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Por que o Reino Unido agora tem uma ‘ministra da solidão’

Cerca de 15% da população declara se sentir sozinha; problema é preocupante também nos EUA e no Brasil

 

“Para muitas pessoas, a solidão é a triste realidade da vida moderna”, declarou a primeira-ministra britânica Theresa May, no lançamento de uma iniciativa que pretende discutir políticas públicas para lidar com o tema. A ministra do esporte e sociedade civil, Tracey Crouch, será responsável pelo grupo de trabalho, apelidado de “ministério da solidão”.

O grupo seguirá recomendações de uma comissão criada para dar seguimento ao trabalho da deputada trabalhista Jo Cox, assassinada por um militante de extrema-direita. O problema da solidão no Reino Unido era uma das principais plataformas de Cox.

Ao mesmo tempo, o governo britânico promete uma estratégia mais ampla, que inclui a coleta de dados e informações que ajudem na medição da solidão e ajuda financeira e logística para entidades que atuem no combate ao problema.

No Reino Unido, um relatório de 2017 apontou que mais de nove milhões de pessoas, cerca de 15% da população, se sentem sozinhas com frequência ou sempre. Apesar do problema afetar principalmente aos idosos, uma entidade apontou que “em 2017 fomos contatados por novos pais, crianças, deficientes, cuidadores, refugiados e idosos para falar sobre sua experiência com a solidão”, declarou em nota à imprensa a comissão Jo Cox.

Um levantamento de 2010 da Fundação para Saúde Mental britânica descobriu que pessoas entre 18 e 34 anos estavam inclusive mais propensas a se sentirem sozinhas com frequência e de se preocupar ou sentir depressão por causa da solidão do que aquelas acima dos 55.

O que a solidão pode causar

Nos Estados Unidos, mais de 40% dos adultos americanos dizem se sentir sozinhos, de acordo com pesquisa da Aarp, uma associação americana dedicada ao bem-estar de pessoas aposentadas. Em artigo para a Harvard Business Review, o ex-cirurgião geral dos EUA disse que o país vive uma “epidemia de solidão”.

Em um trabalho que se tornou referência na área, Julianne Holt-Lunstad, professora de psicologia e neurociência da Universidade de Brigham Young, nos Estados Unidos, concluiu que a solidão faz tão mal para a saúde quanto fumar 15 cigarros por dia ou ser alcoólatra.

“A evidência mostra claramente que ser ou não socialmente conectado tem um forte efeito nas suas chances de mortalidade”, explicou Holt-Lunstad, em entrevista ao site da universidade. “Há também evidências consideráveis de que a falta de conexão social está afetando uma proporção significativa da população americana e que isso está aumentando com o tempo.”

“A solidão tende a ser vista como um fato isolado, passageiro, sendo até mesmo mal interpretada como ‘frescura’ ou excesso de sensibilidade, quando, na verdade, é um tema delicado e importante, que pode estar atrelado a outras condições e quadros”, observou a psicóloga Cecília Fernandes Carmona, em entrevista ao Correio Braziliense. “Quando não trabalhada, ela pode evoluir para um quadro mais grave, como depressão, levando até ao suicídio”, alerta a coautora do estudo “A experiência de solidão e a rede de apoio social de idosas”.

Segundo um levantamento de 2017 da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia – São Paulo (SBGG-SP), em parceria com a Bayer, a solidão é o maior temor do idoso brasileiro. A preocupação está presente em 29% dos entrevistados pela pesquisa.

A fatia de idosos na população brasileira não para de crescer. Dados do Pnad-IBGE (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mostram que eles representavam 14,4% dos brasileiros. Em 2012, a parcela era de 12,8%.

 

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