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Como um app de segurança pode ajudar o Facebook a monitorar usuários

Onavo colhe dados de navegação no celular em qualquer aplicativo. Informações seriam usadas para ganhar vantagem sobre concorrentes como o Snapchat

     

    Usuários do aplicativo do Facebook no sistema operacional iOS, nos Estados Unidos e no Brasil, podem encontrar uma nova opção no menu do app intitulada “Protect”. Ao clicar nela, o usuário é conduzido à loja de aplicativos App Store, onde pode baixar gratuitamente um aplicativo chamado Onavo Protect, subtitulado “proteção VPN”.

    O texto de apresentação do aplicativo na loja virtual diz que ele traz “paz de espírito quando navega e partilha informações” na internet móvel. De acordo com o texto, o Onavo Protect protege senhas, dados de cartão e informações privadas de sites maliciosos e inseguros. A sigla VPN se refere a Virtual Private Network (rede virtual privada), conexão que usa a criptografia para proteger dados na internet.

    Entretanto, conforme expresso na Política de Privacidade do aplicativo, para funcionar o app precisar poder acessar a todos os seus dados de navegação por sites e aplicativos via celular, incluindo geolocalização.

    Entre os usos que pode fazer da informação, o Onavo lista “analisar uso dos nossos apps e outros aplicativos no seu aparelho”. Isso significa que o aplicativo permite o monitoramento da navegação de uma pessoa no celular, mesmo que ela esteja fora do app do Facebook.

    Outros usos citados incluem “dar apoio à propaganda e atividades relacionadas, e para outros fins”. A empresa também avisa que pode compartilhar informações com “terceiros”.

    “Em vez de utilizar dados para fins de propaganda, eles estão os utilizando para inteligência competitiva.”

    Ashkan Soltani

    Pesquisador e ex-chefe de tecnologia da FTC (Comissão Federal de Comércio dos Estados Unidos)

    Em nota divulgada à imprensa americana, o Facebook admitiu que o Onavo “pode coletar seus dados de navegação móvel para nos ajudar a reconhecer táticas que maus atores usam”. A rede social alega que a prática, com o tempo, “ajuda a ferramenta a trabalhar melhor para você e para os outros”.

    Disponível para celulares iPhone e Android, o Onavo já foi baixado 33 milhões de vezes, segundo dados da Sensor Tower. Cerca de 62% desses downloads foram pela loja do Android, Google Play. O Brasil é o terceiro país com mais usuários do Onavo, superado apenas por Índia e Estados Unidos.

    O Onavo é uma empresa israelense de análise de dados móveis. Foi comprada pelo Facebook em 2013, por um valor não revelado. Estimativas levantadas no ano da aquisição oscilavam entre US$ 100 milhões e US$ 200 milhões.

    Uma rasteira no Snapchat

    Ao monitorar a navegação de uma pessoa no celular, dentro ou fora da rede social, a empresa consegue perceber quais aplicativos começam a crescer ou diminuir em acessos, além de quais recursos dos apps estão sendo mais utilizados.

    Em agosto de 2017, uma reportagem do jornal americano Wall Street Journal revelou que a empresa de Mark Zuckerberg usou dados recolhidos pelo Onavo para observar uma queda no número de usuários do Snapchat depois que o Instagram lançou o recurso Stories. Presente no Instagram, o aplicativo de fotos que o Facebook comprou em 2012 por US$ 1 bilhão, o Stories é inspirado em uma funcionalidade equivalente no Snapchat.

     

    De posse das informações, o Facebook pode investir no Stories sabendo que era alta a chance de a concorrência ser afetada. O que de fato aconteceu: no fim de 2017, a Snap, empresa responsável pelo Snapchat, reportou quedas no preço das ações, da receita e no número de usuários

    Em outubro de 2017, a empresa de marketing americana Mediakix analisou postagens de 12 influenciadores digitais que mantinham contas nas duas plataformas. Descobriu que suas publicações no Snapchat tinham caído 33%, ao passo que no Stories elas cresceram 14%.

    O tipo de informação fornecido pelo Onavo pode também ter ajudado na decisão de o Facebook comprar o WhatsApp por US$ 19 bilhões, em 2014, segundo fontes ligadas à empresa ouvidas pelo The Wall Street Journal. O dado de que 99% dos celulares Android na Espanha contavam com o WhatsApp instalado teria alertado a empresa para o potencial do aplicativo de mensagens.

    Em outro exemplo citado pelas fontes ouvidas pelo WSJ, a disponibilização do recurso de vídeo ao vivo na rede social surgiu com a observação do uso de apps específicos de transmissão de vídeo como Periscope e Meerkat.

    Sufocando a concorrência

    Escrevendo para a revista americana Vanity Fair, o jornalista Nick Bilton (colunista de tecnologia do The New York Times e autor de “A eclosão do Twitter: uma aventura de dinheiro, poder, amizade e traição”, publicado em 2013) descreveu a empresa como “bully” em sua busca por dominação global: concorrentes são adquiridos ou esmagados.

    Ainda segundo o autor, depois que o CEO do Snapchat não quis vender sua empresa para o Facebook, a rede social tratou de copiar recursos (como o Stories e o uso de efeitos em imagens) e enfraquecer o rival em potencial.

    Em 2012, algo semelhante foi feito com o Twitter. Na época, a rede social de posts de 140 caracteres era o principal destino para notícias da imprensa nos EUA. “O Twitter era uma ameaça enorme”, disse um ex-funcionário do Facebook à revista Wired. Zuckerberg havia tentado comprar o Twitter por US$ 500 milhões, mas o co-fundador do Twitter, Biz Stone, não se interessou pela proposta.

    Investimentos em empresas de internet ou redes sociais caíram quase que pela metade entre 2014 e 2017, segundo dados da empresa de pesquisa CB Insights.

    O Facebook então adaptou seu feed para compartilhar notícias da imprensa, mostrando títulos e autoria de matérias. A empresa procurou jornalistas e veículos para explicar como a rede social poderia ser usada para divulgar seu conteúdo. No fim de 2013, o Facebook havia dobrado sua participação no tráfego on-line para sites de notícias, afetando o Twitter. Dois anos depois, essa fatia era 13 vezes maior que a do Twitter nos Estados Unidos.

    “Em vez de utilizar dados para fins de propaganda, eles estão os utilizando para inteligência competitiva”, explicou Ashkan Soltani, pesquisador independente e ex-chefe de tecnologia da FTC (Comissão Federal de Comércio dos Estados Unidos), sobre o uso do Onavo pelo Facebook, ao The Wall Street Journal. “Essencialmente, essa abordagem pega dados gerados por consumidores e os usa em maneiras que prejudicam seus interesses diretamente - por exemplo, para impedir inovação competitiva.”

    Ameaça à inovação

    Em artigo para a Wired, o jornalista Erin Griffith fala sobre a preocupação no Vale do Silício de que a estratégia do Facebook possa ser prejudicial à inovação, tão cara à indústria da tecnologia. De acordo com Griffith, investidores reclamam “privadamente” que estão deixando de colocar dinheiro em empresas de redes sociais. “Nunca haverá outro WhatsApp, eles defendem, porque o Facebook irá comprá-lo ou enterrá-lo antes que ele consiga crescer o bastante”, afirmou.

    Griffith aponta que investimentos em empresas de internet ou redes sociais vêm caindo desde 2014, segundo dados da empresa de pesquisa CB Insights. A queda, em investimentos globais, foi de US$ 1,4 bilhão em 2014 para estimados US$ 683 milhões em 2017.

    Zuckerberg também percebeu há muito tempo que pode copiar à vontade, não importando quem inventa os melhores recursos, como apontou outro especialista, o jornalista Farhad Manjoo, no The New York Times. “O que importa é ser dono da rede de maior tamanho e engajamento. E porque ele tem a rede, ele sempre ganha”, disse Manjoo.

     

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