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Como uma foto escancarou a desigualdade de gênero no skate

Campeão masculino de evento brasileiro de skate recebeu prêmio mais de três vezes maior que campeã feminina

    A final do evento de skate Oi Park Jam foi realizada no último domingo (28) em Itajaí, Santa Catarina. Os campeões nas categorias feminina e masculina, Yndiara Asp e Pedro Barros, foram premiados e posaram lado a lado no pódio com seus cheques gigantes.

    Foto: Reprodução
    Yndiara Asp e Pedro Barros, campeões do campeonato Oi Park Jam de 2018
     

    Divulgada pela página do evento no Facebook, a foto exibe os dois competidores sorrindo: Barros segura seu vale-prêmio, no valor de R$ 17 mil. Asp ergue um cheque de R$ 5 mil.

    A foto repercutiu mal nas redes sociais – recebeu muitos comentários negativos na página do Oi Park Jam e foi compartilhada por perfis e páginas ativistas com críticas à disparidade entre os valores, como o Quebrando o Tabu, cujo post pedindo que “encontrassem o erro” na foto alcançou mais de 100 mil curtidas. 

    Frente às críticas, o campeonato de park – modalidade de skate que será disputada, pela primeira vez, nos Jogos Olímpicos de Tóquio, em 2020 – divulgou um posicionamento em que a organização afirma entender “que este é um debate importante para o desenvolvimento do skate no universo feminino”, e justifica a diferença na premiação pelo maior número de competidores profissionais masculinos, o que elevaria o grau de dificuldade, razão apontada para um prêmio maior dado aos homens.

    De acordo com o Oi Park Jam, participaram da competição 23 homens, dentre os quais 22 eram profissionais e apenas um amador, e 10 mulheres, sendo 3 profissionais e 7 amadoras. “O número de praticantes de skate ainda é diferente entre os gêneros e o Oi Park Jam reflete essa realidade”, diz a nota.

    “Para mudar esse quadro, nos esforçamos para garantir que as mulheres tivessem a oportunidade, inédita, de competirem num evento de skate com visibilidade nacional e relevância internacional”, prossegue o posicionamento do campeonato.

    O argumento defendido pela organização é que essa oportunidade estimula a participação das mulheres na cena, permitindo que, em um futuro próximo, haja o mesmo número de homens e mulheres praticantes no campeonato, “o que levará, naturalmente, à equivalência nas premiações”.

    Brasileiras no skate

    Karen Jonz, brasileira tetracampeã mundial de skate, não vê a diferença entre os prêmios com a mesma naturalidade que a organização do Oi Skate Jam.

    Motivada pelo episódio na final em Santa Catarina, a skatista se manifestou no dia 29 em um post em sua página no Facebook.

    “Muitas vezes não percebemos o quão bizarro isso [a diferença nos prêmios] soa, pois eu estou nesse meio desde que skate feminino era uma aberração, a exceção da exceção. Ao ver a comoção que a notícia do valor das premiações provocou, eu percebi que, mesmo que nós tenhamos avançado muito rumo à igualdade, ainda resta MUITO a ser feito”, escreveu Jonz. “Nada disso é normal, e o que nos mata é achar que o mundo é assim.”

    A atleta pontua que, ainda que treinem tanto quanto os homens, vivam o esporte com tanta intensidade e paixão quanto eles e enfrentem as mesmas dificuldades inerentes ao esporte, elas precisam superar outros desafios, ligados especificamente ao fato de serem mulheres.

    “Embora a gente já tenha conseguido avançar bastante na nossa luta, o espaço que nos é dado na mídia ainda é menor, sem falar na nossa participação nas competições - quando ela existe - que é sempre uma incerteza. É esse ecossistema de desigualdade que faz com que muita gente do nosso meio ache que ‘tudo bem’ uma premiação pagar três vezes mais para o campeão masculino”, escreveu.

    Ao lado de outras atletas como Karen Feitosa e Leticia Bufoni, Karen foi uma das responsáveis por dar início a um processo de popularização do skate entre as mulheres no Brasil e de conquista de espaços femininos no esporte, ao longo das últimas duas décadas.

    Em 2000, foi fundada a ABSFE, a Associação Brasileira de Skate Feminino, entidade dedicada a unir as atletas e regulamentar competições e eventos.

    Antes da ABSFE, já extinta, competições femininas não existiam. Meninas como Jonz tinham que se arranjar para participar de torneios masculinos. O primeiro circuito feminino, promovido pela associação e reconhecido pela Confederação Brasileira de Skate, foi realizado em 2005, de acordo com uma reportagem publicada no site do canal de esportes radicais Off, da Globo.

    Aos 20 anos, Yndiara Asp, que compete desde os 15, é considerada uma promessa. “Acho que mulheres têm o direito de receber os mesmos valores dos homens, a gente está fazendo a mesma coisa ali. Vemos que em muitas profissões existe desigualdade de salário, o mundo é machista, e no esporte também tem”, disse a skatista de Florianópolis ao portal UOL Esporte.

    Desigualdade nos prêmios

    Prêmios desiguais para homens e mulheres são uma questão para muitos outros esportes além do skate.

    Em geral, a remuneração desigual passa pelo desinteresse das marcas, do público e das emissoras de TV, que priorizam a transmissão de competições masculinas, gerando um aporte menor de recursos. O impacto dos patrocínios no volume dos prêmios é um fator destacado pela golfista sueca Annika Sörenstam, em uma reportagem da BBC: por terem mais espaço na televisão, modalidades masculinas atraem mais patrocínio.

    Em nível mundial, o tênis foi o primeiro esporte a pagar prêmios equivalentes para homens e mulheres, em 1973. O torneio que deu início à equiparação foi o americano US Open, pressionado pela campanha capitaneada pela tenista Billie Jean King e outras oito tenistas mulheres.

    Dos anos 1970 até 2004, de acordo com a BBC, atletismo, vôlei, skate e outras modalidades também igualaram seus prêmios para os dois gêneros. De 2004 a 2017, mais 12 esportes fizeram o mesmo, incluindo o surf, o squash e todos os campeonatos mundiais de ciclismo. Mas, apesar dos avanços, esportes como o futebol ainda apresentam grandes disparidades, de acordo com um estudo da BBC Sport, encomendado pela ONG Women in Sport e divulgado em junho de 2017.

    Nota de esclarecimento: A primeira versão deste texto não trazia a quantidade exata de competidoras amadoras e profissionais no Oi Park Jam de 2018. A informação foi checada e acrescentada às 11h22 do dia 2 de ferereiro de 2018.

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