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Como mulheres muçulmanas estão tomando parte no movimento #MeToo

Hashtag #MosqueMeToo tem trazido à tona relatos de assédio sexual de mulheres durante a peregrinação sagrada a Meca

 

No início de fevereiro, Sabica Khan, paquistanesa e muçulmana, compartilhou no Facebook um relato de que havia sido assediada sexualmente durante o Hadj, peregrinação que leva à cidade de Meca, na Arábia Saudita, mais de dois milhões de fiéis do mundo todos os anos. Em 2017, segundo o jornal francês Le Monde, metade dos peregrinos eram mulheres.

Reações negativas ao post obrigaram-na a se retirar da rede social. Antes disso, porém, várias outras mulheres responderam a Khan compartilhando suas próprias experiências de assédio durante o ritual da peregrinação conhecido como “tawaf”, que consiste em dar sete voltas na Caaba, construção em forma de cubo considerada o local mais sagrado do mundo pelos muçulmanos.

No dia 6 de fevereiro de 2018, Mona Eltahawy, jornalista egípcio-americana, muçulmana de origem e feminista, foi a primeira a usar a hashtag #MosqueMeToo (#MesquitaEuTambém) para incentivar outras mulheres a falarem publicamente sobre o assédio nesse contexto. O nome da campanha foi adaptado a partir do movimento contra o assédio #MeToo, iniciado por mulheres americanas em 2017.

Foto: Amr Abdallah Dalsh/Reuters
Muçulmanos tocam a Caaba e rezam em volta dela em Meca
 

Milhares de muçulmanas aderiram à hashtag e tuitaram histórias semelhantes à de Khan em inglês, turco, persa e outros idiomas. O assédio na aglomeração da jornada sagrada se mostrou um fato comum a muitas. “As mulheres não estão seguras em nenhum lugar”, comentou uma mulher chamada Shireen Ajmal na denúncia inaugural de Sabica Khan.

Por que agora

Eltahawy vem falando publicamente sobre esse tipo de assédio há alguns anos. Ela relata ter sido assediada na década de 1980, ainda adolescente, na cidade sagrada. Levou mais de três décadas para contar sua história, registrada no livro de sua autoria “Headscarves and Hymens: Why the Middle East Needs a Sexual Revolution” (“Véus e Hímens: Por que o Oriente Médio precisa de uma Revolução Sexual”), de 2015, inédito no Brasil.

Segundo ela, foi desencorajada por homens e mulheres da comunidade muçulmana quando começou a compartilhar seu relato de violência e a se posicionar contra a conduta de assediadores no contexto dos rituais religiosos.

“É difícil avaliar o alcance do problema porque com o tabu e a vergonha que acompanham os abusos sexuais vem também o fato de ter acontecido no lugar mais sagrado do Islã, o que aumenta a pressão sobre as mulheres para que fiquem em silêncio”, disse Eltahawy em entrevista ao El País.

“Como todas as mulheres, as muçulmanas sofrem assédio. Mas, quando ele acontece em um contexto religioso, pede-se que elas se calem por uma causa maior. É ao mesmo tempo injusto e opressor.”

Aisha Sarwari

Articulista do The Guardian, no Twitter

Para Eltahawy, a questão coloca as muçulmanas em um beco sem saída. “De um lado, a comunidade [islâmica] nos pede que fiquemos em silêncio; e, se denunciamos, armamos a direita racista e islamofóbica”, disse.

A eclosão de relatos de assédio por parte de mulheres muçulmanas nesse momento se deve, em parte, ao eco midiático global da campanha #MeToo.

O movimento contagiou “mulheres ao redor do mundo, das mais diversas religiões, profissões, idades e nacionalidades” a quebrarem “o silêncio e a omissão que alimentam a impunidade nos casos de assédio sexual”, disse a professora e pesquisadora Cila Lima em entrevista ao Nexo. Lima é doutora em História Social pela USP e autora dos livros “Women and Islamism: the cases of Egypt and Turkey” e “Feminismo islâmico: mediações discursivas e limites práticos”.

Embora as denúncias sob a campanha #MosqueMeToo se refiram mais especificamente a ambientes religiosos, a professora chama atenção para o fato de que feministas no Marrocos e no Egito, por exemplo, de abordagem secular ou islâmica, “vêm há muito anos denunciando os assédios sofridos por mulheres nas ruas, nas praças públicas, nos serviços públicos e em todos os âmbitos dessas sociedades”.

Lima aponta o crescimento de movimentos de mulheres que procuram unir sua fé à reivindicação de direitos. Ela cita grupos de feministas teológicas praticantes de religiões evangélicas nos Estados Unidos Católicas pelo Direito de Decidir no Brasil e o recente movimento do feminismo islâmico.

O que significa

A hashtag “quebra o silêncio dentro desse âmbito dos contextos espaciais religiosos islâmicos, em que se acreditaria que tudo é radicalmente sagrado”, disse Cila Lima.

Para ela, as denúncias dão maior liberdade para que mulheres muçulmanas exerçam sua fé com segurança, uma vez que a partir delas “é possível ter a sensação de que se algo acontecer elas poderão relatar publicamente e contar com apoios diversos”. 

Poderão, inclusive, defender-se individualmente, como foi feito em uma campanha da década de 1980 na Turquia, lembrada por Lima, na qual agulhas foram entregues às mulheres para serem usadas como arma contra assediadores sexuais no transporte público.

Segundo Lima, o feminismo islâmico tem pregado que há saída para esse tipo de problema, sem que mulheres tenham que abdicar da prática religiosa para defender ideais feministas. 

“A saída para elas, mulheres muçulmanas, é a denúncia feminista dentro do paradigma islâmico. São denúncias feitas pelas mais diversas ONGs feministas islâmicas. Denúncias feitas pelas inúmeras publicações de livros de feministas islâmicas reinterpretando as fontes religiosas do Islã, no sentido de revelar direitos emancipatórios nessas fontes e de desconstruir toda uma narrativa misógina e patriarcal sobre o papel da mulher muçulmana na sociedade”, disse. 

"Você imagina o poder do Imã [pregador do culto islâmico] da Grande Mesquita de Meca, que é basicamente ouvido por todo o mundo muçulmano? Se ele subisse ao púlpito em Meca e desse um sermão sobre o assédio e o abuso sexuais em Meca durante o Hadj, você consegue imaginar o quão poderosa seria essa mensagem?"

Mona Eltahawy

Em um vídeo para a emissora alemã Deutsche Welle

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