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Por que a Volkswagen usou macacos em testes de poluição fraudulentos

Caso é o último capítulo de um escândalo iniciado em 2015, quando autoridades americanas descobriram que a empresa adulterava testes de emissões

 

Na terça-feira (30), a Volkswagen demitiu Thomas Steg, o lobista-chefe da empresa, na Alemanha. O movimento ocorre em meio a revelações de que, em 2014, a empresa realizara testes em que macacos foram expostos à fumaça de escapamentos. O objetivo era provar que as novas tecnologias dos motores a diesel eram menos danosas à saúde do que as anteriores.

Além de envolver animais, os testes eram fraudulentos: os veículos enviados pela empresa emitiam níveis especialmente baixos de fumaça quando comparados com aqueles normalmente vendidos. As informações foram publicadas inicialmente pelo jornal americano The New York Times. Na semana seguinte, os jornais alemães Süddeutsche Zeitung e Stuttgarter Zeitung revelaram que testes similares haviam sido conduzidos em humanos.

O ministro da Justiça alemão, Heiko Maas, classificou as informações como “chocantes”. Steffen Seibert, porta-voz da chanceler Angela Merkel, afirmou que os testes são injustificáveis, e exigiu uma investigação completa.

O caso é o último capítulo de um escândalo que eclodiu em 2015, quando se descobriu que o Grupo Volkswagen sistematicamente enganava autoridades regulatórias de diversos países sobre o quão poluentes seus carros a diesel eram.

Naquele ano, reguladores americanos descobriram que a Volkswagen instalara em seus carros um software capaz de identificar quando eles estavam passando por testes de emissão. Apenas nesses momentos, os sistemas de controle de poluentes eram ligados em nível máximo. Quando os carros funcionavam cotidianamente, eles emitiam dezenas de vezes mais poluição.

A empresa foi condenada a pagar multas que somam mais de US$ 24 bilhões pela fraude e sofreu sanções em uma série de países, inclusive no Brasil. Por aqui, no entanto, o impacto da fraude foi menor porque o Brasil proíbe o consumo do diesel em veículos leves (como carros) desde os anos 1970, e a presença de veículos movidos ao combustível é relativamente menor.

Na esteira desse escândalo, descobriu-se que outras empresas, como Volvo, Jeep, Hyundai, Citröen e Fiat realizavam fraudes similares.

 

Como a imagem do diesel piorou

Na década de 1990, grande parte dos países europeus adotou impostos mais baixos para o diesel, em relação aos aplicados para a gasolina. Essa medida era defendida pelas fabricantes de carros como melhor para o meio ambiente, porque a queima desse combustível emitiria menos gases de efeito estufa do que a gasolina - a existência dessa vantagem vem sendo questionada nos últimos anos.

A queima do diesel gera, no entanto, uma quantidade maior de fuligem e óxidos de nitrogênio do que a gasolina, o que contribui para problemas respiratórios e de circulação. Essas pequenas partículas podem se alojar no pulmão ou fluir pela corrente sanguínea, gerando asma, doenças cardiovasculares e acidente vascular cerebral (AVC).

Com o tempo, evidências científicas se consolidaram sobre os efeitos negativos do diesel à saúde. Em 2012, a OMS (Organização Mundial de Saúde) publicou uma resolução classificando as emissões de veículos a diesel como cancerígenas, após um longo período de avaliação que se iniciara em 1988.

Receosas de que a consolidação das evidências sobre os danos do diesel à saúde faria com que os privilégios fiscais sobre o combustível fossem suspensos na Europa, a indústria passou então não só a investir em tecnologias de fato menos poluentes, como a financiar pesquisas que exagerassem a efetividade dessas tecnologias em cortar emissões.

 

As pesquisas com macacos

No dia 25 de janeiro, o jornal americano The New York Times foi o primeiro a revelar a pesquisa fraudulenta com macacos de 2014. A reportagem afirma que obteve as informações em documentos usados em um processo contra a empresa, movimentado por donos de carros a diesel da Volkswagen que buscam reparações de danos pelas fraudes.

As pesquisas teriam sido conduzidas por meio do EUGT (sigla em alemão para Grupo Europeu de Pesquisas sobre Meio Ambiente e Saúde no Setor de Transporte). Dissolvida em 2017, essa entidade tinha como objetivo levantar evidências científicas que relativizavam os efeitos nocivos dos veículos à diesel sobre a saúde e era, por sua vez, financiada não só por Volkswagen, mas pelas também alemãs Daimler e BMW.

Sob o comando da Volkswagen, o grupo contratou nos Estados Unidos o Lovelace Respiratory Research Institute, um centro de pesquisas independente que já havia realizado pesquisas para a EPA (Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos). Ele seria responsável por comparar as emissões de veículos Volkswagen de última geração com uma picape a diesel da Ford de 1999.

Engenheiros da Volkswagen supervisionaram a instalação de esteiras sobre as quais os veículos rodavam, enquanto equipamentos captavam os gases emitidos.

Nos testes, esses gases eram diluídos e direcionados a câmaras contendo dez macacos, que os respiravam por períodos de quatro horas. Para que os animais se mantivessem calmos, os pesquisadores exibiram desenhos animados a eles.

No entanto, os carros possuíam um software capaz de detectar quando testes estavam sendo conduzidos, e fazer com que os carros emitissem uma quantidade particularmente baixa de poluentes. Em ocasiões normais, a emissão era várias vezes maior. Até o momento, não há evidências de que os pesquisadores do Lovelace Institute sabiam da fraude.

Para que a instituição recebesse US$ 71 mil adicionais, ela deveria publicar a pesquisa em um periódico científico. Mas o instituto não chegou a uma conclusão sólida o suficiente para produzir um trabalho publicável.

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