Como é a iniciativa que quer medir a ‘pegada criativa’ das cidades

Iniciado em Berlim, projeto quer usar dados sobre espaços culturais para influenciar políticas públicas

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    A fama de Berlim como centro de festas e clubes da música eletrônica, com suas baladas que funcionam por dias, é mundial. Instituições da noite local como o clube Berghain, famoso por seu exigente processo de entrada, já viraram lenda. De acordo com dados do escritório de turismo da cidade, 35% dos turistas visitam a cidade por causa da sua vida noturna.

    “Berlim não é uma cidade particularmente atraente por motivos históricos, então as pessoas vêm muito pela noite mesmo”, explicou ao Nexo, por telefone, Lutz Leichsenring. Ele desenvolveu um projeto cujo objetivo é mensurar a criatividade de uma cidade, ou, como ele prefere chamar, sua “pegada criativa”.

    Formado em administração de eventos, Leichsenring se tornou porta-voz da Clubcommission, associação de produtores de eventos culturais, clubes, festas e festivais da cidade, fundado em 2001. O objetivo da entidade é “criar as bases para a preservação, desenvolvimento e futuro da cena de Berlim”, unificando a interação com o poder público e a iniciativa privada.

    Com o tempo, Leichsenring sentiu necessidade de gerar dados para argumentar com políticos e empreendedores imobiliários sobre a importância da cultura e da noite para a cidade, que passa por processo de gentrificação em diversos bairros. “Só podíamos discutir localmente, sobre uma casa noturna específica, uma área específica, mas não sobre a cidade como um todo”, afirmou.

    O que a pegada criativa mede

    Embora o projeto pretenda no futuro abordar diversas expressões culturais, ele se restringiu à música em sua pesquisa inaugural em Berlim. “A música é hoje a expressão mais influente da cidade e a de que temos mais conhecimento”, afirmou Leichsenring, observando que o modelo pode ser aplicado também para artes cênicas, artes visuais e cinema.

    O levantamento procura avaliar locais com base em 15 parâmetros, divididos em três categorias: espaços, conteúdo e infraestrutura. Entre os dados avaliados estão tempo de duração dos eventos e o tamanho dos locais, a prevalência de “música original”, a quantidade de atrações locais ou de fora e ajuda governamental.

    A maneira como os eventos são promovidos fornece informações importantes: “avaliamos se o material de divulgação destaca os nomes dos artistas, ou se fotos de modelos ou ofertas de bebida gratuita são o principal elemento”.

    Os dados são posteriormente processados para produzir uma nota final. Berlim ficou com 8,02, de um total de 10. Diferentes bairros ganham também avaliações, permitindo comparações que podem ser úteis tanto para ativistas urbanos como para o poder público.

    Na capital alemã, apurou o levantamento, há um local para ouvir música para cada 7.000 habitantes. Mais de 43% da programação em geral foi considerada “experimental” ou “quase experimental”. A pesquisa conta com a ajuda de “especialistas”, como jornalistas de música, produtores de eventos e frequentadores da noite para classificar os itens mais subjetivos.

    A natureza da iniciativa é ativista, sem fins lucrativos. “É preciso proteger os espaços culturais”, afirma o texto da apresentação. Para Leichsenring, uma das ideias que fundamenta a pesquisa é de que a existência de espaços acessíveis economicamente possibilitam uma cena criativa. Na outra ponta, de acordo com o produtor, áreas em que o destino é decidido pelo fator econômico tendem a concentrar shopping centers ou empresas, não iniciativas ligadas a artes e cultura.

    A ideia é que os dados ajudem a influenciar políticas públicas que apoiem e fomentem a cultura na cidade. Entre os apoiadores da ideia está Mirik Milan, o célebre “prefeito da noite” de Amsterdã.

    A segunda cidade que vem sendo pesquisada é Nova York. Segundo Leichsenring, houve interesse também na cidade de Sydney, na Austrália. O pesquisador também esteve em São Paulo recentemente para sondar a possibilidade de realizar o projeto na capital paulista.

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