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A polêmica envolvendo Tifanny, primeira mulher trans do vôlei brasileiro

Jogadoras apontam vantagens por atleta do time de Bauru, em São Paulo ter crescido como homem; não há consenso na ciência

     

    A comissão médica da Federação Internacional de Vôlei (FIVB) se reúne nesta quarta-feira (24) para discutir a participação de atletas transgênero no esporte. O encontro ocorre em Lausanne, na Suíça.

    A reunião acontece em meio ao debate, no Brasil, sobre a jogadora Tifanny Abreu, primeira transexual a receber autorização para jogar com mulheres no país. Sua participação exitosa tem causado incômodo entre outras jogadoras, que afirmam que ela desfruta de vantagens por ter crescido como homem.

    Tifanny não é a primeira trans a jogar entre mulheres. Na Itália, Alessia Ameri joga na segunda divisão. Sua contratação também foi polêmica, mas o clube afirmou que ela é mulher perante o Estado italiano e que sua contratação foi baseada em sua qualidade técnica. Segundo o jornal La Repubblica, porém, Alessia é “menos encorpada”  que Tifanny, o que torna a participação da brasileira no esporte mais polêmica. Na Espanha, já foi dada autorização para que Omaira Perdomo participe de competições no feminino - ela tem 18 anos e já competia entre mulheres na categoria juvenil.

    Em outros esportes, são conhecidos os casos de Renée Richards, tenista americana que também enfrentou resistência, e Laurel Hubbard, neozelandesa que se tornou a primeira trans a ganhar medalha no levantamento de peso, no Mundial de Anaheim, nos EUA. Ela foi acusada de se aproveitar de ter nascido homem para vencer no esporte.

    A história de Tifanny

    Tifanny nasceu Rodrigo, há 33 anos, em Goiás. Segundo o jornal Folha de S. Paulo, teve pouco destaque na carreira quando jogava entre homens, restrita à segunda divisão. No entanto, o técnico do Juiz de Fora, onde Tifanny atuou ainda como Rodrigo, disse ao jornal Estado de Minas que ele foi essencial na subida do time para a série A da Superliga.

    Em 2012, Rodrigo deu início aos tratamentos hormonais, concluídos em 2014, quando passou por cirurgia para redesignação sexual. Continuou jogando entre homens até o início de 2017, quando recebeu autorização e passou a atuar, na Itália, na liga feminina. Enfrentou críticas no país europeu pelo mesmo motivo que tem provocado reação no Brasil: a possibilidade de ter vantagens em relação a mulheres cis. À época, respondeu à crítica dizendo que talento contava mais do que gênero.

    “Não se joga bem vôlei só porque se é uma trans. Conta sobretudo o talento, é preciso saber jogar. Minha essência é de mulher: eu mudei para mim, e o vôlei é meu trabalho.”

    Tifanny Abreu

    jogadora trans

    Em dezembro de 2017, o Bauru anunciou a contratação da jogadora para atuar na Superliga de Vôlei do Brasil. Estreou no mesmo mês e, hoje, já é o maior destaque do vôlei feminino brasileiro, com média de 23,3 pontos por partida. A segunda melhor jogadora, Tandara, do Osasco, tem média de 20 pontos. O Bauru ganhou 3 das 5 partidas que jogou desde a estreia de Tifanny. Antes, tinha 3 vitórias em 6 jogos.

    Apesar de autorizada a jogar, a presença de Tifanny causa incômodo entre atletas e outros profissionais do esporte. Uma das vantagens que ela teria seria a força, por ter crescido como homem e feito a redesignação sexual apenas aos 29 anos. Também dizem que Tifanny, com 1,94m, é mais alta que a maioria das atletas. A jogadora mais alta do campeonato é Thaísa, do Barueri (1,96m). Outro benefício seria o de ter treinado, durante o período de formação, entre homens. No vôlei masculino, a rede é mais alta (2,43m) que no feminino (2,24m).

    “É justo simplesmente fingir que estas inegáveis diferenças biológicas não existem em nome de uma agenda político-ideológica que servirá para cercear um espaço tão duramente conquistado pelas mulheres ao longo de séculos?”

    Ana Paula Henkel

    jogadora de vôlei, em carta aberta publicada no Estado de S. Paulo

    Para ativistas trans, as críticas à participação de Tifanny são fruto de preconceito. Renata Peron, presidente do Cais (Centro de Apoio e Inclusão Social de Travestis e Transexuais), disse ao UOL que a sociedade se incomoda de ver mulheres trans em outras posições que não as de prostitutas. E afirma que o tratamento hormonal, feito por toda a vida, traz efeitos colaterais que precisam ser considerados. “Eu, enquanto mulher trans, posso assegurar que, entre outras coisas, experimentei perda de massa muscular, de densidade óssea, força e até velocidade.”

    As regras sobre transexuais

    Atualmente, a federação de vôlei segue uma regra do COI (Comitê Olímpico Internacional) que determina que atletas não precisam passar por cirurgia de redesignação sexual para serem consideradas mulheres. É necessário comprovar apenas que o nível de testosterona no sangue não ultrapassa 10 nanomol por litro em dois exames em 12 meses. Os exames de Tifanny, de acordo com o Bauru, resultaram em valores abaixo de 1.

    A federação internacional de vôlei diz que os atletas são classificados como homem ou mulher segundo os documentos emitidos por seu país. Para participar de competições internacionais, é preciso ter um certificado de verificação de gênero emitido pela FIVB. Já para competições nacionais, cabe à federação local autorizar a participação do atleta.

    Em comunicado, a FIVB anunciou que irá rever as condições para emissão dos certificados de gênero. As conclusões devem ser anunciadas apenas após os Jogos Olímpicos de Inverno, que ocorrem em fevereiro na Coreia do Sul.

    Em entrevista à Folha de S.Paulo, o médico Bruno Borges, integrante do comitê da FIVB, apoiou a diminuição do limite de testosterona no sangue e a realização de exames com mais frequência.

    O que a ciência diz

    De acordo com especialistas, não há estudos suficientes para dizer que transexuais têm vantagens no vôlei, quando competindo com mulheres, ou não.

    “Não tem estudo que mostre isso, então é achismo. Hoje temos um critério, que é a testosterona”, disse João Grangeiro, membro da comissão nacional de médicos do vôlei, órgão subordinado à Confederação Brasileira de Vôlei, ao portal UOL.

    O critério, porém, pode ser imperfeito, já que a testosterona pode, durante o desenvolvimento do corpo (quando era mais alta que no momento da medição, em mulheres trans), trazer mudanças fisiológicas.

    Ao jornal O Estado de Minas, Harold Christo Aleixo, médico de esporte do Atlético e do Minas, disse que, como não há estudos suficientes, qualquer conclusão seria precipitada.

    “O que está em discussão do ponto de vista médico não é a questão social, de aceitação ou não. Um dos desafios da medicina esportiva é definir se a redesignação de gênero pode proporcionar ao atleta alguma vantagem fisiológica. E não existe essa resposta ainda.”

    Alternativas

    Após a polêmica envolvendo Tifanny, jogadoras e dirigentes sugeriram algumas alternativas. Entre elas estão a criação de uma liga exclusiva para transexuais e o uso de cotas destinadas a elas.

    A liga exclusiva foi proposta pelo treinador do Brasília, Sérgio Negrão. “Para jogar entre os homens, a Tifanny é muito fraca. Para jogar entre as mulheres, é muito forte, e vi isso de perto. Então tenho sim essa ideia de que possam fazer uma liga alternativa aberta a todos os transexuais, inclusive com uma rede a 2,35m”, afirmou, em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo.

    Em um podcast do site Dibradoras, a ex-jogadora Sheilla foi questionada sobre a possibilidade de criação de cotas para atletas transexuais. “[As entrevistadoras] falaram de cotas e concordei que talvez seja a solução para não excluir ninguém. O esporte é sim um ambiente de inclusão social e vai continuar sendo”, afirmou. Durante a entrevista, Sheilla disse que Tifanny tem vantagens por ter crescido como homem.

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