O sucesso de MC Loma. E o movimento brega-funk de Recife

‘Envolvimento’ chega ao topo da lista de músicas mais ouvidas no Brasil; hit do carnaval representa estilo que nasceu na periferia da capital pernambucana

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    Um dos maiores sucessos do Brasil do começo de 2018 já vem cheio de carimbos: Felipe Neto, Anitta e Wesley Safadão estão entre seus apoiadores. Com isso, “Envolvimento”, de MC Loma e as Gêmeas Lacração, de Recife, vai saltando de milhão em milhão em número de visualizações no YouTube e plays no Spotify. No dia 15 de fevereiro, a canção se tornou a mais ouvida no Brasil no Spotify.

    Lançada no YouTube em 20 de janeiro, a faixa de brega-funk já havia chegado ao primeiro lugar da lista “As 50 virais do Mundo”, do Spotify, que agrega músicas de forte crescimento no serviço de streaming e inclui artistas de todo o mundo. MC Loma, assim, ultrapassou artistas americanos como Justin Timberlake, Drake e Kendrick Lamar.

    No dia 4 de fevereiro de 2018, MC Loma, de 15 anos, subiu ao palco para dançar com Anitta durante o Olinda Beer, uma festa pré-carnaval, ao lado das irmãs Gêmeas Lacração, Mirella e Mariely. Na sequência, o trio foi a São Paulo para regravar o clipe de “Envolvimento” com a produtora de funk Kondzilla, principal referência do gênero na cidade.

    O clipe de “Envolvimento” traz referências e expressões características de Recife. Na abertura do vídeo, ela solta um “visse?”, que tem o sentido de “viu?”, “entendeu?”. Quando Loma fala em “escama só de peixe” ela dá um recado para os meninos “escamosos”, ou seja, malandros e não confiáveis. “E ae DG!” é uma referência ao DJ DG, de Recife, que produziu alguns hits do brega-funk (mas não a faixa de MC Loma, que teve produção caseira).

    A música de MC Loma, um dos hits do Carnaval de 2018, deve ajudar ainda mais a projetar nacionalmente o brega-funk, gênero surgido em Recife e que começa a chegar a outras regiões do país.

    O que é o brega-funk

    “Dizem que frevo é cultura. Mas se um turista chegar ao Recife, não vai ouvir frevo, que só toca no carnaval. Vai ouvir brega, brega-funk, então isso é cultura também”, definiu Hugo Allyson, o MC Cego, pioneiro do estilo, em entrevista ao Diário de Pernambuco.

     

    O brega-funk nasceu entre 2010 e 2011 e representa a junção do funk com a música brega, que vem se desenvolvendo há décadas na capital pernambucana. Inicialmente, o termo brega era usado para a música romântica de artistas como Reginaldo Rossi, mas da década de 1990 em diante, algumas músicas passaram a contar com sintetizadores e batidas eletrônicas.

    “Programas de auditório dos anos 2000 impulsionaram a época de ouro de bandas de brega”, explicou ao Nexo o jornalista GG Albuquerque, de Recife. “Foram surgindo sonoridades mais eletrônicas, e influências do tecnomelody, um pouco de arrocha.”

    “O brega-funk vem do mesmo contexto social e até estético do brega romântico, música de periferia, mas com linguagem e referências do hip hop, MCs e ritmo acelerado”, disse Albuquerque.

    No vídeo abaixo, o produtor Dany Bala, o mais famoso do brega-funk, explica seu processo de criação. Aos 1:44 do vídeo, ele descreve os elementos musicais que caracterizam o estilo.

     

    Expansão do gênero

    No começo, predominava nas letras o que os artistas chamam de “putaria”, referências explícitas a sexo e palavrões. Mas, com a popularização, o conteúdo das letras vem mudando. Muitas delas foram pelo caminho da “ostentação”, de falar sobre símbolos de riqueza e consumo.

    “A partir de 2016 o brega-funk foi se podando, percebeu as controvérsias e que precisaria negociar suas letras para se expandir”, explicou Albuquerque. Ainda em 2015, o MC Cego deixou de usar o termo “novinha” em suas músicas.

    Segundo uma história, um MC local teria resolvido abrandar as letras depois de perceber que sua influência havia crescido a tal ponto que suas músicas explícitas estavam sendo cantadas por crianças.

    O estilo hoje também é consumido pela classe média e virou objeto de estudo na academia. Um exemplo é a tese de doutorado “Tudo junto e misturado: violência, sexualidade e muito mais nos significados do funk pernambucano”, da professora e pesquisadora Jaciara Gomes, do Programa de Pós-graduação em Direitos Humanos da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco).

    Na periferia de Recife, a dominação é ampla. Depois de uma relação inicial complicada, o brega-funk agora tem uma coexistência pacífica, e até colaborativa, com o brega mais tradicional. Eventos trazem artistas das duas vertentes.

    “É como se, antes, os rapazes da periferia só ‘subissem na vida’ jogando futebol, virando craques. Ser um MC de sucesso é uma nova oportunidade”, avalia o pesquisador Jeder Janotti Jr., da Pós-Graduação em Comunicação da UFPE, em entrevista ao Diário de Pernambuco.

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