidores e isso poderá ameaçar a própria trajetória de recuperação da nossa economia”

    Michel Temer

    presidente da República, em 10/04/2017

    “A aprovação mais rápida tem impacto nas expectativas das empresas e dos consumidores. E isso é fundamental para a recuperação da economia em 2017. Tem que se aprovar a reforma o mais rapidamente possível de maneira que as expectativas continuem melhorando e que a economia continue crescendo”

    Henrique Meirelles

    ministro da Fazenda, em 10/04/2017

    Com a intervenção no Rio, o governo praticamente desistiu da reforma -  que já parecia cada dia mais improvável. Apesar disso, os investidores não se assustaram e as expectativas para a melhora da economia no curto prazo permanece alta.

    Sobre o impacto quase nulo da suspensão da reforma no mercado e sobre o discurso do governo de que a recuperação da economia dependia das mudanças na Previdência, o Nexo conversou com dois economistas:

    • André Perfeito, economista-chefe da Gradual Investimentos
    • Manoel Pires, pesquisador associado do Ibre (Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getúlio Vargas)

    Por que a paralisação da reforma não afetou a bolsa de valores?

    André Perfeito A não aprovação da reforma não vai impactar tanto a bolsa e o dólar no curto prazo, impacta os juros mais longos. A reforma da Previdência é um ajuste de longo prazo, o impacto maior seria nos juros para daqui cinco, dez anos.

    Um outro fator é que a bolsa brasileira e o valor do real são muito mais guiados pelos fatores externos. Aqui dentro, ajuda ainda a inflação muito baixa com a queda dos alimentos. Com inflação baixa, juros baixos, vale mais a pena investir em bolsa do que emprestar dinheiro para o governo.

    Mas além disso, acho que o mercado trabalha com uma hipótese de que haverá uma reforma em 2019. Pra mim, é uma hipótese bastante ingênua. A expectativa é de que vai aparecer um candidato de centro pró-reforma. Acho que as fichas podem cair ao longo do processo eleitoral.

    Manoel Pires Há um cenário externo muito positivo para um país como o Brasil porque há dinheiro disponível, o que faz o mercado financeiro ficar mais propenso a assumir risco. Internamente, há uma confluência de fatores favoráveis muito associada à questão da inflação - com a ajuda do preço dos alimentos e do real valorizado devido ao cenário internacional.

    Como a reforma da Previdência tem um impacto muito grande é no longo prazo, o custo de adiar a reforma ficou menor nesse cenário bom. Do ponto de vista da avaliação de mercado, me parece que as pessoas contam com uma reforma da Previdência em 2019. Mas trabalha-se com expectativas que podem se concretizar ou não. O fato é que, se todo esse cenário positivo mudar, pega o Brasil em uma situação mais frágil.

    Os juros agora estão baixos, mas a projeção de juros para o futuro ainda está alta e parte disso tem a ver com o risco. Se aprovasse a Previdência, provavelmente ia diminuir. Essas taxas mais longas são importantes para investimentos, para projetos com duração de 4, 5 anos.

    Durante os últimos meses, governo e analistas de mercado falaram muito sobre o crescimento da economia depender da reforma. O que mudou?

    André Perfeito O que o governo Temer fez foi impor uma agenda econômica que eles acreditam como a mais correta. Alguns economistas veem isso como necessário para a retomada. Na economia real, há uma recuperação, mas de forma alguma ela é forte.

    O Meirelles foi muito hábil em como ele construiu as reformas. Primeiro ele fez a PEC do Teto, que obriga a reforma da Previdência. Com o teto e sem a reforma, deixa de ser República Federativa do Brasil e passa a ser República Previdenciária do Brasil, só vai ter dinheiro para a Previdência. Mas, para 2018, não há impacto de não aprovar a reforma da Previdência para a economia real.

    Manoel Pires Do ponto de vista macroeconômico, a reforma era mais urgente no começo de 2016 do que é hoje. Justamente porque esses fatores positivos que hoje ajudam a economia não estavam presentes naquela época. Então a melhora tirou um pouco da urgência, mas não da importância.

    Há a retórica da política econômica também. Se o governo minimiza o papel da reforma, é mais difícil conseguir apoio para aprová-la no Congresso Nacional. Então é comum esse tipo de padrão no discurso do governo, dizendo que o fim do mundo pode se instalar caso a reforma não seja aprovada. Se não construir esse discurso, a reforma sempre vai sendo adiada porque não se entende a importância dela no curto prazo. Não parece que a economia real vá ser afetada no curto prazo pela não aprovação da reforma.

     

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.

    Mais recentes

    Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

    Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
    Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!