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A trajetória de Tarsila do Amaral, artista que ganha exposição no MoMA

Obras da artista ‘sintetizaram plataforma de uma geração’ e são apresentadas individualmente pela primeira vez nos EUA

Temas
Foto: Reprodução
'Morro da Favela', obra de Tarsila do Amaral de 1924
 

Pintora e desenhista, Tarsila do Amaral (1886-1973) contribuiu para “inventar” o modernismo brasileiro. É o que diz o título da primeira exposição individual da artista nos Estados Unidos – “Tarsila do Amaral: Inventing Modern Art in Brazil” (Tarsila do Amaral: inventando a arte moderna no Brasil, em tradução livre).

A mostra, focada na produção da artista ao longo dos anos 1920, chega ao MoMA, o Museu de Arte Moderna de Nova York, em 11 de fevereiro e vai até 3 de junho. Exibe mais de cem trabalhos, levando pinturas, desenhos, cadernos de rascunho da artista e documentos, que já passaram, entre outubro de 2017 e janeiro de 2018, pelo Instituto de Arte de Chicago.

A trajetória da artista

Nascida em Capivari (SP), descendente da aristocracia cafeeira, Tarsila teve aulas de escultura, desenho e pintura em São Paulo. Em 1920, foi dar continuidade à sua formação em Paris e retornou dois meses após a realização da Semana de Arte Moderna de 22, em São Paulo.

Tarsila retornou ao Brasil para “descobrir o modernismo”, segundo a biografia “Tarsila: sua obra e seu tempo”, da crítica Aracy Amaral. Conheceu Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Menotti del Picchia e fundou, com eles e Anita Malfatti (que já conhecia), o Grupo dos Cinco, núcleo que tomou a frente na defesa da existência de um modernismo brasileiro.

Em contato com o grupo, a pintora “metabolizou” o aprendizado europeu e passou a pintar “com cores mais ousadas e pinceladas mais marcadas”, segundo o verbete sobre a artista na Enciclopédia Itaú Cultural. Em nova viagem a Paris em 1923, voltou a ter aulas, mas com interesse direcionado às técnicas modernas.

Foto: Wikimedia Commons
Tarsila em 1925
 

Nesse período sua pintura se filia ao cubismo, mas ela já se interessava pelos temas nacionais em pinturas como “A Negra” (1923) e “A Caipirinha” (1923).

Ainda em Paris, iniciou sua fase pau-brasil, em que se dedicou inteiramente à temática nacional. Dela faz parte a famosa obra “Abaporu” (1928). Na década seguinte, influenciada por uma viagem à União Soviética feita em 1933, a obra de Tarsila viveu um novo momento, voltado para temas sociais, no qual pinta “Operários” (1933).

Uma retrospectiva da artista realizada em São Paulo e no Rio de Janeiro, em 1969, contribuiu para consolidar a contribuição de Tarsila, ainda viva, para a arte brasileira. “Tarsila: 50 Anos de Pintura” foi organizada pela crítica e biógrafa Aracy Amaral, e apresentada no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo.

“No começo da década de 1960 foi quando começou a valorização dos modernistas, e isso impulsionado pelos leilões em prol do Hospital [Albert] Einstein. Havia leilões para a construção desse hospital no Museu de Arte de São Paulo. Compareciam críticos de arte, que diziam umas palavrinhas sobre o artista, e aí se leiloava. Foi quando se começou a vender Ismael Nery, Di Cavalcanti, Tarsila, Anita… Até então a maioria das obras estava na casa dos artistas porque a grande estrela era o Portinari, era o homem dos painéis, dos murais, o artista oficial do governo Vargas. Então, fiquei com a ideia de fazer um trabalho sobre Tarsila”

Aracy Amaral

crítica de arte

As mulheres modernistas

Obras da artista, como “A Negra” e “Morro da Favela”, foram capazes de resumir as pretensões do movimento modernista brasileiro ao atualizar as formas e linguagens por meio da figuração de uma temática nacional, segundo a professora da USP e pesquisadora de arte e gênero Ana Paula Simioni. “Vários autores apontam que, sobretudo nos anos 1920, Tarsila conseguiu sintetizar com algumas obras a plataforma de uma geração, isso é muito impressionante”, disse.

Segundo Simioni, mulheres participaram, em equilíbrio com a presença masculina, dos modernismos de diversos países no século 20. Na vanguarda russa, essa igualdade figurou de maneira mais radical, comparável somente, para a professora, ao status de Tarsila e Anita no modernismo brasileiro, consideradas líderes por seus pares, como Mário de Andrade. Modernistas mexicanas, como Frida Kahlo e Maria Izquierdo, só passaram a ser reconhecidas a partir da segunda metade do século 20.

Em entrevista ao Nexo, a pesquisadora criticou o excesso de foco sobre a produção dos anos 1920 de Tarsila, presente, inclusive, na exposição do MoMA. Para ela, há poucas chances de ver o conjunto da obra da artista; faltam pesquisas e exposições que tratem de outros períodos de sua produção.

“Nos anos 1950, Tarsila e Anita estão completamente à margem das bienais [de arte]. Tarsila pintou, escreveu e ilustrou todo o tempo. Isso é um problema, a historiografia só olha para a Tarsila dos anos 1920. O que ela fez nos anos 1930, 40 e 50 é muito pouco estudado.”

NOTA DE ESCLARECIMENTO: A primeira versão deste texto não mencionava que a exposição individual de Tarsila já havia passado pelo Instituto de Arte de Chicago. A informação foi acrescentada às 16h01 do dia 14 de fevereiro de 2018.

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