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Quem é a diretora de fotografia indicada ao Oscar. E o que a nomeação representa

Rachel Morrison, que começou a carreira nos anos 2000, é a primeira mulher da história a disputar, pelo filme ‘Mudbound’, o prêmio nesta categoria

     

    Anunciadas na terça-feira (23), as indicações à 90ª edição do Oscar foram marcadas por diversidade, como já havia acontecido em 2017. Nos anos anteriores, a premiação fora largamente criticada pela falta de representatividade e, principalmente, pela ausência de artistas negros entre os indicados.

    Na categoria de melhor roteiro original, há apenas um homem branco este ano. Greta Gerwig é a quinta mulher na história a competir pelo Oscar de melhor direção com “Lady Bird - Hora de Voar” (apenas uma, Kathryn Bigelow, ganhou).

    Jordan Peele, diretor de “Corra!”, também é o quinto homem negro a receber uma indicação na categoria. Nenhuma pessoa negra jamais levou o Oscar de direção e nenhuma diretora negra foi sequer indicada em 90 anos. Atores e atrizes negros, como Octavia Spencer, Mary J. Blidge, Daniel Kaluuya e Denzel Washington também concorrem aos prêmios das categorias de atuação.

    Mas foi talvez na categoria de melhor direção de fotografia que o maior paradigma deste ano foi quebrado. A americana Rachel Morrison é a primeira mulher da história a disputar o Oscar de direção de fotografia pelo filme “Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississippi”. O drama racial baseado no romance homônimo de Hillary Jordan foi dirigido pela cineasta Dee Rees e produzido pela Netflix.

    Trata-se da única categoria mista do prêmio (à exceção dos prêmios exclusivos a homens, como o de melhor ator e de melhor ator coadjuvante) para a qual nenhuma mulher havia sido nomeada até agora. É também a primeira vez que um filme da Netflix é indicado a uma categoria técnica tão significativa.

    Trajetória e ‘assinatura’

    Morrison acaba de finalizar a direção de fotografia de “Pantera Negra”, filme de ação com estreia programada para 2018 que traz o primeiro super-herói negro, de origem africana, a protagonizar um filme.

    “Mudbound” foi seu projeto anterior. A trama se desenrola no sul dos Estados Unidos, na década de 1940, e gira em torno de duas famílias que habitam a mesma propriedade. Uma é negra e a outra, branca. O país, claro, está dividido pelas leis “Jim Crow”, que segregaram espaços para as duas raças até os anos 1960.

    A fotografia de Morrison para o filme “traz o sul americano dos anos 1940 à vida de uma forma tão tátil que você vai jurar poder sentir o calor doce de um verão do Mississippi no seu rosto”, escreve o jornalista Adam Chitwood ao introduzir uma entrevista com a fotógrafa para o site Collider.

    Na entrevista, Morrison afirma que um filme de época é um presente para qualquer diretor de fotografia. Sua participação no projeto também tem um componente político: além da admiração de longa data por Dee Rees, ela disse ter achado o roteiro “incrivelmente oportuno”, de um ponto de vista racial e de gênero, para os EUA de hoje.

     

    Quanto à técnica, por questões de custo, “Mudbound” foi filmado com câmeras digitais. Mas Morrison diz ter buscado alcançar, fosse na filmagem ou na pós-produção, a granulação e textura tátil próprias da filmagem analógica.

    Cores, filtros e tonalidades da imagem são criados pelo trabalho do fotógrafo no cinema. Ele seleciona a luz ou a equipagem de iluminação mais apropriada para cada cena, assim como a melhor câmera, lente, filtro ou negativo, caso seja um filme feito em película. Suas diretrizes técnicas traçam o paradigma tecnológico e estético da imagem de um filme.

    Assim como é desejável, em um vídeo sobre comida, que o espectador “sinta o gosto” do que está vendo - pelo fato de a fotografia criar uma qualidade “tangível” para a imagem - “nesse caso eu queria tentar fazer com que o público sentisse que estava andando na lama, lidando com aqueles elementos e queimando a pele naquele sol”, disse Morrison ao Collider.

    Morrison estreou como diretora de fotografia no início dos anos 2000, em curtas-metragens, documentários e séries de TV. Depois, passou a fotografar para filmes independentes, ganhando maior destaque a partir de “Fruitvale Station: A Última Parada” (2013), drama sobre o último dia na vida de Oscar Grant, jovem negro morto pela polícia em 2009 na Califórnia. Foi o longa de estreia de Ryan Coogler, mesmo diretor de “Pantera Negra”.

    Ela trouxe para o cinema de ficção sua bagagem de fotografia para documentário: frames texturizados, com alta profundidade de campo, que acentuam os traços humanos.

    Dominância masculina

    Entre os diretores de fotografia que trabalharam nos 250 filmes de maior bilheteria nos EUA em 2017, apenas 4% eram mulheres, segundo um estudo recente feito pelo centro de estudos de mulheres na televisão e no cinema, ligado à Universidade Estadual de San Diego.

    A subrepresentação das mulheres na fotografia é mais grave do que em outras funções desempenhadas atrás das câmeras. Uma combinação de fatores explica por que elas são tão pouco contratadas (e reconhecidas) nessa área. Há uma raiz histórica: nos primórdios do cinema, poucas mulheres eram contratadas para a função, principalmente devido ao peso dos equipamentos de então.

    Com os equipamentos mais leves e portáteis de hoje, a tecnologia deixou de ser justificativa. Mas o preconceito se perpetua: como acontece em outras funções, a direção de fotografia é um “clube do Bolinha”, em que os mesmos nomes são chamados para trabalhar e, consequentemente, premiados.

    Apesar da pouca visibilidade, diretoras de fotografia não só existem como têm se organizado nos últimos anos. O coletivo internacional de mulheres diretoras de fotografia colocou no ar em 2016 seu site, que, com profissionais do mundo inteiro cadastradas, tem o propósito de servir como plataforma de busca de fotógrafas por empregadores.

    No cinema brasileiro

    Surgia, na mesma época, o DAFB, o Coletivo das Diretoras de Fotografia do Brasil. O site do coletivo também lista, além de diretoras de fotografia, assistentes de câmera, coloristas, maquinistas e eletricistas atuantes em várias cidades brasileiras.

    No cinema brasileiro, o aspecto que excluía as mulheres da direção de fotografia no início da história do cinema continuou a ser um obstáculo. Marina Person e Laís Bodansky são hoje diretoras, mas ambas ambicionaram, nos anos 1990, seguir carreira na fotografia. O que as fez desistir foi a incumbência do segundo assistente de câmera (função na qual um aspirante a fotógrafo inicia a carreira) de carregar malas pesadas de equipamento.

    “A gente aceitou isso sem entender que é algo machista, uma opressão em relação à mulher. Então você tem que ter músculo para ser fotógrafa? O que sua condição física tem a ver com sua visão de mundo e com seu olhar artístico de composição, de enquadramento e de iluminação?”, disse Bodansky, em entrevista para uma reportagem publicada no site especializado Cine Festivais.

    O fotógrafo trabalha com equipes de elétrica e maquinaria, quase sempre compostas por homens. Na reportagem, jovens diretoras de fotografia relatam a constante desconfiança e condescendência com que são tratadas no set. 

    “Eu era segunda assistente e escutei durante muito tempo os homens da equipe falando ‘vamos ver se a menina aguenta, deixa ela carregar a mala’. Sempre senti que eu e minhas outras companheiras de função precisávamos fazer um pouquinho a mais para podermos ser aceitas no meio”, disse a diretora de fotografia Julia Equi ao Cine Festivais.

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