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O que é a fórmula eleitoral 70/70 que Vladimir Putin busca na Rússia

Contra pecha de autocrata, presidente russo busca atingir patamares altos de participação e de votos nas eleições de março de 2018

    O presidente Vladimir Putin buscará nas eleições de 18 de março de 2018 um novo mandato de seis anos à frente da Rússia. Se vencer, será a quarta vez que ocupa o cargo mais importante de uma das maiores potências do mundo.

    As eleições ocorrem sob suspeitas de manipulação e de cerceamento dos concorrentes do atual presidente russo. O clima de desconfiança do eleitorado, de países estrangeiros e de organizações que monitoram a democracia no país fazem da disputa um jogo de cartas marcadas, no qual Putin tem a hegemonia garantida.

    Mesmo assim, a realização de eleições periódicas é uma das preocupações do líder que já acumula 18 anos consecutivos no poder, entre os cargos de presidente e de primeiro-ministro.

    Uma geração que só conhece Putin

    A carreira política de Putin começou a decolar no ano 2000, quando pulou de primeiro-ministro para presidente da Rússia, depois que o então presidente, Boris Yeltsin, político que havia começado a se apresentar bêbado em público, renunciou.

    Meses depois, Putin disputou e venceu sua primeira eleição presidencial e acabou reeleito em seguida para o mesmo cargo (2004-2008).

    Quando acabou seu segundo mandato eletivo presidencial seguido, em 2008, Putin voltou ao cargo de primeiro-ministro, enquanto manteve na Presidência um apadrinhado próximo e apagado, Dimitri Medvedev.

    Na eleição de 2012, Putin voltou à Presidência da Rússia, trocando de lugar com seu afilhado político. O mandato presidencial, que, até 2008 era de quatro anos, pulou para seis anos, e Putin se manteve, assim, até 2018 no cargo.

    Se vencer as eleições de março e cumprir seu mandato, ele somará 25 anos no poder, entre os cargos de primeiro-ministro e de presidente.

    Democracia minada

    O jornal americano The New York Times diz que Putin está “basicamente competindo contra si mesmo”, tamanha a vantagem que mantém no pobre cenário político russo.

    Porém, “não é apenas a vitória que importa, mas a qualidade dessa vitória”, explicou ao jornal Valery Fedorov, diretor-geral do Centro Russo de Pesquisa de Opinião Pública, entidade estatal.

    A ideia de Putin é conseguir uma ampla margem de vantagem, assim como um grande comparecimento nas urnas, para impedir contestações nas ruas, como ocorreu em 2012.

    A questão, para ele, é como manter o ânimo dos eleitores em participar de um processo eleitoral que o próprio governo ataca e desprestigia a todo tempo.

    “Os eleitores russos estão cada vez menos interessados em votar, uma vez que todas as manifestações de vitalidade foram retiradas do processo. Eleições livres, assim como uma imprensa livre, partidos políticos livres e outros marcos da democracia foram gradualmente eliminados ou severamente restringidos”

    Neil MacFarquhar

    Chefe do escritório do jornal americano The New York Times em Moscou, em 25 de janeiro de 2018

    A matemática da política russa

    Putin busca a fórmula chamada pela imprensa russa de 70/70, com 70% de comparecimento nas urnas e 70% dos votos para si.

    Nas eleições parlamentares de setembro de 2016, o comparecimento foi de 48%. Na última eleição presidencial da Rússia, em 2012, vencida por Putin, o comparecimento foi de 65% e a votação dele foi de 64%. A projeção para março de 2018 é de que o comparecimento não se afaste muito dos 55% e a votação de Putin fique ao redor dos 60%.

    Principal concorrente está impedido

    “Alguns coadjuvantes foram autorizados a aparecer, como figurantes no fundo do palco”, disse D. Gudkov, diretor do Levada Center, um instituto privado de pesquisas da Rússia. Nenhum desses “coadjuvantes” chega a dois dígitos nas pesquisas de intenção de voto.

    O prazo para registro das candidaturas se encerra em 31 de janeiro de 2018. O único concorrente minimamente ameaçador para Putin seria o ativista Alexei A. Navalny, que faz uma oposição ativa, forte e aberta contra o atual presidente, mas ele está proibido de concorrer desde dezembro de 2017. A Justiça mandou fechar a organização que financiava os escritórios de campanha de Navalny e adotou uma série de outras medidas restritivas contra ele.

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