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Como bombas da 2ª Guerra ainda ameaçam cidades inteiras

Distrito de Hong Kong é evacuado após operários encontrarem explosivo de mais de 70 anos. Pelo menos 82 países correm riscos semelhantes

 

A polícia desativou nesta quinta-feira (1º) uma bomba de 450 kg encontrada por operários que trabalhavam numa obra no distrito financeiro e comercial de Wan Chai, em Hong Kong. Foi a segunda descoberta semelhante num intervalo de quatro dias, no mesmo local.

Historiadores militares dizem que a bomba deve ter sido lançada pela aviação americana em algum momento entre 1941 e 1945, durante a Segunda Guerra Mundial, mas não explodiu. À época, a região, que era colônia britânica, se encontrava sob ocupação das forças do Império Japonês, que ao lado da Itália e da Alemanha compunha as forças do Eixo. Do lado oposto, americanos e britânicos faziam parte de um grande grupo de países chamados Aliados.

O maior ataque aéreo na região ocorreu no dia 16 de janeiro de 1945, quando 471 bombardeiros americanos despejaram 150 toneladas de explosivos sobre Hong Kong, incluindo 13 bombas de 907 kg e 74 de 450 kg.

O explosivo recém-descoberto foi identificado como um AN-M65. Bombas como essa eram lançadas de aviões. Elas têm 1,70 metros de comprimento e quase 50 centímetros de diâmetro. Esse tipo de munição era usada para destruir construções e até mesmo abrigos subterrâneos. Em 1960, os EUA encerraram a produção das AN-M65.

O mecanismo de detonação do artefato estava “severamente danificado”, o que aumentou o risco de uma explosão involuntária. A operação de remoção levou 24 horas e mais de 400 pessoas tiveram de ser retiradas dos prédios ao redor.

Qual a extensão do problema no mundo

Pelo menos 82 países têm em seus territórios “resíduos explosivos de guerra”, com risco de detonação involuntária. A Polônia retirou 100 milhões de resíduos explosivos de seu território. O Laos tem dezenas de milhares de bombas ainda por serem retiradas. Afeganistão, Iraque e Sudão também passam por esse problema.  Em 2005, policiais retiraram uma bomba de 250 kg da Segunda Guerra Mundial que estava no Rio Sena, que corta Paris.

Esses resíduos são conhecidos no meio militar, jurídico e humanitário pela sigla UXO (Unexploded Ordnance), ou resíduos explosivos, em português.

A expressão é usada para se referir tanto a bombas como as que foram encontradas em Hong Kong quanto a outros tipos de explosivos, tais como peças de artilharia, granadas, morteiros e foguetes disparados, mas não detonados, assim como estoques armazenados e abandonados antes de terem sido empregados.

Minas terrestres e munições do tipo cluster também têm o mesmo efeito. As minas anti-pessoal – que podem ser comparadas genericamente a uma armadilha explosiva que detona com o peso do corpo humano – são proibidas pelo direito internacional desde os anos 1980. A proibição das munições do tipo cluster é mais recente, mas países como o Brasil não aderiram ao tratado que regula o tema e, por isso, o país segue produzindo, estocando e vendendo esse tipo de armamento.

Obrigação de remover é do país que lançou

Desde 2003, há um tratado internacional a respeito dos UXOs. O protocolo requer que cada parte do conflito limpe de explosivos remanescentes de guerra do território que tenha estado sob seu controle, uma vez que as hostilidades terminem. Os países também são obrigados a prover assistência técnica, material e financeira para as operações de limpeza do terreno.

No caso dos explosivos da Segunda Guerra encontrados em países desenvolvidos, as remoções têm sido feitas pelos próprios governos dos países nos quais esses artefatos são encontrados.

A obrigação de que as potências de ocupação removam os explosivos dos países ocupados é um instrumento do protocolo mais aplicado no caso de conflitos recentes, nos quais o país infestado pelos explosivos cobra da potência de ocupação a remoção dos UXOs.

O mesmo protocolo determina a realização de programas de educação para o risco dos explosivos, sobretudo com crianças que vivam em áreas severamente afetadas.

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