Como fazer política num momento de descrença nos partidos tradicionais

Em debate, Eduardo Jorge, Ilona Szabó e Pablo Ortellado falam sobre um cenário marcado por questionamentos ao nosso sistema representativo

    A eleição presidencial de 2018 pode ser o pleito com o maior número de candidatos em três décadas. São mais de uma dezena de pré-candidatos em um cenário que ameaça desmontar alianças históricas como PT e PCdoB e PSDB e DEM.

    A pulverização coincide com um momento de crescente descrença com a política partidária. Boa parte das 35 legendas existentes tem problemas com a Operação Lava Jato - as maiores bancadas do Congresso, por exemplo, são protagonistas do escândalo.

    Junto com a descrença, que surgiu de forma mais acentuada já a partir das grandes manifestações de junho de 2013, há ainda a polarização da sociedade entre setores de direita e esquerda. A dura campanha eleitoral de 2014, a vitória apertada de Dilma Rousseff e a crise que levou ao seu impeachment ainda dividem o país.

    Há ainda os chamados movimentos cívicos. Grupos políticos, mas não diretamente ligados a partidos formais, registrados no Tribunal Superior Eleitoral. Fenômeno relativamente novo, alguns enfrentarão agora seu primeiro processo eleitoral.

    Integrantes desses movimentos não estão ligados a um partido específico, mas precisam se associar a um deles para lançarem nomes a cargos eletivos - algo obrigatório pela lei brasileira.

    A Fundação Fernando Henrique Cardoso promoveu na terça-feira (20) um debate para discutir a crise da democracia brasileira e as novas formas de se fazer política em uma sociedade fragmentada. O evento não discutiu candidaturas ou o quadro eleitoral, mas sim o ambiente político. Foram três debatedores:

    • Eduardo Jorge, médico, fundador do PT e candidato do PV à Presidência em 2014
    • Ilona Szabó, cientista política, especialista em segurança pública e uma das coordenadoras do Movimento Agora
    • Pablo Ortellado, filósofo e professor da Universidade de São Paulo

    Democracia representativa é jovem e insubstituível

    Único entre os debatedores a ter disputado eleições, Eduardo Jorge tentou colocar em perspectiva a atual crise da democracia brasileira e de outros regimes mundo afora. Na avaliação dele, as oscilações e os períodos de crise são normais em um modelo de governo tão recente.

    “A democracia é muito recente e está sujeita a chacoalhões periódicos. Acho que é um sinal positivo que mais gente queira participar.”

    Eduardo Jorge

    No entanto, Eduardo Jorge vê diferenças entre os processos de desgaste das democracias dos países desenvolvidos e a brasileira.

    Na Europa, por exemplo, ele associa a recente insatisfação à sucessiva perda de direitos. Mas, segundo ele, esses direitos do século 20 eram garantidos em relações de exploração entre seus países e nações mais pobres.

    No caso brasileiro, Eduardo Jorge acredita que a estrutura partidária montada após a redemocratização “apodreceu” muito rapidamente. O político se diz um entusiasta de formas de democracia direta - com consultas populares regulares, por meio de plebiscitos e referendos -, mas acredita que nada substitui o sistema representativo, por meio do qual representantes são eleitos para defender os interesses de seus eleitores no Parlamento.

    Ao falar dos partidos, ele reclama da falta de democracia interna nas legendas e diz que muitas se limitam à disputa pelo fundo partidário - verba repassada pelo poder público para manutenção da atividade partidária.

    A saída, em sua avaliação, é uma reforma progressiva que aumente a democracia interna nos partidos e crie um ambiente que favoreça a entrada de novas pessoas na política. “A reforma política é a mãe de todas as reformas”.

    Em ambiente polarizado, a preocupação não é construir

    Uma das coordenadoras do Movimento Agora, a cientista política Ilona Szabó falou sobre o papel da sociedade civil na mudança da maneira como se faz política no Brasil.

    Segundo ela, o grupo “de pessoas que até então não haviam entrado na política” tem como maior desafio “quebrar o monopólio” do sistema atual, dominado por políticos tradicionais que controlam os partidos.

    “Ou a gente se envolve ou estaremos resignados a viver com pessoas que não estão preocupadas com os interesses da população ”

    Illona Szabó

    Para isso, o primeiro passo é estabelecer diálogo entre pessoas diferentes. Szabó acredita que o ambiente polarizado tem um efeito destrutivo sobre propostas e projetos. O objetivo do grupo, a partir disso, é construir, tentar chegar a pautas comuns.

    “São temas difíceis. Mas a partir do momento que você reconhece o sentimento do outro, as pessoas estão com medo, quando se senta, se fala com o antagonista, entende a preocupação, a gente descobre que se quer resolver as mesmas coisa. Acredito que esse é o antídoto”

    Illona Szabó

    A partir de um entendimento sobre pautas mínimas, pode-se começar uma discussão sobre propostas e experiências já testadas. O diagnóstico é que há sim assuntos em que há consenso e que a implementação desses projetos já seria um avanço para a política e o país.

    Crise tira discurso da esquerda e leva disputa para o cultural

    O filósofo Pablo Ortellado acredita que a maioria dos estudos sobre crises de democracias mundo afora são voltados para a realidade de cada país, com pouco foco em identificar os traços em comum entre os casos.

    Falando do geral, Ortellado atribui a crise de partidos mais à esquerda à crise fiscal de governos. Esses grupos, na visão do professor, historicamente se concentraram em tentar diminuir a desigualdade, mas agora esbarram em limites orçamentários, agravados pelo envelhecimento da população. O Brasil dos governos do PT, principalmente com Lula, foi uma exceção graças ao processo de alta das commodities.

    “Quando se chega a um limite fiscal, a esquerda não consegue mais ampliar direitos. Quando ela perde sua identidade, ela fica muito pouco diferente da direita. E quando ela fica muito pouco diferente, as guerras culturais - os conflitos em torno de pautas dos movimentos negro, de mulheres e LGBT - passam a ser o diferenciador”

    Pablo Ortellado

    No caso brasileiro, Ortellado acha que o social vai ser um campo de disputa na campanha de 2018. Ele vê, por exemplo, o feminismo “grudado” aos movimentos de esquerda enquanto o “antipetismo” assume um discurso mais conservador.

    O início da crise da democracia brasileira, segundo o filósofo, se deu em 2013, com as manifestações de junho. Para ele, a polarização que aparece depois da crise é resultado de uma “hipermobilização” da população - as principais manifestações foram pedindo a renúncia de Dilma Rousseff.

    No entanto, Ortellado vê a energia desses movimentos pós-2013 capturada por estruturas de poder que não querem a renovação política. O desafio, segundo ele, é tentar resolver a crise da democracia sem que a mudança resulte em um sistema pior que o atual.

    O papel de movimentos civis seria, então, conseguir influenciar na política, mas sem se deixar capturar pelas estruturas partidárias já montadas. “Para consertar o sistema, a sociedade civil tem que se intrometer, mas ao mesmo tempo ela tem que ser independente”.

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