Por que mulheres correm maior risco de perderem seus empregos para máquinas

Estudo do Fórum Econômico Mundial mostra que elas ocupam a maioria das vagas que são cortadas com a automação, e têm menor chance de se recolocar

A substituição da mão de obra humana pela automação afeta trabalhadores pelo menos desde a segunda metade do século 20.

O avanço da Inteligência Artificial, cada vez mais presente em dispositivos que usamos cotidianamente, porém, têm dado atualidade renovada ao debate sobre o desemprego gerado pela tecnologia.

Alguns prognósticos a respeito da quantidade de vagas que devem ser extintas por esta razão nos próximos anos foram compilados pelo site MIT Technology Review, ligado ao Instituto de Tecnologia de Massachusetts.

Com o objetivo de “deslocar o debate sobre o futuro do trabalho para um território novo e prático”, o  Fórum Econômico Mundial realizou, em parceria com a empresa Boston Consulting Group, o estudo “Towards a Reskilling Revolution - A Future of Jobs for All” (“Em direção à revolução da requalificação: um futuro do trabalho para todos”, em tradução livre), divulgado em janeiro.

Focado em dados do cenário americano, o relatório projeta estratégias para requalificar e reinserir no mercado de trabalho profissionais tornados “obsoletos”, com a condição de que, idealmente, mantenham ou elevem o nível salarial que já possuíam.

No contexto dos EUA, mulheres são as mais afetadas por essas perturbações na oferta de empregos, de acordo com o estudo. Apesar disso, as transições profissionais causadas pela automação são vistas como uma oportunidade para diminuir as disparidades salariais persistentes entre mulheres e homens.

‘Profissões femininas’

De 1,4 milhões de empregos que devem ser extintos daqui até 2026 nos EUA, segundo prevê a Secretaria de Estatísticas Trabalhistas dos Estados Unidos, 57% são ocupados por mulheres.

Além disso, sem adquirirem novas qualificações ao buscarem uma nova posição, “profissões que são predominantemente femininas e sofrem risco de serem afetadas [nesse processo] contam com apenas 12 opções de transição de emprego, enquanto profissões dominadas por homens que sofrem o mesmo risco têm 22 opções”, mede o estudo -  elas têm quase metade das oportunidades de se recolocarem no mercado nesse contexto, em relação aos homens.

As funções majoritariamente desempenhadas por mulheres mencionadas no relatório são, principalmente, as de secretária e assistente administrativa.

Com a requalificação, mulheres passam a ter 49 oportunidades, enquanto profissões predominantemente masculinas têm 80.

Entretanto, para elas, a transição está associada a um aumento de salário em 74% dos casos, enquanto, para os homens, a nova profissão vem com uma remuneração melhor em apenas 53% das vezes. “Essa tendência aponta para uma possível convergência dos salários de mulheres e homens, entre os grupos que realizam transições de emprego, enfrentando parcialmente a desigualdade salarial atual”, afirma o relatório. 

Mercado nacional

A vulnerabilidade dos postos de trabalho ocupados por mulheres à automação se explica, segundo o diretor da empresa de consultoria People Strategy, João Roncati, ao fato de que, historicamente, mulheres levaram mais tempo para se qualificar e se inserir no mercado de trabalho, atuando em postos que se tornaram facilmente mecanizáveis.

“Essa estratificação social que vem da posição histórica da mulher, que se dedicou à jornada dupla - filhos, casa e trabalho - exigiu dela estar em postos inferiores na pirâmide organizacional, e isso faz com que elas sejam um grupo de impacto maior”, disse Roncati em entrevista ao Nexo.

Roncati é um dos autores do capítulo que trata do “Desafio dos Empregos na Quarta Revolução Industrial” do livro “Automação & Sociedade: Quarta Revolução Industrial, um olhar para o Brasil”, que será lançado no dia 21 de fevereiro, e reúne a produção de autores ligados ao Gaesi, grupo de estudos em Gestão em Automação e TI da Escola Politécnica da USP.

Para ele, no contexto brasileiro, a perspectiva racial, aliada à de gênero, é ainda mais importante ao tratar dos mais afetados pela automação do trabalho.

“É possível pensar que para negros e mulheres haverá um efeito maior. Quando você pensa nas organizações brasileiras, é bem difícil encontrar um negro como gerente sênior, na diretoria ou presidência. Você encontra mais mulheres do que negros”, disse Roncati.

Segundo o diretor, “é muito mais difícil automatizar a posição do presidente da empresa e do diretor comercial, muito mais fácil automatizar a função do atendente de telefonia, na qual você encontra muitas mulheres, e muita gente de minorias étnicas também. Como é o grupo que esteve e está mais alocado em postos de trabalho muito mais operacionais, eles sofrem um efeito imediato maior”.

 O livro sobre a automação no contexto brasileiro não traz apenas más notícias para as trabalhadoras brasileiras. Roncati afirma que, no Brasil, é possível que mulheres tenham uma permanência maior nos postos de trabalho em relação à estatística apresentada pelo Fórum Econômico Mundial uma vez que muitas exercem “atividades socialmente orientadas, como enfermeira, assistente social, ligadas ao cuidado humano, que serão mais difíceis de serem substituídas pela inteligência artificial”, disse. 

Apesar do número de homens em cargos de liderança ainda ser superior ao de mulheres, Roncati chama atenção para o fato de já haver, no Brasil, mais mulheres se formando nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática, que produzem a mecanização.

Quanto à possibilidade de fazer a transição para uma nova carreira, o diretor da People Strategy aponta que “[as mulheres] terão boas possibilidades [de reinserção no mercado] porque se colocam muito bem em análise de dados, construção de cenários, interpretação e construção dos algoritmos para inteligência artificial e assim sucessivamente”.

“Mas, se estratificarmos por idade, vamos ver um impacto muito forte nas pessoas acima de 40 e 50 anos, que têm menos flexibilidade de desenvolvimento pessoal e muito menos velocidade de reinserção. Essa é uma preocupação para o Brasil e para o mundo, porque a gente tem uma curva [demográfica] de envelhecimento acelerado”, acrescentou.

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