Ir direto ao conteúdo

Como a música de Hugh Masekela se posicionou contra o apartheid sul-africano

Artista foi uma das principais vozes de oposição ao regime segregacionista; ouça playlist do Nexo com alguns de seus principais trabalhos

     

    Em 21 de março de 1960, o regime sul-africano do apartheid abriu fogo contra manifestantes em Sharpeville, na periferia de Joanesburgo; 69 pessoas foram mortas em um episódio que marcou a intensificação da brutalidade e da repressão do governo racista que comandou o país até 1994.

    Pouco tempo depois do massacre, o jovem trompetista Hugh Masekela, prestes a completar 21 anos, embarcava em um avião rumo a Londres. O músico só voltaria para sua terra natal quando o líder Nelson Mandela já estava livre da prisão e eleito presidente, na década de 1990.

    A distância e as mais de três décadas não afrouxaram a conexão de Masekela com os problemas e a cultura de seu país. Ao contrário, o músico se tornaria uma das principais vozes de protesto nas artes contra o regime abertamente segregacionista que governou a África do Sul por décadas.

    Masekela morreu em 23 de janeiro de 2018, aos 78 anos. O músico viveu por dez anos com um câncer na próstata. Em sua última entrevista gravada, declarou que era a primeira vez que tinha ficado doente na vida.

    Dono de carreira internacional consolidada, Masekela teve um primeiro lugar nos EUA em 1968 com “Grazing in the grass” e gravou com músicos americanos como Herb Alpert, Harry Belafonte e Paul Simon.

    Jazz subversivo

    Com o pai escultor e a mãe assistente social, Masekela cresceu atento às artes e às injustiças da sociedade sul-africana. Seu primeiro trompete, o instrumento mais associado à sua obra (ele também tocava trombone e flugelhorn), foi dado de presente pelo arcebispo Trevor Huddleston, proeminente figura no combate ao apartheid.

    “Tragam Nelson Mandela de volta Tragam ele de volta para Soweto.Quero ver ele andandoPela rua na África do Sul - Amanhã”

    "Bring Him Back Home (Nelson Mandela)"

    Hugh Masekela

    Quando embarcou para o exílio, Masekela deixava para trás uma bem-sucedida carreira no teatro e na vibrante cena de jazz de seu país. Com o conjunto Jazz Epistles, Masekela gravou o primeiro álbum em formato LP (long-play) da África do Sul, “Jazz Epistle, Verse 1”, em 1960.

    Com o apartheid entrando em seus “anos de chumbo”, a censura se tornava ostensiva e manifestações artísticas eram cada vez mais suprimidas. O jazz, considerado pelo regime racista como uma expressão que promovia a mistura de raças, foi proibido nas rádios e festas, sendo ouvido apenas em eventos secretos.

    “Fui marinado no jazz e temperado com a música de casa”, disse Masekela em uma entrevista de 2009 a uma emissora australiana. Ao longo da carreira,  o músico demonstrou ser capaz de misturar vários ritmos e referências, entre eles disco music, afrobeat, funk e sons eletrônicos.

    Músicas de protesto

    “A canção é a literatura da África do Sul. Nunca houve reunião política na África do Sul em que cantar não fosse a atração principal", explicou Masekela à rede ABC, da Austrália.

    As dificuldades de seu país natal foram tema constante ao longo da carreira. Em um álbum de 1966, “Grr”, ele incluiu a música “Sharpeville” para lembrar do massacre de anos antes.

    Foto: Reprodução
    i am not afraid
    Capa do álbum 'I am not afraid' (não tenho medo, em tradução livre), de 1974
     

    Em “Stimela (Coal Train)”, Masekela fez referência aos trens que carregavam mineiros de vários países vizinhos para minerar ouro perto de Joanesburgo, “dezesseis horas ou mais por dia por quase pagamento nenhum”. “Soweto blues”, uma de suas mais conhecidas, trata da morte de crianças durante outro grande massacre de manifestantes negros por forças do governo em Soweto (South Western Townships), distrito urbano próximo a Joanesburgo, em 1976.

    No fim da década de 90, a música “Bring him back home” (“Traga ele de volta para casa”) se popularizou ao exigir que Nelson Mandela fosse libertado da prisão. “Quero ver ele andando pela rua com Winnie Mandela”, diz um trecho da letra.

    De volta à África

    No começo da década de 70, Masekela retornou para a África, se estabelecendo na Guiné. Nesse período, fez amizade com o músico nigeriano Fela Kuti, que o apresentou à banda ganense Hedzoleh Soundz. Com ela, o trompetista gravaria os álbuns “Masekela Introducing Hedzoleh Soundz” e “I am not afraid”.

    Em 1980, Masekela realizou um show no Lesoto, enclave dentro da África do Sul, ao lado de Miriam Makeba, outra artista sul-africana exilada e de sucesso nos EUA. Masekela e Makeba foram casados entre 1964 e 1966. Era a primeira vez que os dois se aproximavam do país natal. O evento atraiu cerca de 75 mil pessoas e deu origem ao álbum “Live in Lesotho”.

    Um ano depois, Masekela se mudou para Botsuana e fundou uma escola de música e estúdio quase na fronteira com a África do Sul. Foi uma chance de se reconectar com músicos sul-africanos, mas encarada como provocação pelo regime sul-africano. Diante de ameaças de retaliação de grupos armados pró-apartheid, Masekela teve que voltar para Londres.

    Em 2012, em entrevista ao jornal The Guardian, Masekela declarou ser incapaz de perdoar os algozes da população negra de seu país. “Acho que a coisa mais difícil na África do Sul foi as comunidades antes desfavorecidas terem que se conformar com o fato de que o opressor é hoje mais rico e que o sistema agora lucra cinco ou dez vezes mais do que no tempo em que havia o embargo econômico [internacional contra o regime do apartheid]”, afirmou. “As desigualdades ainda estão lá.”

    Ouça abaixo uma playlist preparada pelo Nexo com 20 músicas das várias fases da carreira de Hugh Masekela

     

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

    Já é assinante?

    Entre aqui

    Continue sua leitura

    Para acessar este conteúdo, inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: