Por que analistas comparam a intervenção no Rio ao Plano Cruzado

Em ano eleitoral, governo Temer troca pauta impopular da Previdência por agenda de segurança pública. Críticos dizem que ação é paliativa e lembra pacote econômico de Sarney

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    No dia 16 de fevereiro de 2018, faltando sete meses e meio para as eleições, o presidente Michel Temer anunciou uma intervenção do governo federal na área de segurança pública do estado do Rio de Janeiro. A medida, prevista na Constituição, nunca tinha sido usada desde a promulgação da carta magna, em 1988.

    Na prática, a medida congela as tentativas do governo de aprovar a reforma da Previdência. Com a intervenção, as mudanças nas aposentadorias dos brasileiros está, pelo menos, adiada, por dois motivos.

    O primeiro é que em períodos de intervenção fica proibida qualquer alteração da Constituição - e a reforma é uma emenda constitucional. Além disso, a intervenção muda a agenda do governo com a aproximação do período eleitoral.

    A intervenção tem o apoio da população, diferentemente das mudanças previdenciárias. Segundo pesquisa encomendada pelo governo e feita pelo Ibope na sexta-feira (16), 83% da população concorda com a troca de comando da segurança pública e com a decisão de colocar o Exército para gerenciar a segurança pública no estado.

    No embalo da boa recepção à intervenção, o governo impopular de Michel Temer lançou campanha nas redes sociais com a hashtag “#BrasilpeloRio. O presidente também discutiu as ações com marqueteiros.

    A aprovação de Temer como presidente é a mais baixa da história recente. Segundo pesquisa Ibope, apenas 6% dos brasileiros avaliam seu governo como bom ou ótimo. A tentativa de salvar o governo a partir de uma medida de impacto tem rendido comparações com o governo José Sarney e seu Plano Cruzado, de 1986.

    Assim como Temer, Sarney era um vice que chegou ao poder, e tinha popularidade baixa. O audacioso Plano Cruzado era a tentativa de controlar a inflação e foi lançado cerca de oito meses antes de uma eleição na qual foram escolhidos governadores, senadores e deputados.

    “Michel Temer encontrou, desse modo, a chance de trocar uma pauta impopular — a da reforma da Previdência — por outra populista, a da Segurança. O presidente procura, assim, o seu Plano Cruzado?”

    Carlos Melo

    cientista político do Insper, em artigo publicado em seu blog no UOL

    “O PMDB foi inteligente e tomou uma decisão que pode beneficiá-lo politicamente. Isso é comum. Resta saber se a decisão que beneficia o PMDB será boa para o país. Isso é mais raro. Afinal, a intervenção peemedebista tem toda cara de Plano Cruzado: algo feito para dar certo só até a eleição.”

    Celso Rocha de Barros

    Sociólogo, em sua coluna no jornal Folha de S.Paulo

    “A solução foi feita sem o menor planejamento, olhando o calendário eleitoral. (...) Pode ser mais um paliativo para nos próximos meses dar a impressão e aí conseguir construir um candidato, diminuir a impopularidade. (...) A frase do Sarney ao lançar o Plano Cruzado era: 'tem que dar certo'. É essa a frase do Temer. Passado alguns meses, se viu que o Cruzado não tinha atacado nenhum dos problemas estruturais da inflação. O que o Temer fez foi um Plano Cruzado.”

    Fernando Abrucio

    cientista político da FGV-SP, em comentário à rádio CBN

    A crítica central dos analistas é que a presença do Exército nas ruas do Rio pode até criar uma sensação de segurança temporária, mas não há no horizonte medidas estruturais capazes de combater o crime organizado de forma mais ampla e estrutural.

    Em entrevista à CBN na manhã de segunda-feira (19),  ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência, Sérgio Etchegoyen, disse que o governo não trabalha com a possibilidade de a intervenção falhar. Para ele, a intervenção foi decretada como último recurso contra a violência.

    “Se a União interveio no Rio de Janeiro, é porque o estado brasileiro não tem nenhuma outra opção a partir de agora. O fracasso não está entre opções do presidente Michel Temer, do governo, ou do interventor Braga Neto. Todo o governo federal está envolvido nesse projeto”

    Sérgio Etchegoyen

    ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional

    O que foi o Plano Cruzado de Sarney

    José Sarney tinha menos de um ano na Presidência quando implantou sua primeira grande tentativa de controlar a inflação. Ele assumiu o país, ainda interinamente, em março de 1985, quando Tancredo Neves foi internado horas antes da posse.

    Tancredo morreu em 21 de abril de 1985 e o governo Sarney sofria com a inflação fora de controle e a popularidade baixa. Em fevereiro de 1986, era lançado o Plano Cruzado.

    A ideia era, basicamente, congelar os preços, salários e a taxa de câmbio para impedir que eles subissem. Cada produto tinha um preço definido pelo governo em uma tabela, os comerciantes não tinham liberdade para definir os reajustes. Caso a inflação chegasse a 20% ao mês, os salários seriam automaticamente reajustados.

    Para tentar evitar que a tabela fosse desrespeitada, o governo criou a figura dos "fiscais do Sarney". O presidente pediu, em rede nacional de TV e rádio, que os próprios cidadãos ajudassem a fiscalizar desrespeitos.

    Em um primeiro momento, o programa foi um sucesso. No primeiro mês, em março, o IPC (Índice de Preços ao Consumidor) chegou a registrar deflação de 0,1%. O índice seguiu baixo durante quase todo o ano. A popularidade do presidente aumentou.

    Poucos meses depois, no entanto, o plano foi dando sinais de que era insustentável. Como não podiam repassar os aumentos nos custos de produção, empresários e comerciantes começaram a optar por não vender.

    A sobrevida do Cruzado e a eleição de 1986

    À medida que o ano avançava, aumentavam as evidências de que a economia tinha excesso de demanda. Mesmo assim, o governo tomou medidas para prolongar o Plano Cruzado.

    Em 15 de novembro de 1986, seriam eleitos 23 governadores, 487 deputados federais e 49 senadores. Era a primeira eleição após a volta de um civil à Presidência (o regime militar durou de 1964 a 1985).

    Em julho daquele ano, Sarney proibiu a exportação de carne. Segundo comunicado divulgado pela Presidência da República à época, eram "medidas de caráter econômico que completam o Plano Cruzado, o defendem dos seus inimigos e ao mesmo tempo asseguram o crescimento do país".

    Com o desabastecimento crescente, o governo foi obrigado a recuar. Em outubro de 1986, técnicos do governo já estudavam uma saída, mas o Plano Cruzado 2 só foi lançado seis dias depois da eleição. Ele, basicamente, liberava os preços congelados, aumentava impostos e cortava gastos do governo. Em janeiro de 1987 a inflação já estava acima dos 20% ao mês.

    “No final de 86, o boicote do mercado ao Plano Cruzado, refletido no desabastecimento de vários produtos deu origem a um mercado negro, o que levou o governo a lançar um plano de reajuste econômico.(...) Segundo Sarney, ‘o Cruzado 2 foi o maior erro que cometemos no governo e por ele, paguei muito caro’”

    Trecho de texto publicado no site oficial de José Sarney

    Ainda em 1986 a inflação voltou a explodir. A popularidade de Sarney fez o caminho inverso e voltou aos baixos patamares de antes. O PMDB da época elegeu 22 dos 23 governadores do país e formou a maior bancada na Câmara e no Senado. Três anos depois, na eleição presidencial de 1989, nenhum dos candidatos defendeu o governo de Sarney.

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