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Como o reflorestamento pode se tornar um negócio lucrativo

Tornar a recuperação de áreas degradadas atraente para o mercado é vista como caminho possível para o Brasil cumprir Acordo de Paris, segundo ONG

 

Com o Acordo de Paris, é intensa a procura por soluções que reduzam as emissões de gases responsáveis pelo aquecimento global. Em 2016, 194 países concordaram em evitar que a temperatura média do planeta suba mais de 2ºC até o fim do século 21. O Brasil se comprometeu com diversos objetivos até 2030, entre eles aumentar a participação de energias renováveis na matriz energética e restaurar e reflorestar 12 milhões de hectares.

Entretanto, números do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) indicam que, entre agosto de 2016 e julho de 2017, 660 mil hectares foram degradados, só na Amazônia Legal. O índice de desmatamento é 16% menor que o registrado no período anterior, e 76% menor em relação a 2004, ano de lançamento do Plano para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia (PPCDAm). Ainda assim, transformar o deficit florestal em superávit será um trabalho gigantesco.

Alardeado como o “maior projeto de reflorestamento da história”, uma ação recente ligada ao Ministério do Meio Ambiente, ao braço ambiental do festival Rock in Rio, ao Instituto Socioambiental (ISA) e ao Banco Mundial, prometeu restaurar 30 mil hectares até 2023. Se bem-sucedido, terá reerguido 4,52% do que foi derrubado na Amazônia, no espaço de um ano.

Um possível caminho para a reconstrução verde é tornar este tipo de empreitada atraente para o mercado, ou seja, mostrar que replantar florestas pode ter bom retorno para empresas e investidores e ser, ao mesmo tempo, sustentável para o planeta.

Retorno de investimento

Este é um dos principais campos de atuação da ONG norte-americana World Resources Institute (WRI, iniciativa de recursos mundiais, em português). Presente em mais de 50 nações, a entidade tem entre seus doadores o Google, as Nações Unidas e governos de países como Holanda, Reino Unido e Dinamarca.

A entidade publicou em dezembro de 2017 o relatório de seu Projeto Verena, em que propõe o reflorestamento com espécies nativas como oportunidade de negócio, por todo o país. Os 12 empreendimentos apresentados pelo relatório comercializam pelo menos 30 tipos de árvores nativas em plantios puros, em conjunto com espécies nativas ou de outros locais e sistemas agroflorestais, em que há integração entre pecuária, agricultura e floresta.

“A ideia é retornar o mais próximo possível do estágio em que se encontrava aquele ambiente antes de ele ser degradado ou convertido para outro uso.”

Alan Batista

Especialista de investimentos do WRI Brasil

As iniciativas incluem A Fazenda da Toca, do empresário Pedro Paulo Diniz, que antes era voltada para produtos orgânicos para o varejo, a Fazenda Jaíba, empresa familiar do norte de Minas Gerais, e uma floresta de cacau mantida pela The Nature Conservancy, uma das mais antigas ONG ambientais americanas e que tem no conselho políticos e empresários.

Segundo Alan Batista, especialista de investimentos do WRI no Brasil, existem opções para investidores de diversos tamanhos, desde o agricultor familiar a uma empresa de grande porte. Em entrevista ao Nexo, o especialista disse que é possível estimar uma taxa de retorno de até 16% em alguns casos. O retorno é obtido por meio da comercialização de produtos como madeira, banana ou café, dependendo do projeto escolhido.

“Fizemos um paralelo com culturas mais tradicionais, as monoculturas, e os números são bastante parecidos”, explicou Batista. Entre as culturas tradicionais estudadas estão banana, cacau, café, limão, pupunha e mandioca, na agricultura, e pinus e eucalipto, na silvicultura (estes últimos com retorno médio de investimento de 13%).

A organização disponibilizou em seu site uma planilha de Excel que permite fazer simulações de investimento nos projetos.

Dificuldades do modelo

À exceção de alguns incentivos tributários locais, não há política pública no Brasil que olhe para a restauração florestal como oportunidade de investimentos, de acordo com Batista.

Para o especialista, entretanto, o principal entrave para a expansão desse modelo seria a falta de investimento em pesquisa e desenvolvimento de espécies nativas de plantas. “Elas ainda são muito selvagens, sem domesticação. Só grandes culturas, no Brasil e fora, tem ganhos de produtividade a cada ano”, pontuou.

A restauração pode ter fins de preservação, mas também pode ter objetivo econômico. Nesse caso, o plantio contemplará espécie ou espécies que serão comercializadas

Mais pesquisas poderiam resultar em cultivos mais eficientes via melhoramento genético, explicou o representante do WRI. Com isso, o preço da restauração florestal cairia, demandando menos capital para investimento. “Esse custo hoje é alto, ficando em cerca de R$ 50 mil por hectare, incluindo todos os aspectos do projeto, da floresta ao administrativo. Então, 1.000 hectares pedem um investimento de R$ 50 milhões”, disse.

Perguntado sobre o possível interesse do agronegócio nesse tipo de projeto, Batista explicou que o setor começou a vê-los com “outros olhos”, aos poucos abandonando a ideia de que estariam mais ligados a uma “cota” de responsabilidade social. “Quem olha ainda é muito o setor de sustentabilidade. Queremos que a área de negócios comece a fazer isso.”

Como se restaura uma floresta

A restauração de uma área degradada pode ser feita de diversas maneiras. O replantio de espécies nativas é uma característica comum entre as abordagens. Dependendo do caso, plantas exóticas (que não são nativas) podem entrar na composição de espécies da área em restauração. A restauração também inclui o manejo da área ao longo do tempo.

“A ideia é retornar o mais próximo possível do estágio em que se encontrava aquele ambiente antes de ele ser degradado ou convertido para outro uso”, afirmou Batista ao Nexo.

A restauração pode ter fins de preservação, mas também pode ter objetivo econômico. Nesse caso, o plantio contemplará espécie ou espécies que serão comercializadas. Entre os modelos possíveis, alguns preveem maior biodiversidade, enquanto outros tendem à monocultura.

Em iniciativa conjunta, o ISA, o Instituto Coruputuba, a Associação Corredor Ecológico do Vale do Paraíba, o Despertar do Gigante e a organização The Nature Conservancy realizam um projeto de restauração com um tipo de semeadura denominado “muvuca de sementes”, em que dezenas de sementes nativas, misturadas a grãos e areia, são lançadas no solo em áreas íngremes, de difícil acesso à mecanização ou ao plantio de mudas. O projeto fica localizado no Vale do Paraíba, no interior de São Paulo.

Em Myanmar, uma startup americana vem usando drones para espalhar sementes em uma área de restauração florestal. Com a tecnologia, até 100 mil árvores podem ser plantadas em um único dia.

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