Ir direto ao conteúdo

Por que Elon Musk lançou um automóvel no espaço sideral

SpaceX, a empresa espacial do bilionário sul-africano, pretende levar humanos a Marte, mas precisa antes se viabilizar comercialmente

 

Ao som de David Bowie, um carro conversível com um manequim ao volante orbitou ao redor do planeta Terra em 6 de fevereiro de 2018. Enviado ao espaço pelo foguete Falcon Heavy, o inusitado toque midiático foi a coroação de um marco na corrida espacial recente, protagonizada por empresas privadas.

“Aparentemente, tem um carro em órbita em volta da Terra”, tuitou o executivo Elon Musk, presidente da SpaceX, empresa responsável pelo lançamento do Falcon Heavy, e também da Tesla Motors, fabricante do automóvel em questão.

O Falcon Heavy é hoje o foguete mais poderoso da Terra. Na comparação histórica, só perde para o Saturn V, responsável por levar os astronautas à Lua na década de 1960.

Depois de se desvencilhar do automóvel e dos três foguetes de propulsão, o foguete principal seguiu em direção a Marte. Há uma pequena chance de ele se espatifar no solo do planeta vermelho, mas a probabilidade maior é de rumar pelo espaço infinito. Enquanto isso, o carro ficará rotacionando em torno do Sol. Dois dos foguetes de apoio retornaram com precisão à base de Cabo Canaveral, na Flórida.

 

O sucesso do lançamento é um grande passo na direção da meta maior propagandeada pela SpaceX: o envio de seres humanos a Marte. Essa missão ficaria a cargo da próxima geração de foguetes que Musk planeja fabricar, os BFR (Big Falcon Rocket), que devem estar em operação em meados dos anos 2020.

O executivo também disse à imprensa que esperava que o evento estimulasse outras empresas a encarar o cosmos. “Precisamos de uma nova corrida espacial. Corridas são empolgantes”, afirmou.

Elon Musk e os objetivos da Space X

“Talvez o empreendedor mais bem-sucedido e importante do mundo”, disse o jornal americano The New York Times sobre Musk. “O arquiteto do amanhã”, descreveu a edição americana da revista Rolling Stone, em matéria de capa de novembro de 2017.

Formado em física e economia, Musk começou a empreender na época de um curso de pós-graduação. O executivo nasceu em Pretória, na África do Sul, em 1971. Conseguiu a cidadania americana em 2002.

Ele é um raro (talvez único) caso de pessoa que fundou quatro empresas que valem mais de US$ 1 bilhão – a plataforma de pagamentos online PayPal, a fabricante de painéis solares Solar City, a montadora automotiva Tesla e a SpaceX.

Em 2002, Musk vendeu o PayPal para o eBay por US$ 1,5 bilhão. Com o dinheiro, fundou em Hawthorne, na Califórnia, a empresa de transporte espacial SpaceX. Para o empresário, o homem deve olhar para o espaço como saída para uma existência condenada na Terra, conforme explicou a uma plateia de astronautas durante o International Astronautical Congress em Guadalajara, no México, em 2016.

 

Para chegar à meta maior, entretanto, a empresa precisa concretizar objetivos comerciais mais imediatos. Ao realizar um lançamento bem-sucedido e conseguir devolver dois foguetes de apoio com perfeição ao solo, a SpaceX criou melhores condições para lançamentos de satélites mais rápidos e econômicos.

“Se formos bem-sucedidos, é fim de jogo para outros operadores de foguetes pesados”, Musk declarou à imprensa logo antes da decolagem. Segundo ele, foguetes de grande porte até agora eram “descartáveis”, por serem destruídos depois de cumprirem sua missão de levar a carga para o espaço.

Desde 2010, a empresa vem lançando foguetes menores, chamados Falcon 9, em missões que colocam satélites em órbita e levam carga para a tripulação da Estação Espacial Internacional. Até agora, de acordo com o The New York Times, o foguete maior já tem dois clientes confirmados: a Arabsat, uma empresa de comunicações da Arábia Saudita, e a Força Aérea dos Estados Unidos.

 

Alguns analistas apontam que a SpaceX teria de ir além desse tipo de serviço para se viabilizar, realizando, por exemplo, missões planetárias para a NASA, a agência espacial americana. Até agora, de acordo com Musk, foram investidos US$ 500 milhões no projeto.

No dia seguinte ao lançamento, a montadora de Musk, Tesla Motors, anunciou um prejuízo trimestral de US$ 675,4 milhões, em comparação com perdas de US$ 121 milhões no mesmo período no ano anterior. Gastos pesados na próxima geração de modelos elétricos que a empresa pretende produzir tiveram impacto no resultado.

Corrida espacial privada

Além de Musk e sua SpaceX, dois outros bilionários vêm apostando no setor espacial: a Virgin Galactic, do britânico Richard Branson, e a Blue Origin, de Jeff Bezos, fundador da Amazon.

Embora vários países mantenham programas de exploração espacial, entre eles, Rússia, China e Índia, até agora é só nos Estados Unidos que se desenvolve uma versão privada dessa corrida.

A ideia da Blue Origin é levar humanos a voos sub-orbitais, dentro do foguete New Shepard, com uma cápsula para seis passageiros. O foguete já vem sendo testado com sucesso. Em 2016, uma cápsula que seria “ejetada” da nave em caso de algum acidente também passou no teste.

Já a Virgin Galactic quer ser a primeira empresa a fazer voos comerciais de turismo para o espaço. Apesar de um acidente em 2014, com a explosão de uma nave, a empresa logrou uma decolagem bem-sucedida em 2016, com sua SpaceShipTwo.ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto descrevia Starman, o boneco sentado ao volante do SpaceX, como um boneco inflável. Trata-se na realidade de um manequim vestido com uma roupa de astronauta especial. O texto foi alterado às 16h26 de 8 de fevereiro de 2018.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.

Mais recentes

Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!