O que é sharp power. E como ele pode minar governos

Teóricos americanos acusam os governos da Rússia e da China de investirem bilhões de dólares numa guerra de desinformação global​

     

    O cientista político americano Joseph Nye, pós-doutor pela Universidade de Harvard, publicou no dia 24 de janeiro um artigo na revista americana Foreign Affairs no qual discutiu a ascensão de uma estratégia de poder empregada pelos governos da China e da Rússia. Essa estratégia foi batizada de sharp power, que pode ser traduzida como “poder afiado, agudo, penetrante, cortante”.

    A expressão não foi inventada por Nye, mas por dois outros teóricos mencionados por ele no artigo: Christopher Walker e Jessica Ludwig, do think-tank (centro de estudos) americano National Endowment for Democracy.

    Nye, hoje com 81 anos, foi o inventor, nos anos 1990, de outro termo semelhante, o soft power – ou, em tradução literal, “poder suave”.

    A expressão sharp power se refere a uma “ameaça real” à democracia no mundo, detectada por Walker e por Ludwig, e reconhecida no artigo de Nye.

    Trata-se de uma estratégia de “guerra de informação conduzida por potências autoritárias de hoje, particularmente pela China e pela Rússia”, países que “gastaram dezenas de bilhões de dólares para moldar as percepções do público e o comportamento [das pessoas] ao redor do mundo” disseminando informação maliciosa em escala global com finalidade política.

    O exemplo mais recente de uso do sharp power ocorreu, diz Nye, nas eleições presidenciais americanas de 2016, vencidas pelo republicano Donald Trump. Durante a campanha, circularam notícias falsas, de autoria atribuída a sites ligados ao governo russo. Essas informações circularam fartamente nas redes sociais, influenciando o debate político em favor de Trump.

    Glossário do poder

    Hard power

    Em português, é literalmente “poder duro”. Diz respeito ao poder de obrigar alguém a fazer algo, normalmente, por “recompensa, coação ou ameaça”, diz Nye. O cientista político usa em seu artigo um exemplo simples: “Se alguém coloca uma arma contra a sua cabeça, não importa o que você quer ou o que você pensa.” Nas relações entre os países pode equivaler a uma invasão, uma ocupação, um golpe de Estado, uma guerra.

    Soft power

    O “poder suave” diz respeito à “habilidade de afetar outros por meio da atração e da persuasão, em vez do ‘hard power’ da coerção e da recompensa. O soft power raramente é suficiente por si só. Mas, quando combinado com hard power, é uma força multiplicada”, diz Nye. Essa estratégia faz uso, por exemplo, de ferramentas culturais para promover um determinado país, como a música, o cinema, o esporte, a língua.

    Sharp power

    O sharp power, dizem os autores, “transfixa, penetra ou perfura o ambiente político e informativo dos países alvejados” e se apresenta como mais uma ferramenta de disputa pelo poder entre as grandes potências, somando-se a outros conceitos anteriores. Ele se baseia em estratégias massivas de desinformação com o intuito deliberado de influenciar politicamente países estrangeiros.

    Uma estratégia antiga, mas renovada

    O sharp power também pode ser definido, segundo o cientista político, como o “uso pérfido da informação para fins hostis”. Para Nye, “é um tipo de hard power”, não de soft power.

    A novidade, diz ele, não está na ferramenta em si – cujo emprego foi comum, por exemplo, na Guerra Fria (1945-1991) –, mas “na velocidade com que essa desinformação se espalha e no baixo custo de fazer com que ela se espalhe” nos dias de hoje, sobretudo por meio das redes sociais.

    Nos anos 1980, a KGB, sigla do serviço secreto soviético, disseminou a informação de que a Aids era um vírus criado pelo governo americano durante experimentos com armas biológicas. O rumor teve início a partir de uma carta anônima enviada a um pequeno jornal da Índia e é, para Nye, um exemplo primitivo do uso do sharp power, em escala analógica.

    Ele diz que há uma linha tênue entre influência e coação. “Pode ser difícil discernir” soft power de sharp power, diz Nye. A distinção, ele sugere, pode estar no “frame”, na moldura que contém a informação.

    Por exemplo: quando a agência oficial de informação da China, Xinhua, transmite seu sinal abertamente num determinado país, trata-se de uma estratégia diplomática de soft power. Porém, quando outro órgão de informação chinês, a China Radio Internacional, fornece conteúdo falso e de forma obscura a estações de rádio de outros países, isso é sharp power.

    No passado, os EUA também cruzaram a linha entre soft e sharp power. Nye cita como exemplos o financiamento americano a partidos anticomunistas ao redor do mundo, durante a Guerra Fria, assim como o apoio da CIA, o serviço secreto americano, à organização anticomunista Congress for Cultural Freedom (Congresso para a Liberdade Cultural), que, no ápice de sua existência, tinha presença ativa em 35 países. Esses são dois exemplos de uso do sharp power pelos EUA.

    Frequentemente, grandes potências são acusadas de influenciar a política local em outros países por meio do fluxo de informação e, mais recentemente, das redes sociais; ou, de maneira mais direta, financiando organizações locais. Essas acusações aparecem em situações tão diferentes quanto a Primavera Árabe de 2011 e os protestos de 2013, no Brasil. Nenhum dos dois assuntos, no entanto, são mencionados no artigo de Nye.

    O que chineses e russos têm a ganhar

    Nye diz que o uso do sharp power pode prejudicar os países alvejados, mas não faz crescer o soft power das nações cujos governos apostam nessa estratégia de desestabilização. Em termos ainda mais simples: o uso de estratégias de sharp power prejudica a imagem de quem recorre às campanhas de desinformação.

    No ranking chamado “Soft Power 30”, que se propõe a medir o soft power dos 30 países mais influentes do mundo, a China aparece na 25ª posição. A Rússia, na 26ª.

    “Países [com governos] autoritários, como a China e a Rússia têm problema de gerar seu próprio soft power precisamente por causa de sua incapacidade de dar liberdade aos vastos talentos presentes em suas sociedades civis”, por isso recorrem ao sharp power.

    Do lado dos países alvejados, Nye alerta que as democracias terão de repensar as ferramentas para responder a esses riscos. Elas devem “assumir postura muito mais assertiva da defesa de seus princípios”, mas não podem responder na mesma moeda, fazendo uso de estratégias semelhantes.

    “A ideia é não competir com o modelo autoritário do sharp power”, diz Nye, mas seguir promovendo o soft power com base em valores democráticos positivos.

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