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Qual o peso da informalidade na taxa de desemprego em 2017

Dados divulgados pelo IBGE mostram que aumentou a ocupação de baixa qualidade. E diminuiu o número de trabalhadores com carteira assinada

    A taxa média de desocupação no Brasil em 2017 foi 12,7%, segundo dados divulgados nesta quarta-feira pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). O número é o maior já registrado pela Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), que começou a medir o desemprego no país em 2012.

    Pior resultado

     

    Apesar de, em média, ter ficado mais alta, a taxa de desemprego no país recuou nos últimos resultados trimestrais. O pico aconteceu entre janeiro e março, quando 13,7% dos brasileiros que estavam dispostos e procuraram trabalho estavam desocupados. Depois disso, são oito trimestres móveis de quedas consecutivas até chegar em 11,8% no último trimestre.

    A série histórica mostra que, pela sazonalidade, a queda do desemprego durante o ano é relativamente normal. Em 2012, 2013 e 2014 aconteceram movimentos parecidos com o de 2017: desemprego mais alto no início do ano e menor no fim. As exceções foram 2015 e 2016, o auge da recessão brasileira, quando o desemprego aumentou continuamente.

    Trajetória

     

    A taxa de 11,8 % de desempregados entre outubro e dezembro de 2017 é 0,2 ponto percentual menor do que o resultado do mesmo período do ano anterior. Em números absolutos, porém, representam os mesmos 12,3 milhões de pessoas procurando emprego sem encontrar.

    Como é calculada a taxa de desocupação

    A taxa de desocupação é calculada em cima da chamada força de trabalho, e não da população total do país ou do número de pessoas aptas a trabalhar. Uma pessoa que não trabalha e desistiu de procurar não entra na conta. 

    A força de trabalho é formada por quem tem emprego e por quem procura emprego e não consegue. No Brasil, com a ligeira melhora na economia, mais gente passou a procurar emprego no ano.

    No último trimestre de 2017, a soma de ocupados e desocupados era cerca de 102,6 milhões. Isto é, 1,8 milhão a mais que um ano antes. Ou seja, houve um aumento na força de trabalho.

    Na comparação entre os dados, houve um aumento do mesmo tamanho no número de pessoas ocupadas. Ou seja, o número de pessoas que resolveu procurar emprego no período é igual ao número de pessoas que conseguiu uma ocupação entre o fim de 2016 e o fim de 2017.

    1,8 milhão

    aumento da população ocupada em relação a 2016

    O problema, segundo o próprio IBGE, é a qualidade dessa ocupação. A Pnad classifica os ocupados por categoria e assim consegue descobrir com que tipo de trabalho as pessoas estão se virando no Brasil.

    “Existe claramente uma entrada expressiva de pessoas trabalhando principalmente em ocupações voltadas para a informalidade. Não temos ainda recuperação da carteira, não existe qualquer indício disso. Qualidade do emprego gerado, portanto, é questionável”

    Cimar Azeredo

    Coordenador de Trabalho e Rendimento do IBGE

    O aumento da ocupação pelo lado da informalidade vem acompanhado de uma redução no número de empregados do setor privado com carteira assinada. O que aumentou foram as ocupações informais e os negócios por conta própria.

    Caiu

    • Carteira assinada (- 685 mil)

    Subiu

    • sem carteira assinada (598 mil)
    • conta própria (1,1 milhão)
    • empregadores (263 mil)
    • domésticos (262 mil)
    • setor público (222 mil)
    • auxiliar de familiar (116 mil)

    Pela metodologia do IBGE, trabalhador por conta própria é quem trabalha explorando seu próprio empreendimento, sem empregado. O ajudante familiar é aquele que trabalha para parentes sem receber salário.

    As mudanças de 2017

    O gráfico a seguir mostra a evolução do número de trabalhadores com e sem carteira assinada durante o ano de 2017. O gráfico tem duas réguas, com o número de trabalhadores com carteira sendo representado à esquerda e sem carteira à direita. Os eixos têm grandezas diferentes (os valores da esquerda são maiores que da direita), mas medem o mesmo intervalo. Assim, é possível comparar a evolução dos dois dados.

    Formal x informal

     

    Mais gente buscando alternativa

     

    Sobre as mudanças no mercado de trabalho, o Nexo conversou com Fernando de Aquino, integrante do Conselho Federal de Economia.

    Qual a avaliação do mercado de trabalho em 2017?

    Fernando de Aquino Houve uma pequena melhora em relação ao ano de 2016, que foi muito ruim. A taxa de desemprego diminuiu ao longo do ano, mas principalmente pelo setor informal, de uma qualidade pior. O próprio IBGE não vê indício de recuperação do emprego de boa qualidade.

    Depois de uma recessão é normal que a recuperação comece pelo trabalho informal?

    Fernando de Aquino No mercado de trabalho, primeiro a economia tem que melhorar, voltar a produção, para só depois voltar o emprego formal. Antes de contratar o empresário vai preferir pagar hora extra. Existe um delay entre o aumento da produção e do emprego. O informal responde mais rápido. Como não há burocracia, não há custo de admissão e demissão, ele aumenta e reduz mais facilmente.

    Há algum indício de retomada do emprego de qualidade?

    Fernando de Aquino Com um desempenho melhor da economia em 2018, com as empresas sentindo firmeza na recuperação, o emprego formal deve melhorar. Mas não basta aumentar o emprego formal, é preciso garantir uma sustentação do salário, da remuneração.

    As contratações vão aumentar, inclusive no setor formal, mas há dificuldade para sustentar o salário. A reforma trabalhista desregulamenta, simplifica e facilita uma redução de remuneração média - como no trabalho intermitente. Os empresários vão tentar reverter os aumentos de salário acima da produtividade que aconteceram nos últimos anos.

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