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Como 5 cidades do mundo lidam com a crise hídrica

Na Cidade do Cabo, racionamento severo está previsto quando reservatórios chegarem a nível crítico; outras cidades também enfrentam situações de escassez, incluindo no Brasil

 

Quando o “dia zero” chegar na Cidade do Cabo, África do Sul, moradores terão de fazer fila em locais específicos para conseguir sua ração de água diária. A cota será limitada a 25 litros de água por dia em uma cidade que ficará sem fornecimento de água encanada.

A data do “dia zero”, quando as represas que abastecem a cidade ficarem com menos de 13,5% de sua capacidade, vem mudando ao longo dos últimos meses. No início de fevereiro, a previsão era 11 de maio, um mês de alívio em relação a 24 de janeiro, quando se colocava o “dia zero” como 12 de abril.

A previsão é atualizada levando em conta o consumo atual da população e a expectativa de chuva. Em 1° de fevereiro, a prefeitura da cidade estabeleceu a restrição de 50 litros por dia por habitante (uma ducha de 5 minutos gasta cerca de 45 litros). No site mantido pela administração, com dados da crise, a mensagem permanece otimista: “Juntos, podemos evitar o dia zero”. 

De acordo com Marussia Whately, especialista em saneamento e recursos hídricos, em entrevista ao Nexo, o adiamento da data do “dia zero”, obtido graças ao racionamento imposto à população, “mostrou a importância do esforço individual de economia”.

Para especialista, situação na Cidade do Cabo será 'marco para cidades do século 21'

Outra lição que a metrópole sul-africana ensina, segundo a especialista, é a da diversificação das fontes de abastecimento. Projetos alternativos de abastecimento vêm sendo realizados, ainda que a maioria esteja bem atrasada. Há uma diversidade de soluções em andamento, de iniciativas de dessalinização até reciclagem de água.

Diversas cidades ao redor do mundo, como Cingapura e Barcelona, têm apostado nessa variedade de fontes. Outros locais sofrem com a incerteza por ficarem à mercê da natureza e das chuvas. Para Whately, no Brasil ainda se insiste muito no caminho de ampliar fontes de água, indo buscá-la cada vez mais longe, e de contar com a boa vontade do clima. “As mudanças climáticas requerem um modelo mais circular do manejo da água”, salientou, em referência a modelos que tratam e reutilizam a água em vez de apenas despejá-la de volta no meio ambiente como esgoto, passando o problema para a próxima cidade.

A especialista acredita que o caso da Cidade do Cabo “será um marco para as cidades do século 21”. “Dificilmente se conseguirá ter uma situação organizada, humanizada e solidária”, acredita. “A gente viu em Itu [cidade do interior de São Paulo], recentemente, lugares que ficaram dois meses sem água, começou a ter roubo de água. As pessoas, por exemplo, vão dar prioridade para o idoso pegar a água ou vão pegar para si?”

Abaixo o Nexo analisa cinco casos de cidades que enfrentam situações hídricas delicadas.

Cidade do México: mais fundo e mais longe

A maior aglomeração metropolitana do mundo, que em 60 anos aumentou sua área construída cem vezes e hoje tem 21 milhões de habitantes, está instalada sobre o que antes era uma rede de lagos subterrâneos. A urbanização extinguiu estas fontes de água e fragilizou o solo. A necessidade de escavar cada vez mais fundo para garantir o abastecimento vem piorando a situação: em um século, a cidade afundou cerca de dez metros.

Outra solução tem sido buscar água cada vez mais longe: cerca de 40% da água hoje vêm de fontes distantes. Não há nenhuma operação de reciclagem ou coleta de água pluvial em larga escala. Estima-se que o desperdício devido a desvios e vazamentos chegue a 40%. Cerca de 20% da população, pelo menos, não conta com abastecimento diário de água. Em muitas áreas, o abastecimento é ainda mais escasso e depende de caminhões-pipa.

De acordo com o diretor do sistema de águas da cidade, Ramon Aguirre Diaz, em entrevista ao jornal norte-americano The New York Times, as mudanças climáticas podem trazer secas em maior número e mais extensas. Se a chuva diminuir nas represas que abastecem a capital mexicana, “estamos diante de um desastre”, disse. “Não haverá caminhões-pipa o bastante para lidar com este cenário.”

Brasília: capital escapa por pouco

A capital federal está em racionamento desde janeiro de 2017. A cada seis dias, um é sem água para os moradores do Distrito Federal. Os únicos a escapar são ministérios, palácios, tribunais e outros órgãos públicos federais. Os palácios da Alvorada e do Jaburu, residências oficiais da Presidência e da Vice-Presidência, também não participam do racionamento.

 

Com chuvas abaixo da média, os dois principais reservatórios da cidade viram seus índices baixarem muito: o de Santa Maria chegou a 21,6% e o do Descoberto, o maior, bateu em 5,3%  – um recorde histórico. Moradores de áreas distantes do Plano Piloto, como Brazlândia, a 36 quilômetros do Centro de Brasília, chegaram a ficar uma semana sem água.

O mês de fevereiro trouxe alívio quando, em apenas cinco dias, choveu quase metade do esperado para todo o mês, recuperando os níveis dos reservatórios. Mesmo assim, a agência de água do Distrito Federal, Adasa, manteve o racionamento. Obras de captação importantes demoraram para ser entregues por conta de problemas de corrupção. Um projeto inicial de captação de água do Lago Paranoá teve início em outubro, sendo a primeira obra do tipo inaugurada no Distrito Federal neste século.

Amã: cada vez mais seca

A capital da Jordânia se situa em uma das regiões mais secas do mundo. Em novembro de 2017, os reservatórios da cidade estavam com apenas um quinto da capacidade, um recorde histórico. O Banco Mundial incluiu a Jordânia em um grupo de países que mais devem sentir os efeitos da redução na oferta de água por conta das mudanças climáticas. Uma estimativa aponta que a região pode ter até 30% menos chuva em 2100.

A falta de chuva é apontada como um dos fatores por trás dos problemas na vizinha Síria. O reflexo é sentido na Jordânia: em 2017, o número de refugiados sírios chegando ao país passou dos 700 mil. “Se não agirmos a tempo, estaremos em sérios problemas”, declarou Ali Subah, uma autoridade da água ao jornal Times of Israel.

Dois importantes projetos dependem de colaboração internacional. Uma iniciativa de dessalinização de água do mar Vermelho vem sofrendo atrasos por conta de problemas diplomáticos com Israel. E um plano de transformar o Vale do Rio Jordão em uma área verde até 2050 está atrelado ao estabelecimento da autoridade palestina em área hoje controlada por Israel.

Melbourne: aprendendo com a crise

Entre 1997 e 2009, a segunda maior cidade da Austrália passou pelo que foi chamado de “seca do milênio”. Foi um dos piores períodos de seca já registrados no país. A crise serviu como aprendizado: desde então, a cidade cortou o uso de água por habitante pela metade e instalou projetos de dessalinização e reciclagem, diversificando as fontes de abastecimento.

 

As quatro empresas responsáveis pelo fornecimento de água da cidade se preparam para um novo período de crise. Estudos sugerem que a água pode voltar a ficar escassa dentro de uma década. Na pior das hipóteses, a demanda pode superar o fornecimento até 2028, e na melhor, em 50 anos. Estima-se que a população de Melbourne dobre até 2065.

Uma das propostas em debate é a instalação de registros digitais em imóveis residenciais e comerciais. Os equipamentos ajudariam a detectar vazamentos, além de fornecer informações precisas sobre o consumo. As empresas fornecedoras também estudam fontes alternativas de abastecimento com água de reuso e água de chuva tratada.

Fortaleza: redução do consumo

Em 2017, o estado do Ceará entrou no seu sexto ano consecutivo de seca. No ano anterior, uma tarifa de 20% de contingência foi adotada. Cada consumidor poderia utilizar até 80% da média de consumo de água total da população. Se passasse, pagaria a tarifa. A medida reduziu em 18% o consumo de água na cidade.

Outras ações incluíram a construção de 400 quilômetros de adutoras, perfuração de poços e a reutilização da água de uma estação de tratamento em Pacatuba, na área metropolitana de Fortaleza.

No início de fevereiro, o Ceará registrou chuvas acima da média. A previsão é de precipitação acima da média até abril, de acordo com a Funceme (Fundação Cearense de Meteorologia). O governo do Estado, entretanto, decidiu manter o plano de contingenciamento. “O lema da água hoje é fazer mais com menos. Vamos rezar para Deus que a previsão se concretize”, declarou à imprensa o secretário de Recursos Hídricos do Ceará, Francisco Teixeira.

 

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