Como as esquerdas se reorganizarão se Lula não estiver nas urnas

‘Nexo’ conversou com dois cientistas políticos para saber como o revés do ex-presidente em Porto Alegre mexe com o panorama eleitoral

     

    A decisão do TRF-4 (Tribunal Regional Federal de Porto Alegre), que confirma a sentença condenatória e amplia em quase três anos a pena de prisão que havia sido expedida em julho de 2017 contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, pode obrigar o PT a rever seus planos.

    O ex-presidente lidera com folga as pesquisas de intenção de voto para as eleições de 2018. Porém, a Lei da Ficha Limpa foi criada com a intenção de impedir políticos condenados por decisões colegiadas (mais de um juiz) – como no caso de Lula – de disputar cargos eletivos por um período de oito anos.

    A despeito de todo o debate aberto no meio jurídico sobre as possibilidades de exceções, brechas e recursos que podem até garantir que Lula concorra em outubro, o PT e as esquerdas, de maneira mais ampla, veem crescer o risco de que a candidatura de seu líder mais forte de fato não se concretize.

    Para entender como essas peças se encaixam ou se chocam no cenário de impedimento de Lula, o Nexo fez, por escrito, três perguntas a dois cientistas políticos:

    • Carlos Melo, do Insper (Instituto de Pesquisa e Ensino Superior).
    • Cláudio Couto, da Fundação Getúlio Vargas

    Como a esquerda se organizará para disputar a eleição presidencial de 2018 diante da decisão desfavorável a Lula?

    Carlos Melo Com 3 a 0, Lula está fora. A primeira reação será exigir medidas contra os demais acusados “com foro especial” —  [o presidente Michel] Temer, [o senador tucano] Aécio [Neves] etc. Na evidente impossibilidade disto, virá o discurso de “vitimização de Lula” e uma série de candidatos de esquerda, dentro do PT inclusive, reivindicarão o patrimônio eleitoral do ex-presidente. A disputa no próprio campo estará aberta.

    Cláudio Couto Não creio que a esquerda se organizará de forma unitária, caso a condenação seja confirmada com a consequente inelegibilidade. A questão maior, a meu ver, é como o PT e o próprio Lula se posicionarão. Uma alternativa em linha com a tradição petista, de uma agremiação que se vê como dominante, é a apresentação de um outro nome do próprio partido. Só que não há hoje nomes fortes eleitoralmente no PT, fora Lula. Outra opção é apoiar um nome de fora do partido, mas que mantenha com ele uma boa relação. Neste caso, o nome mais provável me parece, hoje, o de Ciro Gomes – se a aposta for num candidato com chances de vitória. O apoio a outro nome, mais à esquerda, como [o membro da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, Guilherme] Boulos, tenderia a isolar ainda mais o PT e o próprio Lula, mas pode ser a escolha movida pelo ressentimento e pela disposição de radicalizar a reação.

    Qual a capacidade de Lula de transferir votos a um outro nome do PT, caso ele mesmo não dispute a eleição?

    Carlos Melo A “vitimização” será explorada, mobilizando o campo da esquerda e setores mais pobres e carentes da sociedade: “o candidato dos pobres foi impedido de competir”.  Mas o PT não estará só. Mais candidatos reivindicarão esses votos, ao mesmo tempo em que não pouparão o PT por inegáveis erros cometidos. Haverá fragmentação da esquerda e dos votos de Lula. É plausível que o PT perca bastante com isso.

    Lula é maior que o PT, muitos eleitores que votariam no ex-presidente, pelos símbolos que carrega, não votarão necessariamente no PT, que tem muito menos prestígio que seu líder. Pesquisas já apontam que haveria transferência para outros candidatos, não apenas de esquerda.

    A tese da “transferência” de votos precisa ser testada. Não se pode comparar o Lula de hoje com a grande liderança que, em 2010 e 2012, transferiu prestígio à [ex-presidente] Dilma Rousseff e ao [ex-prefeito de São Paulo] Fernando Haddad, respectivamente. Nem mesmo se poderá compará-lo ao Lula de 2014, que entrou em campo na última hora e salvou Dilma de uma derrota para Aécio. Desta vez, Lula carregará um passivo muito grande.

    Cláudio Couto Caso se torne inelegível, Lula pode ainda ser um “grande eleitor”, um cabo eleitoral de peso. O quanto isso irá contar, porém, dependerá de ele estar preso ou não. Se puder fazer campanha abertamente para um candidato que vier a apoiar, percorrendo o país com ele e aparecendo a seu lado, isso certamente terá relevância.

    Contudo, se for preso, mesmo que em prisão domiciliar, seus movimentos ficarão inevitavelmente comprometidos, o que também será prejudicial à sua capacidade de influir no processo eleitoral. A mera declaração de apoio a outro candidato, apenas como uma formalidade, não pesaria tanto, embora possa influenciar um ou outro eleitor. Se o nome for mesmo do PT, a associação é mais fácil – mas pode também ter uma carga negativa, já que o partido, para além da imagem de Lula, está muito chamuscado –, já se o nome for de outro partido, a vinculação do apoio torna-se mais pessoal e menos institucional, ou seja, menos “petista” e mais “lulista”, o que tende a ser benéfico para o eventual apoiado.

    Caso Lula venha a ser preso antes ou durante a campanha eleitoral, que peso esse evento pode ter no comportamento dos eleitores?

    Carlos Melo O drama político aumenta e o discurso da “vitimização” se fortalece. É justo imaginar que a comparação de Lula com Michel Temer, Aécio Neves e demais arrolados pela Lava Jato ecoe no imaginário popular. Casos nos quais as denúncias foram aceitas mas as pessoas se encontram protegidas pelo foro especial — com blindagem do Congresso Nacional e anuência da Justiça — serão questionados. Os eleitores podem vir a perguntar: por que apenas Lula?

    Não estou sugerindo a inocência de Lula — não entro no mérito do processo —, mas penso o quanto será trabalhoso comunicar a eventual prisão de Lula pela propriedade não comprovada tacitamente do tríplex, quando imagens de malas e malas atulhadas de dinheiro mal explicado, além de áudios com frases indiretas e diretas de cumplicidade clara ou presumida, estão na memória.

    Pode-se argumentar que a questão que envolve o ex-presidente não é só esta. Ok, faz sentido. Mas o desafio das autoridades será explicar e fugir às comparações. Determinante será como a média da população compreenderá e o quanto julgará como um processo de pesos e medidas distintas. Isto pressionará os candidatos do campo governista.

    Cláudio Couto Uma eventual prisão de Lula será um evento traumático, considerando sua importância como líder político. A imagem de sua prisão terá efeitos distintos, a depender do setor do eleitorado que se considera. Para uns, será uma desforra histórica e ideológica; para outros, mera aplicação da justiça; para alguns, uma injustiça, mas não um golpe; para outros, uma injustiça e um golpe. A partir daí, cada eleitor poderá se comportar de acordo com sua leitura.

    Os primeiros tendem a optar por aquilo que melhor representar o antipetismo ou antilulismo: pode ser a alternativa neofascista de [Jair] Bolsonaro [deputado federal e pré-candidato à Presidência, segundo colocado nas pesquisas], o estilo tradicional de [Geraldo] Alckmin [governador de São Paulo e também pré-candidato, pelo PSDB] ou as versões novidadeiras do liberalismo econômico antipolítico, como o Novo. Os segundos e terceiros podem se distribuir entre as várias opções em torno do centro, seja mais à esquerda ou à direita, de Ciro e Marina [Silva, da Rede], até o PSDB. Já os últimos tendem a votar no que vier a ser a alternativa oficial a Lula, ou mesmo a anular seu voto. E não se pode descartar o surgimento de alguma novidade, cuja posição perante essas visões determinará seu apoio.

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