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Por que estas entidades criticam o ‘Messenger Kids’ lançado pelo Facebook

Empresa lançou em dezembro nos Estados Unidos um aplicativo voltado especialmente para crianças de 6 a 12 anos

 

Em dezembro de 2017, o Facebook lançou nos Estados Unidos uma versão do aplicativo de troca de mensagens Messenger voltada especificamente para crianças de 6 a 12 anos de idade.

Na época, a megaempresa dona do próprio Facebook e de outras duas das maiores redes sociais do mundo, Instagram e WhatsApp, argumentou que o aplicativo era uma forma de “oficializar” o uso que algumas crianças fazem de redes sociais, mesmo quando essas são impróprias a elas e exigem idade mínima de 13 anos. E que a ferramenta havia sido criada a partir de consultas com especialistas e com a Associação de Pais e Mestres dos Estados Unidos.

Entre outras diferenças, o novo aplicativo tem filtros contra nudez, sexo e violência, não coleta dados pessoais, não distribui publicidade e dá aos pais o poder de determinar quem pode ser incluído na lista de contatos.

Em uma carta conjunta organizada pela Campanha Por Uma Infância Não Comercial e endereçada ao presidente e principal acionista do Facebook, Mark Zuckerberg, grupos americanos representantes de pais, professores, entidades anticonsumismo e entidades de proteção da privacidade afirmam que o melhor que a empresa poderia fazer pelas crianças é se afastar delas.

No início de janeiro, Mark Zuckerberg anunciara que buscaria corrigir os rumos do Facebook, após um ano de 2017 marcado por escândalos políticos e questionamentos sobre seu impacto sobre o bem-estar dos usuários. A carta conjunta afirma que, se a empresa realmente quer fazer um trabalho melhor, ela deveria retirar do mercado o aplicativo focado em crianças.

“Melhorar é deixar as crianças sozinhas e permitir que elas se desenvolvam sem as pressões que vêm com o uso de mídias sociais. Criar nossos filhos na nova era digital em que vivemos já é difícil o suficiente. Nós pedimos que você não use o enorme alcance do Facebook e sua influência para tornar isso ainda mais difícil.”

Carta de entidades ao Facebook

Segundo a carta, mesmo com todos os cuidados especiais, o impacto do aplicativo sobre famílias e sociedade tende a ser negativo, à medida que “normaliza o uso de mídias sociais entre crianças e cria pressão para que elas criem sua primeira conta”.

Para afirmar isso, o documento cita escândalos recentes e uma série de pesquisas que identificaram um efeito negativo da rede social sobre jovens.

O efeito negativo do Facebook, segundo a carta

Notícias falsas

Diversos veículos de mídia afirmam que a proliferação de boatos e links com títulos chamativos e informações sem base na realidade, como a de que o papa Francisco apoiava Trump, ou de que Hillary Clinton estava envolvida com uma rede de aliciamento de crianças, contribuíram para a ascensão do empresário e apresentador de reality show no cenário político e sua eleição. Notícias falsas também tiveram um papel durante o referendo na Grã-Bretanha, que resultou na decisão pela saída do país da União Europeia.

Interferência política

Em outubro de 2017, a empresa admitiu que o governo russo pagara milhares de dólares para promover “conteúdo divisivo” durante as eleições americanas. Quando se somam aqueles alcançados pelo Facebook e pelo Instagram, que é de propriedade da empresa, foram atingidas 146 milhões de pessoas. Entre o material divulgado por esse tipo de post estavam, por exemplo, imagens que comparavam Hillary Clinton ao demônio e a retratavam como inimiga de Jesus Cristo. A empresa, ao lado de Google e Twitter, foi convocada pelo Congresso americano em novembro de 2017 a responder questões sobre a influência russa nas eleições.

Dados íntimos

Em maio de 2017, uma reportagem do jornal The Australian revelou que executivos australianos do Facebook haviam comunicado a anunciantes que a empresa tem a capacidade de detectar jovens que se sentem “inseguros”, “sem valor” e que “precisam de um empurrão na autoconfiança”.

Mal estar

“O uso de redes sociais pelos adolescentes está ligado a taxas maiores de depressão, e adolescentes que gastam uma hora por dia conversando em redes sociais reportam menos satisfação com quase todos os aspectos de suas vidas. Estudantes de oitava série que usam redes sociais por 6 a 9 horas semanais têm chance 47% maior de relatar infelicidade do que os que as usam menos frequentemente.”

Autoimagem prejudicada

“Um estudo com garotas de 10 a 12 anos descobriu que quanto mais elas usavam redes sociais como o Facebook, mais elas tendiam a idealizar a magreza, ter preocupações com seus corpos, e ter recorrido a dietas.”

Sono prejudicado

Uma pesquisa publicada em novembro de 2017 no periódico científico Sleep Medicine indicou que jovens reportaram menos horas de sono em 2005 em comparação com 2009, e afirmou que isso pode estar relacionado ao aumento do uso das redes sociais no período.

Dificuldade de se controlar

“Adolescentes reportam dificuldade em moderar seu próprio uso das redes sociais: 78% verificam seus celulares pelo menos uma hora por dia, e 50% dizem que se sentem viciados em seus celulares. Quase metade dos pais dizem que regular o uso do celular de seus filhos é uma batalha constante.”

 

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