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Como a internet sonhada por John Barlow deixou de existir

Ativista digital e letrista do Grateful Dead, morto em 6 de fevereiro, acreditava no potencial transformador da rede

     

    Para a vasta maioria das pessoas que irão usar o Facebook ou o WhatsApp hoje, o nome do americano John Perry Barlow provavelmente não significa muita coisa. Ativista digital desde os primórdios da internet pública (e letrista da banda Grateful Dead), Barlow morreu na última terça-feira (6).

    Ele foi uma figura importante na propagação de duas ideias que hoje parecem bastante desvalorizadas: a importância dos direitos civis na rede e a possibilidade de a internet ser uma ferramenta de mobilização cidadã contra as estruturas tradicionais de poder. Barlow sempre se posicionou contra tentativas de vigilância e censura na rede.

    Em dezembro de 1990, o inglês Tim Berners-Lee tornou realidade a “World Wide Web”, o sistema de publicação e acesso a documentos com informações montado em cima da internet. Na estreia, a “rede mundial de computadores” consistia exatamente de “um site e um navegador”, disse Berners-Lee ao jornal britânico The Guardian.

    “Eu realmente acreditava que a internet iria empoderar novos sistemas de organização humana e que iria assumir muitas das funções tradicionais do Estado-nação.”

    John Perry Barlow

    Seis meses antes, Barlow, ao lado do ativista John Gilmore e do empreendedor Mitch Kapor, fundava a EFF (Electronic Frontier Foundation). O trio se preocupava com a movimentação de autoridades policiais americanas que pareciam não entender do que se tratavam as novas formas de comunicação digital.

    Em uma entrevista de 1990, Barlow fala sobre relatos de agentes do FBI entrando em casas de adolescentes no meio da noite que suspeitavam ser “hackers”, apreendendo computadores à procura de uma “prova” de crime que nem sabiam bem definir.

    Ciber-libertários

    Em 1994, Barlow publicou um texto intitulado “Vendendo vinho sem garrafas”, em que citava palavras de 1813 de Thomas Jefferson para defender o potencial transformador da livre circulação de ideias pela internet: “quem recebe uma ideia minha, a recebe sem me tirar nada. As ideias devem fluir livremente no mundo, para a educação e melhoria do homem”.

     

    O otimismo de Barlow era um pensamento disseminado entre os protagonistas da internet e da tecnologia da década de 1990. Em 1997, Nicholas Negroponte, diretor do laboratório de mídia do MIT (Massachusetts Institute of Technology), declarava em uma conferência que a internet iria dissolver fronteiras entre países e promover a paz mundial. “Nossas crianças não vão saber o que é nacionalismo”, proclamou Negroponte.

    No mesmo ano, uma matéria de capa da revista Wired, praticamente um órgão oficial do Vale do Silício, profetizou uma fase prolongada de bonança global na qual a internet tinha papel preponderante ao contribuir para novas e positivas relações sociais, comércio, empresas de mídia, empregos e avanços científicos. “Uma nova indústria da mídia também entrará em cena para tirar vantagem das capacidades únicas da rede, tais como interatividade e customização individual”, explicou a matéria que tinha como chamada de capa “O longo boom”.

    Barlow sempre esteve na linha de frente da defesa do potencial benéfico da internet. Uma medida do governo americano que poderia implicar censura na rede foi atacada por ele com virulência e indignação em 1997, quando escreveu a “Declaração de independência do ciberespaço”.

    “Governos do Mundo Industrial, seus gigantes de carne e aço cansado, eu venho do ciberespaço, o novo lar da Mente. Em nome do futuro, peço a vocês do passado que nos deixem sozinhos. Vocês não são bem-vindos entre nós. Vocês não têm soberania nos locais onde nos reunimos”, declarou na abertura do documento.

    Recentemente, ele comentou em entrevista sobre como sua perspectiva acabou mudando com o tempo: “eu tinha uma visão mais simples das coisas. Realmente acreditava que a internet iria empoderar novos sistemas de organização humana e que iria assumir muitas das funções tradicionais do Estado-nação”.

    Apesar da crescente preocupação com o avanço de corporações e tentativas de autoridades de controlar a rede, a ideia da internet como instrumento de melhoramento e progresso sobreviveu bem até a segunda metade dos 2000.

    O declínio da World Wide Web

    Na mesma entrevista, Barlow declarou que, embora acreditasse que alguma forma de empoderamento popular tenha ocorrido, a internet também assistiu ao desenvolvimento de “instituições maiores que não são Estados-nação, mas que ainda assim são grandes concentrações de poder”.

    Ele se referia a empresas como Google, Apple e Facebook, que hoje têm um acesso e controle sobre informações pessoais sem precedentes. Para ele, o novo cenário significou a realização de um outro potencial da rede, bem menos positivo ao cidadão comum: “A internet é, e sempre foi, a maior ferramenta de vigilância já desenhada”.

    “O caos não é um modelo de negócios. Uma nova geração de chefões de mídia está trazendo ordem — e lucros — para o mundo digital”, disse o jornalista Michael Wolff, em artigo para a Wired em 2010. O texto foi escrito junto com Chris Anderson, autor do livro “A cauda longa”, em que a nova realidade dos aplicativos de celular, inaugurada pelo iPhone, e que mantinha usuários dentro de apenas uma plataforma, sinalizava que a World Wide Web estava “morta”.

     

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