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Os pôsteres que contam a história do movimento sufragista das inglesas

Lei britânica que garantiu o direito ao voto a uma parcela da população feminina completa 100 anos. Exposição inédita traz cartazes do começo do século 20

 

Em fevereiro de 2018, a Biblioteca da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, exibe, pela primeira vez, uma seleção de pôsteres que ilustra a luta das mulheres pelo direito ao voto, no início do século 20.

 A mostra celebra o centenário da primeira conquista do movimento sufragista britânico, a lei Representation of the People Act, de 1918. A norma garantiu que uma parcela das mulheres inglesas pudesse ir às urnas em eleições gerais. Até então, todas as mulheres eram proibidas de votar no Reino Unido.

O pacote com o material que integra a exposição chegou à biblioteca por volta de 1910 – época em que os principais grupos do movimento sufragista ganhavam força – mas só foi descoberto em 2016. Endereçada “ao bibliotecário”, a correspondência foi enviada pela líder sufragista Marion Philips. O motivo do envio é desconhecido. Uma das teorias é que ela tenha sido encorajada por C. M. Ridding,  primeira mulher funcionária da instituição e aluna da Girton College, faculdade que é parte da Universidade de Cambridge e, desde 1869, é pioneira na educação de mulheres.

Segundo a universidade, a série está entre as maiores coleções de panfletos conservados do período. “[As peças gráficas] foram criadas para serem coladas nas paredes, arrancadas pelo mau tempo ou por oponentes políticos, então é bastante incomum para esse material estar conservado por mais de cem anos”, explica Chris Burgess, responsável pela exposição.

 

As obras são de autoria de coletivos de homens e mulheres, artistas profissionais e amadores, que trabalhavam apoiando o movimento sufragista. Os grupos produziam cartazes, cartões postais e objetos em cerâmica para distribuir ao redor do país e vender em lojas que apoiavam o sufrágio feminino.

Os pôsteres acompanhavam o que havia de mais inovador nas técnicas gráficas da imprensa da época – a produção de materiais impressos era um dos pontos centrais da campanha sufragista. Imitavam a estética de tabloides sensacionalistas, bem sucedidos em chamar atenção das pessoas. A maioria das peças tem grandes títulos e desenhos ou fotos chamativas em primeiro plano.

A coleção tem conteúdos direcionados a mulheres universitárias e também às que integravam a classe trabalhadora, como funcionárias da indústria têxtil e costureiras. O voto feminino era visto com receio pela maior parte da população, e o movimento tinha de alcançar o maior número de mulheres possível, segundo a historiadora da Universidade de Cambridge Lucy Delap. “A campanha foi mais longe do que a mensagem de igualdade para pontuar como o voto poderia fazer diferença dentro dos lares, no trabalho, nas ruas – questões que preocupam todas as mulheres”, explica no texto de apresentação da mostra.

 

A importância da lei

A lei “Representation of the People Act” representou o primeiro passo em direção à conquista de igualdade de direitos políticos pelas mulheres na Inglaterra. Apenas uma parcela das inglesas teve participação política assegurada pela medida.

O direito ao voto foi garantido a cidadãs com mais de 30 anos, mas a lei apresentava entraves relacionados à condição econômica das mulheres, como a necessidade de ter uma propriedade ou ser casada com um homem detentor de uma. Na prática, 8,5 milhões de britânicas passaram a fazer parte do eleitorado com a aprovação da norma em 1918, o que representava apenas 40% da população feminina do Reino Unido.

A mesma resolução aboliu requisitos relacionados à condição social para o voto masculino e garantiu que todos os homens com mais de 21 anos conquistassem o direito de participar das eleições. Integrantes das forças armadas com 19 anos ou mais também puderam ir às urnas.

 

A trajetória do movimento sufragista

O movimento sufragista começou a ganhar força na Inglaterra na virada do século 19 para o 20, sob a liderança de grupos como The National Union of Women's Suffrage Societies. Fundado em 1897, o coletivo era encabeçado pela inglesa Millicent Fawcett e adotava táticas não violentas de luta pelo direito ao voto, como manifestações pacíficas, petições e encontros públicos. O grupo chegou a ter mais de 50 mil membros.

Outra organização que marcou a luta das mulheres pelo sufrágio na Inglaterra foi a Women's Social and Political Union,  fundada em 1903 por Emmeline Pankhurst, que havia sido membro do grupo sufragista de Manchester. As chamadas “suffragettes” tinham como mote “ações, não palavras” e acreditavam que a única via para conquistar a igualdade de direitos políticos era a militância pautada pela desobediência civil. Muitas de suas integrantes foram presas à época.

Em 1914, o Reino Unido tinha mais de  50 associações sufragistas, e as primeiras eleições inglesas com a participação feminina aconteceram em dezembro de 1918. A conquista do direito ao voto ocorreu ainda durante a Primeira Guerra, quando mulheres participavam mais ativamente da vida social e econômica do país.

 

Cerca de um milhão de mulheres passaram a exercer trabalhos remunerados em decorrência do conflito. Assumiram funções e cargos anteriormente ocupados por homens, em áreas como o transporte e a produção agrícola e passaram a ser mais notadas no espaço público. Trabalhadoras eram encorajadas pelas campanhas sufragistas a lutar por igualdade em pagamentos e condições de trabalho.

Apesar da mudança nos papéis desempenhados pelas inglesas no início do século e de seus esforços durante a guerra, o voto só foi reconhecido no país como um direito universal uma década depois, pela lei “Equal Franchise Act”, de 1928.

Imagens: reprodução autorizada pela Biblioteca da Universidade de Cambridge

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