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O Datafolha pós-confirmação da condenação de Lula em 5 pontos

Ex-presidente continua à frente da preferência do eleitorado quando seu nome é colocado. Sem ele, poucos atraem mais votos. E brancos e nulos disparam

     

    A primeira pesquisa após a confirmação da condenação de Luiz Inácio Lula da Silva por corrupção e lavagem de dinheiro, em sentença de segunda instância proferida em 24 de janeiro, deixa o cenário eleitoral de 2018 ainda mais incerto.

    O Datafolha foi a campo no início da semana. Nesta quarta-feira (31) os números foram divulgados pelo jornal Folha de S.Paulo. O instituto entrevistou 2.826 eleitores em 174 municípios. A margem de erro é de 2 pontos percentuais para mais ou menos.

    Abaixo, o Nexo destaca cinco pontos centrais do levantamento, registrado no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) sob o número BR 05351/2018.

    Mesmo condenado, Lula lidera

    A decisão do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, em Porto Alegre, de manter a condenação imposta a Lula pelo juiz Sergio Moro no caso do tríplex em Guarujá deixa o ex-presidente inelegível, a partir dos critérios da Lei de Ficha Limpa.

    A defesa de Lula lançará mão de recursos judiciais diversos para tentar assegurar a candidatura do petista, mas a condenação por unanimidade reduz as chances de êxito. Ainda assim, o eleitor se mantém fiel a Lula, segundo o Datafolha.

    Cenário principal com Lula

     

    Lula vem liderando a preferência do eleitorado desde abril de 2016. O desempenho se manteve a despeito da condenação em primeira instância, em julho de 2017, e das outras ações em que é réu na Justiça. A confirmação da condenação em segunda instância, em 24 de janeiro de 2018, também não alterou o desempenho do petista.

    As intenções em Lula variam de 34% a 37%, dependendo do cenário. São índices parecidos aos registrados em dezembro de 2017, quando o petista já havia sido condenado por Moro.

    Desempenho do ex-presidente

     

    O índice daqueles que não votariam no petista de jeito nenhum, mesmo após a confirmação da condenação, ficou em 40%, percentual semelhante ao da sondagem anterior, de dezembro de 2017, quando ficou em 39%. De abril de 2016 (quando assumiu a primeira colocação nas pesquisas) até agora, a rejeição ao petista caiu.

    Quem não vota no petista

     

    Lula vem usando o seu bom desempenho nas sondagens eleitorais também como estratégia de sua defesa na Justiça. Além de defender sua inocência, o petista diz que os processos contra ele têm por objetivo tirá-lo das eleições.

    Mesmo condenado em segunda instância, ele pode tentar o registro da sua candidatura. Se for concedido, conseguiria participar da campanha até uma decisão final do TSE. Essas alternativas são possíveis, do ponto de vista jurídico, mas há contra Lula também o risco de ele ser preso, o que tornaria sua candidatura ainda mais complicada.

    Votos são de Lula, não do PT

    O PT mantém a pré-candidatura de Lula, mas sabe que o ex-presidente pode ficar de fora da disputa. Sem o ex-presidente, a expectativa do partido é que ele atue como cabo eleitoral na campanha. Na pesquisa mais recente, o Datafolha indica que o potencial de transferência dos votos de Lula mudou na comparação com as sondagens anteriores.

    Na pesquisa divulgada em dezembro de 2017, 29% do eleitorado disse que o apoio de Lula o levaria a escolher um candidato “com certeza”. Agora, esse índice oscilou negativamente para 27%. Caiu de 21% para 17% o percentual de quem diz que “talvez” vote em uma indicação do petista. E o índice de quem “não votaria” em um nome apoiado por Lula subiu de 48% para 53%.

    Até o momento, dois nomes do PT são cogitados para substituir Lula: o do ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad e o do ex-governador da Bahia Jaques Wagner. O Datafolha testou somente o nome do ex-governador, que atingiu 2% das intenções nos cenários em que foi citado.

    O principal cenário sem Lula

     

    Bolsonaro não ganha muito apoio

    A partir das pesquisas de abril de 2017, o deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ) foi se consolidando com o segundo colocado nas intenções de voto. Segundo o Datafolha, nos cenários sem Lula, Bolsonaro assume a liderança. Mas, neste momento, a ausência do petista não indica que o deputado seja beneficiado com muito mais apoio.

    Seu percentual de votos continua muito parecido ao verificado nas pesquisas anteriores. O deputado se apresenta como um candidato anti-PT e tem nas críticas ao partido e ao ex-presidente uma importante estratégia eleitoral.

    Desempenho de Bolsonaro

     

    Nos cenários com Lula, a preferência por Bolsonaro varia entre 17% e 18%. Sem o ex-presidente, o percentual fica entre 21% e 22%. E, nas duas simulações de segundo turno em que foi colocado, o deputado sai derrotado – uma por Lula e a outra pela ex-ministra Marina Silva (Rede).

    Ciro e Marina crescem. Brancos e nulos dobram

    Nas simulações em que o ex-presidente não é apresentado como opção aos entrevistados, são beneficiados pela ausência Marina e Ciro, ambos candidatos de partidos identificados mais ao centro e à esquerda no espectro ideológico.

    No cenário em que Marina e Ciro concorrem com Bolsonaro, com o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), e Jaques Wagner (PT), ambos receberiam mais votos do que se Lula estivesse na disputa. O aumento sugere que parte do eleitorado do ex-presidente visualize em Marina e em Ciro possíveis alternativas.

    Comparação de cenários

     

    Quando se comparam as projeções com e sem o ex-presidente, o aumento mais expressivo é o de eleitores que declaram voto em branco, nulo ou em nenhuma das opções apresentadas.

    Esse índice chega a 32% em um dos cenários sem Lula, que também desconsidera Marina, o prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB), o ex-ministro do Supremo Joaquim Barbosa e o apresentador Luciano Huck. Na interpretação do Datafolha, trata-se de um reflexo da crise política por que passa o país.

    “Em nenhum outro levantamento de intenção de voto para presidente já feito pelo instituto em ano eleitoral observou-se uma taxa tão elevada de brasileiros com a pretensão de votar em branco ou anular o voto. É o que acontece quando se exclui o nome de Lula da disputa”

    Mauro Paulino e Alessandro Janoni

    diretores do Datafolha, em artigo para a Folha de S.Paulo

    Pressão sobre Alckmin

    O PSDB, que governou o país com Fernando Henrique Cardoso entre 1995 e 2002 e que polarizou com o PT nas disputas seguintes, ficando em segundo lugar, vai mal nas pesquisas.

    O desempenho do principal nome do partido, o governador paulista, Geraldo Alckmin, mudou pouco, mesmo nos cenários sem Lula, o que tende a ampliar a pressão sobre a sua pré-candidatura.

    Uma ala do PSDB ainda resiste ao governador, considerado pouco competitivo, e defende que Alckmin precisa melhorar nas pesquisas para se consolidar como alternativa viável na disputa.

    O tucano fica em segundo lugar (em situação de empate técnico com Marina e/ou Ciro Gomes) nas simulações sem Lula. E em alguns cenários o percentual de votos diminui quando o nome do apresentador Luciano Huck (sem partido) é colocado. Huck diz que não será candidato, mas ele tem até abril para se filiar a algum partido e até agosto para registrar sua candidatura.

    Conhecido nacionalmente e com baixo índice de rejeição, o apresentador vem sendo sondado por partidos a procura de figuras potencialmente competitivas num momento em que o eleitor se mostra desesperançoso com a política.

    Em seu melhor resultado, Alckmin atinge 11% das intenções de voto. Isso ocorre em dois cenários, ambos sem Lula, sem Marina e sem Huck. Ainda assim, o governador fica em terceiro, atrás de Bolsonaro e Ciro Gomes.

    Desempenho de Alckmin

     

    O PSDB vive uma crise. Transformou-se em alvo da Lava Jato – teve seu presidente licenciado, Aécio Neves, denunciado por corrupção – e titubeou no apoio ao governo Michel Temer, que ajudou a colocar no poder com o impeachment da petista Dilma Rousseff. Agora, tenta manter certa distância de Temer, mas apoia o programa de reformas estruturais do governo.

    Ainda no campo governista, os nomes do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles (PSD), e do presidente da Câmara, deputado Rodrigo Maia (DEM), ficam com 1%, segundo o Datafolha.

     

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