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O que é o Cepi, o centro que tenta impedir epidemias antes que elas comecem

Para especialistas, desenvolvimento de nova tecnologia pode ser útil para combater febre amarela e zika

    Em 2014, foi o ebola. Depois, vieram a zika e a chikungunya. Em 2018, é a febre amarela que volta a assustar a população. No centro das ameaças estão doenças que poderiam ser prevenidas por vacinas, mas nem sempre são.

    Para tentar se antecipar ao problema, em vez de tentar descobrir uma solução quando a epidemia já se espalhou, foi criada uma organização chamada Cepi, ou Centro de Inovação para Preparação contra Epidemias. O centro, uma parceria entre organizações públicas, privadas, filantrópicas e da sociedade civil, foi lançado durante o Fórum Econômico Mundial de Davos em 2017 e tem como objetivo estimular, financiar e coordenar a pesquisa para criação de novas vacinas.

    “Se o Cepi existisse antes da epidemia de ebola, as consequências teriam sido diferentes.”

    Jeremy Farrar

    diretor do centro de pesquisa Wellcome Trust, à revista The Atlantic

    Quando não há vacinas para determinadas doenças, isso não se deve unicamente à falta de tecnologia científica. Muitas vezes, a questão é política e econômica. Desenvolver uma nova vacina custa caro (até US$ 1 bilhão ) e os laboratórios farmacêuticos teriam que gastar esse dinheiro antes que haja demanda comercial (ou seja, antes do surto). Além disso, elas costumam atingir países onde mais pessoas vivem perto de animais – países pobres.

    Apesar de o foco inicial do Cepi estar em doenças para as quais ainda não existem vacinas, o centro pode ajudar no desenvolvimento de novas tecnologias que sirvam para imunizar diferentes doenças, como por exemplo a febre amarela. A escassez da vacina, que gerou correria e fila em postos de saúde de São Paulo, está relacionada a fatores econômicos e falta de pesquisa. A vacina da febre amarela usa uma tecnologia antiga e demora a ficar pronta – leva cerca de três meses para ficar pronta e utiliza como substrato o ovo. Além disso, é vendida a um custo baixo, o que gera pouco incentivo comercial para os laboratórios farmacêuticos.

    Como funciona o Cepi

    O Cepi começou a ser idealizado após o fracasso na contenção da epidemia de ebola, que deixou 11 mil pessoas mortas e um prejuízo financeiro de US$ 2,8 bilhões. A epidemia serviu como um chamado à ação. A Universidade Harvard, a Academia Nacional de Medicina e as Nações Unidas criaram grupos para estudar o tema. Com o apoio da Noruega e da Índia, da Fundação Bill & Melinda Gates e outros, a iniciativa foi lançada em 2017.

    “Haverá mais e mais surtos virando grandes epidemias. Com mais mobilidade, pressões populacionais e mudança climática, vamos ver isso com mais frequência.”

    Peter Piot

    diretor da London School of Hygiene and Tropical Medicine, ao NYT

    O Cepi investe prioritariamente em doenças para as quais ainda não há vacina. Com a mudança climática, pressões populacionais e maior mobilidade, espera-se que o número de epidemias aumente, inclusive em áreas antes não atingidas, fora da zona tropical. A ideia é exatamente agir antes que uma epidemia ocorra, e não correr para encontrar vacinas quando ela já está causando danos.

    Os investimentos iniciais serão voltados para três doenças: febre de Lassa, endêmica na África ocidental; Nipah, que já provocou surtos na Malásia, Índia e Bangladesh; e Doença Respiratória do Oriente Médio, que circula na região desde 2012. Elas foram escolhidas com base em critérios como falta de investimento para pesquisa, risco de epidemia, problemas causados pela doença e viabilidade de produção de uma vacina. O objetivo é que, até 2021, já haja algumas delas prontas para emergências. Se houver um surto, os testes em animais já terão sido feitos, e a realização de testes em humanos em larga escala já estará aprovada.

    Outra prioridade do centro é conseguir a aprovação para a produção da vacina contra o ebola, que já existe. Ela foi desenvolvida a partir de pesquisas que já estavam sendo feitas por temor de que a doença fosse usada para terrorismo. Mas não foi adiante em testes até que a epidemia teve início. Quando a vacina ficou pronta para testes em larga escala (em menos de seis meses, quando normalmente o processo leva até dez anos), a epidemia já estava chegando ao fim.

    Zika e chikungunya

    Como já há vacinas ou investimento para a criação delas, zika, chikungunya e febre amarela não são uma prioridade inicial. Mas elas também devem ser afetadas por outras iniciativas do centro, como a tentativa de acelerar o processo de aprovação de vacinas.

    Outra ideia é criar uma tecnologia para que uma “base”, o substrato de uma vacina, possa ser adaptada rapidamente para ser usada em um epidemia causada por outra doença (como é feito com a gripe, por exemplo, que é adaptada a cada ano). “Todo mundo concorda que o patógeno que será uma grande preocupação não estará na nossa lista. Mas, com novas tecnologias, esperamos produzir rapidamente vacinas para qualquer patógeno”, disse à The Atlantic Trevor Mundel, da Fundação Bill & Melinda Gates.

    O centro informou ao Nexo que, quando as doenças prioritárias foram escolhidas, o governo americano estava investindo muito em pesquisa de vacinas contra zika. Mesmo assim, se o centro atingir a meta de captação de recursos – o centro já tem US$ 620 milhões da meta de US$ 1 bilhão – zika pode se tornar uma prioridade. Para chikungunya, de acordo com o Cepi, também estão sendo feitos investimentos da iniciativa privada. O centro, no entanto, trabalha com pesquisa sobre a doença, e fará um seminário apenas sobre o assunto em fevereiro.

    O Cepi não vai produzir as vacinas, mas financiar pesquisas e desenvolvimento em farmacêuticas ou centros. Quem trabalhar com o Cepi terá que vender vacinas para países pobres pelo preço mais baixo possível.

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