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Por que a Índia tem 63 milhões menos mulheres do que deveria

Relatório de panorama econômico feito pelo próprio governo indiano indica que elementos culturais fazem famílias preferirem filhos homens a mulheres

A Índia tem um grande problema de gênero a ser resolvido. Muitos deles, como o acesso de mulheres à educação, vêm melhorando, mas o quadro completo ainda é preocupante. Sobretudo a preferência das famílias por filhos homens.

A conclusão é descrita pelo próprio governo indiano, por meio de um longo relatório publicado nesta segunda-feira (29), que dá um panorama da situação econômica do país sobre o ano que se inicia.

Um dos capítulos do documento é dedicado inteiramente à preferência das famílias indianas por recém-nascidos homens. Condição que faz com que o país tenha 63 milhões a menos de mulheres do que deveria, na comparação com a população masculina.

O governo aponta que é comum filhos homens receberem melhor alimentação e atenção à saúde que mulheres. Muitas famílias, inclusive, optam por encerrar a gravidez no caso de o bebê ser identificado como mulher -- embora testes de determinação de sexo sejam ilegais no país.

Tais práticas fizeram com que 2 milhões de mulheres “desaparecessem” anualmente das estatísticas do governo. Além disso, o relatório aponta que famílias indianas que conseguem um filho homem tendem a parar de procriar, coisa que não acontece com famílias com filhas mulheres. Por essa razão, o governo calcula haver cerca de 21 milhões de filhas mulheres indesejadas por suas famílias. 

“De alguma forma, uma vez nascidas, as vidas das mulheres estão melhorando, mas a sociedade ainda parece querer menos delas sendo geradas”, diz o relatório.

Fatores culturais

O relatório oficial do governo cita estudos que indicam os fatores culturais que provavelmente levaram o país a essa condição em relação às mulheres. São eles:

  • Patrilocalidade: trata-se de uma convenção social adotada em algumas sociedades na qual, após casados, a mulher é obrigada a morar na casa do marido ou próxima à residência dos sogros, abandonado seu lar e família originais.
  • Patrilinearidade: refere-se a um sistema em que a descendência de uma família se dá pela linha paterna, incluindo a passagem de propriedades e bens. Assim, no caso de uma herança, os direitos a ela são preferencialmente dos filhos homens da família.
  • Dote: na Índia, pais de uma filha prestes a se casar devem pagar dotes ao noivo e sua família para viabilizar o casamento. A prática, aponta o relatório, acaba resultando em gastos extras para quem têm filhas mulheres.

Mais renda, tudo igual

O relatório, intitulado “Gênero e meta-preferência por filhos: o desenvolvimento, por si só,é um antídoto?”, tenta responder se estados mais ricos tendem a demonstrar um quadro melhor quanto às diferenças entre homens e mulheres.

Em poucas palavras, a conclusão é que não. O relatório diz que alguns indicadores relacionados a gênero na Índia acompanham os de renda, o que não acontece com as condições de mulheres no trabalho e com preferência das famílias por filhos homens.

Analisando dados que vão de 1991 a 2011, estados diferentes que mostraram aumento de renda tiveram aumento também da razão entre homens e mulheres. O governo cita Punjab e Haryana, dois dos estados mais ricos do país, essa proporção (entre crianças até 6 anos) chega a ser de 20% a mais de filhos homens.

“Isso realmente mostra que desenvolvimento econômico e altos níveis de educação não são suficientes para promover ou garantir igualdade de gênero. Mesmo tendo um sistema político e legal que já tenha feito de tudo para assegurar direitos para mulheres e garotas, não foi o suficiente.”

Rebecca Reichmann Tavares

Ex-representante da Índia na ONU Mulher, à Al Jazeera

Para o governo indiano, o “desafio” sobre a questão de gênero é “provavelmente milenar” e, por isso, a solução será complexa. “Então todos as partes envolvidas têm responsabilidade coletiva para a sua solução. A Índia deve confrontar essa preferência da sociedade”, afirma o governo no relatório.

De acordo com o censo da Índia de 2011, o país tem um população de 1,2 bilhão de pessoas. Dessas, 623,7 milhões são homens (51,5%) e 586,4 milhões são mulheres (48,5%).

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