O serviço que avisa onde tem tiroteio e arrastão no Rio de Janeiro

Com um sistema de dados colaborativo, ele emite alertas por um aplicativo e nas redes sociais sobre regiões onde há problemas de violência em Niterói, na capital e na baixada fluminenses

    No primeiro dia de fevereiro, uma quinta-feira, um vídeo dramático repercutiu nas redes sociais e imprensa. “Pessoal tá saindo do carro, gente. Eu tô no meio de um tiroteio na Cidade de Deus”, ouvia-se de uma voz feminina de acento carioca. O vídeo vinha acompanhado da legenda: “OTT-RJ Informa: Vídeo de agora há pouco na Cidade de Deus. Atenção na região”.

    OTT não é nenhum órgão público de segurança pública carioca ou um veículo de comunicação. A sigla é feita das iniciais para “Onde Tem Tiroteio”, um serviço criado por quatro amigos cariocas em janeiro de 2016 para ajudar a população do Rio de Janeiro – além da capital, o serviço cobre Niterói, Angra dos Reis e a região da Baixada Fluminense – a evitar trechos de confronto entre facções ou entre criminosos e a polícia.

    “Somos só nós, cada um com seu emprego. Um [Marcos Baptista] é professor de física na escola, outro [Benito Quintanilha] é técnico numa plataforma de petróleo, e o outro [Henrique Caamaño] trabalha como técnico de logística”, diz ao Nexo Dennis Coli que, por sua vez, é analista de sistemas.

    Círculo de confiança

    Os amigos tiveram a ideia em dezembro de 2015, após alguns deles passarem por situações de risco como as alertadas pelo serviço. No mês seguinte, o Onde Tem Tiroteio foi criado com perfis no Facebook, Whatsapp, Telegram e outras redes. Em agosto do mesmo ano, o grupo desenvolveu um aplicativo e o serviço decola.

    De modo direto, o OTT passou então a receber mensagens, fotos e vídeos de pessoas que tinham ouvido ou presenciado situações não só de tiroteio, mas de assaltos em massa, chamados de arrastão.

    Logo, o grupo resolveu criar um método e hoje, todas informações são checadas e repassadas por meio dos canais do serviço indicando local, data, horário e descrição da situação. “Continuam os tiros no Complexo da Maré em vários pontos da comunidade. Pedimos que tenham atenção na região e na Linha Vermelha”, dizia um alerta desta terça-feira (10).

    A equipe se alterna em plantões de seis horas para que o OTT não pare de enviar alertas em nenhum momento do dia. “A gente recebe um aviso sobre tiros em um local e joga a informação em um grupo menor que a gente chama de ‘círculo de confiança’, que tem hoje mais ou menos 2,5 mil pessoas”, explica Coli. O “círculo” é composto por moradores de bairros específicos, motoristas de táxi e de aplicativos de transporte como Uber.

    “Se foi tiro na Rocinha, a gente manda no nosso círculo de moradores de Rocinha e eles confirmam ou não e dão mais informações”, diz o analista. Dessa forma, o Onde Tem Tiroteio recebe cerca de 90 alertas por dia, mas só uma média de 15 são confirmados e repassados pelo serviço.

    Para Dennis Coli, o fato de o serviço ser gerido por pessoas comuns, partindo de informações enviadas por pessoas comuns, é o que tem consolidado a confiança no OTT, cujas publicações chegam a quase 5 milhões de pessoas, só no Facebook.

    “A população carioca tem muita carência de informação desse tipo. A gente recebe muito depoimento de gente que estava indo para uma certa região, olhou o aplicativo antes de sair de casa e acabou mudando o trajeto para evitar um confronto ou arrastão. Acabou virando isso, um serviço que as pessoas consultam rotineiramente para andar pela cidade.” 

    Dennis Coli

    Cofundador do Onde Tem Tiroteio

    Tiros e dados

    Foto: Reprodução/OTT
    Mapa do aplicativo Onde Tem Tiroteio informa a localização de alertas de confronto e arrastões
    Locais de confrontos e arrastões podem ser visualizados também em mapa

    Com os dados de alertas informados desde que o serviço passou a funcionar, o OTT montou uma base de dados com tipo de situação por ocorrência, dia, horário e local – pelo aplicativo, o serviço dá acesso apenas às variações mês a mês por tipo de ocorrência (tiroteio e arrastão).

    “A gente tem um nível de detalhe que eu posso dizer o horário que é mais costumeiro ter um tiroteio ou a probabilidade de você passar por um arrastão em determinadas vias em certos dias e horários”, diz Coli.

    Apesar dos dados valiosos sobre, nos termos de Coli, a “guerra urbana” carioca, o serviço nunca foi procurado por nenhum órgão público. “Usando uma expressão meio esdrúxula, seria o poste mijando no cachorro, porque os órgãos de segurança pública é que deveriam ter essas informações”, diz Coli, lembrando que a exceção foram duas delegacias, que procuraram o OTT espontaneamente para confirmar ocorrências e incluir o alerta do serviço em autos de processo.

    Para ele, o serviço tem a vantagem de ser um canal direto com a população, coisa que dificilmente acontece com a polícia. “A verdade é que as pessoas não acreditam mais na segurança pública no Rio de Janeiro, então é difícil para a polícia ter essas informações da própria população.”

    “Infelizmente, o OTT não pode morrer hoje. Mas o objetivo do OTT é ir à falência. O grande objetivo é que a Segurança Pública do Rio de Janeiro pegue nossos dados e trate o problema de forma efetiva, criando uma estratégia baseada em dados, não simplesmente em faca e armas, invadindo comunidades o tempo todo. Dados poderiam ser a maior arma deles.”

    Dennis Coli

    Cofundador do Onde Tem Tiroteio

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