O contexto político e social por trás da criação do Pantera Negra

Conquistas de direitos civis e orgulho negro contribuíram para criação e protagonismo do personagem nos quadrinhos nas décadas de 1960 e 1970

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“Criei o Pantera Negra porque percebi que não havia negros na minha história em quadrinhos”, explicou uma vez o quadrinista Jack Kirby, um dos pioneiros da Marvel. “Nunca tinha desenhado um negro. Precisava de um negro. De repente, descobri que tinha muitos leitores negros. E lá estava eu ignorando eles… me dei conta… de que ninguém estava fazendo negros.”

O herói negro inventado por Kirby estreou na revista do Quarteto Fantástico em julho de 1966. Era não apenas o primeiro super-herói negro dos quadrinhos, mas também vinha de uma nação africana tecnologicamente avançada, Wakanda. Era uma mudança substantiva: na cultura popular, o continente geralmente aparecia como atrasado e rústico.

Inicialmente, Kirby batizou seu herói de Coal Tiger (tigre de carvão), mas seu parceiro de criação, o roteirista Stan Lee, mudou o nome para Pantera Negra. Já foi sugerido que o nome teria se inspirado no Black Panther Party, do Alabama, cujo nome depois inspirou o movimento dos Panteras Negras. O partido do Alabama foi fundado em 1965 pelo ativista Stokely Carmichael, criador do slogan “black power”. Entretanto, Lee sempre negou a inspiração.

A era dos direitos civis

O personagem surgiu em meio a conquistas defendidas pelo movimento dos direitos civis, liderado por Martin Luther King, Jr. A segregação ainda era a norma em muitos estados americanos, e inúmeras leis estaduais proibiam a integração racial em escolas ou no casamento.

 

Entre 1964 e 1968, o Congresso americano aprovou três peças de legislação fundamentais para o fim da discriminação racial, garantindo igualdade de direitos civis, eleitorais e aluguel ou compra de moradia.

Largas porções da mídia apoiavam a causa. Em 1964, o presidente da emissora de televisão CBS, Frank Stanton, conclamou profissionais da imprensa a se lançarem em uma “cruzada editorial poderosa e contínua” em favor dos direitos civis, durante um pronunciamento na faculdade de jornalismo da Universidade de Columbia, em Nova York. Para tanto, ele afirmou que era necessário “usar suas 5 mil vozes ouvidas em 156 milhões de aparelhos de rádio e 61 milhões de aparelhos de televisão”.

Representação negra

Filmes e séries no cinema e na televisão americana passaram a contar com mais personagens negros. No ano de 1964, o ator Sidney Poitier foi o primeiro negro a ganhar um Oscar de melhor ator, por seu papel no filme “A voz das sombras”.

Na segunda metade da década de 1960, havia cerca de 25 atrações televisivas com negros como protagonistas ou em papéis de destaque.

Entre eles, estava a tenente Uhura, na versão original do seriado “Jornada nas Estrelas”. Vivida pela atriz Nichelle Nichols, o nome do personagem vinha da palavra suaíli  uhuru, que significa “liberdade”.

 

No seriado “Mod Squad”, lançado em 1968, um trio de jovens detetives com referências da contracultura contava com o personagem Lincoln Hayes, que tinha 12 irmãos e havia participado dos distúrbios raciais de Watts, em Los Angeles.

Entretanto, como relatam estudos posteriores, muitos dos papéis ainda eram estereotipados e a representação ainda estava longe de refletir a realidade: um estudo calculou que, em 1971, 6% dos personagens na televisão dos Estados Unidos eram afro-americanos, contra 11% na população real.

O ressurgimento do personagem

Apesar da preocupação da Marvel, o personagem Pantera Negra demoraria sete anos para sair da condição de coadjuvante e ter sua própria história.

 

O cenário geral era bastante diferente daquele de meados da década de 1960. Apesar das conquistas no âmbito dos direitos, o preconceito e a desigualdade ainda faziam parte do cotidiano de boa parte da população afro-americana.

O assassinato de Luther King, em 1968, foi um momento especialmente simbólico da desilusão. Sua morte motivou dezenas de distúrbios raciais em cidades americanas, incluindo Washington, Chicago e Baltimore.

Movimentos, como os Panteras Negras e o Exército de Libertação Negro, se envolveram em crimes como assassinatos de policiais, roubo a bancos e sequestro. A percepção popular sobre os Panteras Negras deteriorou. Durante 1972, a Marvel chegou a mudar o nome do personagem para Black Leopard, para evitar a associação com o movimento negro.

Ao mesmo tempo, havia avanços em várias frentes. Cidades importantes como Washington, Detroit e Cleveland tiveram prefeitos negros. Em 1971, a Johnson Products se torna a primeira empresa afro-americana a ter ações vendidas na bolsa de Nova York.

Na música, por meio de artistas como James Brown, Marvin Gaye e Sly Stone, havia um forte sentimento de orgulho negro (e que influenciou artistas de muitos países, como Fela Kuti, na Nigéria, e os participantes do movimento Black Rio).

Nesse contexto, um revisor da Marvel Don McGregor achou que estava mais que na hora de a Marvel ter um herói africano negro estrelando uma revista. Na verdade, a demanda surgiu da indignação de McGregor diante de um lançamento da Marvel da época chamado “Jungle Action”, em que histórias da década de 1950 com protagonistas brancos na “selva africana” eram reeditadas. “Eu dizia para eles, não acredito que vocês estão publicando esse material racista na década de 1970”, contou McGregor ao site Vulture.

McGregor, que era branco e tinha trabalhado como policial, onde presenciou em primeira mão o racismo na instituição durante os distúrbios civis, ganhou a incumbência então de roteirizar as novas histórias próprias do personagem. O resultado foi “Panther’s Rage” (a fúria da Pantera, em tradução livre), que durou de 1973 a 1976, dentro da revista “Jungle action”. Entre as inovações da série, estavam histórias em que todos os personagens eram negros.

Em aventuras posteriores, o Pantera Negra apareceria lutando contra membros da Ku Klux Klan e mercenários racistas da África do Sul. Seu reino de origem, Wakanda, se encaixou na narrativa do afrofuturismo, em que utopias negras são imaginadas, e que apareceu em obras de músicos da época, como Dexter Wansel, Sun Ra e George Clinton.

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