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Esta pesquisa contou os orgasmos femininos e masculinos na pornografia

Pesquisadores analisaram os 50 vídeos mais assistidos no Pornhub.com, o site pornô mais acessado no mundo

 

Segundo dados de 2016 do IBGE, 63,6% dos domicílios brasileiros têm acesso à internet, e em 94,8% deles há celulares usados para acessar a rede. Até 2013, menos da metade dos domicílios tinha acesso à internet.

Assim como redes sociais e notícias, falsas ou verdadeiras, o acesso à internet também significa acesso quase ilimitado à pornografia, para pessoas de qualquer idade. A ciência ainda debate quais são os efeitos dessa profusão inédita de cenas de sexo explícito sobre a população. Entre os temas discutidos por especialistas estão desde a percepção de que a forma como as pessoas fazem sexo está mudando até a ideia de que as pessoas estão se dessensibilizando a estímulos sexuais.

Uma pesquisa publicada em junho de 2017 no periódico científico Journal of Sex Research buscou detectar a forma como o orgasmo vinha sendo retratado nos 50 vídeos mais assistidos no Pornhub.com, o site pornográfico mais acessado do mundo. Ele faz parte da Pornhub Network, uma empresa com sede em Montreal, no Canadá, que também controla os sites RedTube.com e YouPorn.com, entre vários outros.

Intitulada “Consumindo ecstasy: Representações do orgasmo masculino e feminino na pornografia mainstream”, a análise foi conduzida por Léa J. Seguin, Carl Rodrigue e Julie Lavigne, do Departamento de Sexologia da Universidade de Quebec, no Canadá.

O grupo concluiu que a forma como os orgasmos são retretados segue determinados roteiros sobre o que se espera de um homem e de uma mulher no ato sexual. E que os vídeos “perpetuam crenças irrealistas em relação ao orgasmo, em especial ao orgasmo feminino, assim como em relação à performance [sexual] masculina”.

Entre outros dados, as pesquisadoras observaram uma discrepância na proporção de homens e mulheres que chegavam ao orgasmo nas cenas. “A autenticidade - ou inautenticidade - dos orgasmos foi irrelevante para os objetivos do estudo.”

18,3%

Das 60 mulheres presentes nos vídeos pareceram atingir o orgasmo

78%

Dos 50 homens presentes nos vídeos pareceram atingir o orgasmo

O grupo faz a ressalva de que os vídeos analisados são voltados para um público heterossexual predominantemente masculino e exibem principalmente pessoas brancas. É possível que o material pornográfico voltado a outros públicos, como gays, ou mulheres feministas, representassem outros tipos de ideias sobre sexo.

Como foi realizada a pesquisa

Em 2016, um ano antes de o trabalho ser publicado, o Pornhub recebeu aproximadamente 23 bilhões de visitas e teve quase 92 bilhões de vídeos visualizados. Em média, os usuários tinham 35 anos de idade, e 26% deles eram mulheres.

O grupo de pesquisadores utilizou os próprios filtros do Pornhub para selecionar os 50 vídeos mais visualizados no site. Um vídeo que consistia em uma compilação de homens ejaculando foi, no entanto, excluído porque não se encaixava nos objetivos do trabalho.

Um pesquisador homem e uma pesquisadora mulher analisaram independentemente os vídeos em busca de uma série de sinais predeterminados.

Eles procuraram sinais que a literatura científica destaca como característicos do orgasmo, tanto de homens quanto de mulheres: contrações involuntárias nos glúteos pouco antes do orgasmo, contrações involuntárias nos músculos da face e do abdome durante o orgasmo, além de hiperventilação - grande aumento da quantidade de ar que ventila nos pulmões - pouco antes e durante o orgasmo. E, no caso masculino, a ejaculação.

As pesquisadoras anotaram quais eram os atos sexuais finais que levavam ao orgasmo do homem e da mulher.

De todos os vídeos, 45 mostravam um encontro entre uma mulher e um homem, os outros cinco mostravam cenas de sexo grupal. No total havia 60 mulheres e 50 homens nos vídeos. Enquanto apenas 18,3% das mulheres tiveram orgasmo, essa proporção foi de 78% para os homens.

“Nos casos em que os homens não atingiam o orgasmo, os filmes eram ‘teasers’ fortemente editados, incitando o público a baixar a versão completa”.

O que o grupo observou

Clitóris esquecido

Apenas 25% dos orgasmos femininos ocorreu com a estimulação do clitóris. E 45% por meio da penetração vaginal. Isso, na opinião dos pesquisadores, “reflete a representação social do orgasmo feminino obtido por meio do coito como ‘normal’ e ‘superior’ ao obtido pela estimulação do clitóris”.

Homens no comando

A pesquisa também afirma que a pornografia faz um retrato pouco realista do que esperar da performance masculina. A estimulação das mulheres, inclusive do clitóris, é feita pelos homens, e nunca por elas mesmas. “Além de atar a masculinidade à proeza sexual, esse script da performance masculina constrói os orgasmos femininos como um produto do trabalho e técnica sexual dos homens aplicados ao corpo da mulher, transportando a responsabilidade física do orgasmo feminino para os seus parceiros masculinos”, afirma o trabalho.

Na avaliação das pesquisadoras, essa transferência de responsabilidade tem um efeito duplo: rouba das mulheres uma parte de sua agência e deposita pressão sobre os homens heterossexuais.

Ejaculação

O pênis era a única parte visível do homem em 51,3% dos orgasmos masculinos. Para o trabalho, a exclusão da maior parte do corpo dos homens pode ser uma forma de facilitar a objetificação da mulher, tornando mais fácil que o público adote o ponto de vista do ator pornô.

O fato de que a ejaculação foi o indicador da esmagadora maioria dos orgasmos masculinos reforça a noção de que ele é algo simples e facilmente atingido, diz a pesquisa.

Ângulo

Contorções faciais foram o indicador visual de orgasmo mais comum entre as mulheres, mas apenas 10,3% dos orgasmos masculinos foram acompanhados de expressões faciais. Isso ocorreu porque “os rostos dos homens deixaram intencionalmente de ser capturados pela câmera na ampla maioria dos casos”.

Altura dos gemidos

“Os gemidos femininos eram quase sempre mais altos do que os dos homens em cada vídeo, com os gemidos dos homens soando frequentemente como algo mais próximo do sussurro e os das mulheres como algo mais próximo ao grito”, afirma o trabalho. Para os pesquisadores, o homem é mostrado como “em controle do próprio corpo”, enquanto os prazeres do corpo feminino são retratados como “intensos demais para serem controlados”.

Ao contrário do orgasmo masculino, marcado pela ejaculação, não há entre as mulheres um sinal externo tão claro da existência do orgasmo. O trabalho afirma que isso, aliado à ansiedade gerada pela ideia de que gerar o orgasmo feminino é uma atribuição essencialmente masculina, leva à criação desse tipo de performance entre as mulheres, que inclui tremer e contorcer o rosto, como forma de “reduzir a ansiedade em relação à sua autenticidade e reduzir as ansiedades dos homens em torno de suas próprias performances sexuais”.

Orgasmo final

Em apenas um dos casos o último indivíduo a ter orgasmo era a mulher, e em apenas um homem e mulher atingiam o orgasmo simultaneamente. De todos os orgasmos masculinos, 51,3% ocorreram com o homem induzindo o orgasmo no final, ou seja, se masturbando para ejacular. Outros 25,6% ocorreram por meio de penetração vaginal, 7,7% por meio da estimulação manual do pênis pela parceira e 5,1% por sexo anal.

Isso, segundo os pesquisadores, “reflete o imperativo do orgasmo”, segundo o qual o orgasmo é a forma mais alta de fruição sexual e a única maneira de finalizar satisfatoriamente um encontro sexual. Pesquisas anteriores indicaram que mulheres tendiam a fingir orgasmos como forma de induzir o orgasmo dos parceiros e finalizar indiretamente o ato sexual, enquanto homens fingiam orgasmos com o intuito de finalizá-lo diretamente.

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