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Por que temos boas ideias enquanto tomamos banho, segundo a ciência

Uma mente distraída, relaxada e pouco alerta beneficia a criatividade e permite novas associações

     

    A Moen, fabricante americana de torneiras, chuveiros e outras instalações, anunciou no início de janeiro de 2018 o desenvolvimento de um sistema inteligente que irá, em breve, permitir que se ligue o chuveiro e controle a temperatura do banho por comando de voz, com o auxílio dos assistentes virtuais da Amazon, Apple e Google.

    Se o banho inteligente já é quase uma realidade, assistentes digitais como Siri e Alexa poderiam aproveitar o ensejo para registrar as ideias brilhantes que surgem entre se ensaboar e se enxaguar. É afinal durante essa atividade, bem longe do celular ou de papel e caneta, que brota muitas vezes a solução para um problema, a ideia para o argumento de um filme ou a resposta que se gostaria de ter dado a alguém durante uma briga. 

    O Nexo compilou abaixo algumas explicações científicas dadas a esse fenômeno.

    Distração

    O clique que faz uma ideia surgir tem maior probabilidade de acontecer quando se realiza uma atividade no piloto automático. Dessa forma, a mente vagueia e somos capazes de fazer novas associações.

    Em entrevista à revista Time, o professor de psicologia da Universidade de Washington, Keith Sawyer, explicou que, quando somos criativos, o cérebro está usando os mesmos blocos de construção que usamos para pensar o tempo todo. Eles só foram arranjados de outra maneira. Sawyer é autor do livro “Explaining Creativity: The Science of Human Innovation” (Explicando a criatividade: a ciência da inovação humana).

    Não só a banheira, mas a cama ou o ônibus, são lugares e situações propensos a deixar que esse novo arranjo se forme. Isso porque não estar concentrado em nenhuma atividade em particular permite a ativação de áreas do cérebro diferentes das que usamos para resolver um problema.

    Os devaneios relaxam o córtex pré-frontal, região cerebral que é o centro de controle do comportamento, das decisões e objetivos. Também ativam, no resto do cérebro, a rede neural em modo padrão (também chamada de “default mode network”), um estado mental de “repouso” que entra em ação quando o indivíduo não está focado no mundo exterior. Essa configuração cerebral permite a realização de conexões criativas que um cérebro focado teria descartado.

    Relaxamento

    Não basta se desligar do mundo exterior. A diferença entre um banho e uma reunião tediosa, durante a qual também se tende a divagar, é que o primeiro é um ambiente confortável, seguro, e, acima de tudo, relaxante.

    A sensação de prazer que acompanha um banho relaxante é reflexo de uma descarga de dopamina, um neurotransmissor, que atua na função motora do corpo humano e desencadeia os impulsos nervosos que levam à sensação de bem estar e prazer. A substância também estimula a criatividade. As ondas cerebrais alfa, emitidas quando se medita, devaneia ou pratica exercícios aeróbicos, também contribuem. 

    Horário de pico

    A atividade cerebral atinge um ponto ótimo ao longo do dia: esse ápice da performance mental está ligado ao relógio biológico e varia de pessoa para pessoa.

    A pesquisadora Mareike Wieth, professora da universidade privada Albion College, e seus colegas descobriram, no entanto, que o pico de criatividade não coincide com esse ponto ótimo cerebral, o intervalo do dia em que se está mais alerta.

    Em um artigo publicado no jornal científico Thinking and Reasoning, os pesquisadores relatam que voluntários se mostraram muito mais aptos a apresentar soluções criativas e corretas para um problema analítico em horários fora de seu ponto ótimo mental.

    Um banho no início ou no fim do dia, quando mal se está acordado ou cansado demais para se concentrar, torna-se assim ainda mais propício para se ter um “estalo”.

    Bom humor

    Estar bem-humorado pode ser mais um fator a contribuir para os insights de um banho. O aprendizado e a criatividade se beneficiam do bom humor. O estudo “Better Mood and Better Performance”, publicado no jornal acadêmico Psychological Science, mostra que estar de bom humor aumenta a flexibilidade cognitiva, associada ao córtex pré-frontal, capaz de fazer surgir ideias e soluções menos óbvias.

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